Vale do Pati, a trilha da Chapada Diamantina (parte 2)

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Seu João, um dos moradores do Vale/Foto: D’As sementeiras

por Luciana Teruel

A trilha começou com uma subida leve de aproximadamente 2 horas até o Córrego das Galinhas. A nossa esquerda e a frente já avistávamos o começo dos impressionantes paredões de pedra. Fizemos uma rápida parada no córrego para abastecer as garrafas de água, comer algo pra repor energia e ir ao “banheiro”. Não precisou de muitas horas para percebermos que a água da Chapada é incrivelmente pura e límpida. Uma água “benta” que nutre a alma durante cada passo dado. Depois de 15 minutos, seguimos rumo ao Gerais do Vieira. Foram mais ou menos 4 horas andando num retão onde o visual era uma pintura divina. Céu azul, campo aberto, vegetação rasteira, solo rachado, montanhas nascendo do solo por todos os lados para onde olhávamos e vento soprando forte. Uma meditação em movimento. Paramos para comer num pequeno refúgio feito de troncos e sapê, que protege os aventureiros do vento e da chuva, e nos banhar na Cachoeira dos Cristais.

Energia reposta, seguimos com o mesmo visual, apenas a vegetação foi “subindo”, o solo ficou negro, o sol estava escaldante e uma nascente cortou nosso caminho para aliviar o calor, a sede e a alma. Enquanto nos aproximávamos da ponta do Gerais do Rio Preto brincávamos de desenhar com as nuvens sobre o Morro Branco. A reta acabou e sentamos para apreciar aquela imensidão de montanhas, serras e vales. Estávamos num lugar bem alto e era de arrepiar imaginar que aquilo ali embaixo um dia foi mar. Começamos então a descer por uma “pirambeira”, como dizem os nativos, o Quebra Bunda, e antes de chegar à igrejinha ainda passamos por uma linda mata fechada. O clima tinha mudado bruscamente de seco para úmido e isso alterou completamente a vegetação, tanto que a flor Quaresma coloriu de roxo a paisagem.

A igrejinha é um oásis humano no meio daquela natureza sem fim. Com uma igreja, quatro casas e um morador, seu João (que adora papear noite adentro), nos acolheu muito bem quando chegamos por volta das 18 horas mortas de cansaço. A infraestrutura é super simples e conta com banheiros e quartos coletivos, uma cozinha comunitária e a vendinha. A energia é gerada com placas solares e usada apenas para o necessário. Já o banheiro tem, por pouco tempo, água quente. A diária ali custa R$ 25,00 por pessoa e não há refeições oferecidas a parte, portanto é necessário levar ou comprar comida ali mesmo para fazer, com um adicional de R$ 8 por grupo caso precise utilizar o fogão. Famintos, comemos uma comida deliciosa preparada pela guia, conversamos com outros grupos que também faziam a trilha pelo Vale e fomos cedo pra cama, pois a aventura estava só no começo…

2° dia – Igrejinha até a casa de Seu Wilson e dona Maria

Antes de seguir para o nosso segundo destino, deixamos nossas mochilas na Igrejinha e fomos conhecer uma das maiores atrações da Chapada Diamantina, o Cachoeirão. A caminhada foi tranquila, quase toda em terreno plano, e cruzando vez ou outra com pequenos córregos que desembocam em cachoeiras. Passamos por uma pequena mata que mais parecia um mangue, pois as raízes das árvores estavam expostas e, combinadas com as cores dos musgos, nos fazia sentir num reino encantado. Seguimos andando numa reta, quando a guia parou e disse: “pessoal, de agora em diante, tomem muito cuidado por onde pisam, pois estamos chegando no Cachoeirão”. Não fazia o menor sentido, pois não víamos nem sinal de cachoeira. Demos então mais alguns passos e eis que um vale incrível foi surgindo sob nossos pés, como se o chão se abrisse para a cachoeira nascer. A emoção de chegar por cima numa cachoeira daquele porte e altura (são cerca de 200 metros de queda) é indescritível, algo que só pode ser sentido. Ficamos mais de uma hora ali em estado de graça, apenas contemplando a criação e conversando com a mãe-Terra… Depois desse choque energético, voltamos para a igrejinha para pegar nossas coisas e seguir viagem. O sol estava muito forte sobre nossas cabeças e isso nos deixou exaustos.

(continua)

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