Uma valsa com Maria Eduarda

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por Mochilowski

Era pra eu simplesmente lhe falar: olha como você está sendo gentil, Maria Eduarda [nome fictício]. A interna amiga, que me acompanhava com o raciocínio enquanto eu aguava um canteiro de alfaces, poderia mesmo ter se passado por doce se eu não a tivesse provocado com uma pergunta acerca da importância de Deus para a vida de muitos.

Feito uma ex-evangélica pentecostal e hoje ululante poeta neoiluminista, ela tascou:

O céu é só uma promessa / Eu tenho pressa, vamos nesta direção.

Eu ponderei que nesta sugerida direção a gente não iria muito longe com uma parte considerável de nossa audiência. Ela olhou por cima de uma imaginária cerca de arame farpado e fez cara de muxoxo para os nossos fantasmas de plantão.

E se eu informar que, em seguida, ela gritou “Atrás de um sol que nos aqueça /Minha cabeça não aguenta mais”?

A minha interlocutora, a quem eu jogo toda a dor e plasticidade pelo céu ser só uma promessa…! A garota não se comportou como deveria na semana passada, foi censurada pela monitora das monitorias. Um informe circular foi imediatamente emitido para todas as espécies em tratamento: de que deveremos zelar por nossa fama de smithisianos.

– Não é mesmo, Maria Eduarda Morrissey?

A moça estava no meu encalço, literalmente. De repente, me vejo transportando-a com os pés abaixo dos seus, numa valsa a passos lentos. Enquanto dançávamos, a moça cochichava, aos meus ouvidos, que queria fugir de “uma vez por todas” do nosso morro devastado…

Maria Eduarda, internada depois de três tentativas de suicídio. Três semanas de internação já eram demais para ela. My dear, eu estou aqui há meses e… O meu testemunho não colou.

Ela estava impaciente; pra variar, eu sou doente por pessoas impacientes. Ela estava possessa; pra variar, eu sou doente por pessoas possessas. Ela estava para explodir; pra variar, eu sou doente pelas pessoas que dizem o que pensam sem medir qualquer tipo de consequência.

Eu pensei em lhe dizer que lá fora as pessoas estão numa pior. Eu pensei em lhe dizer que, naquele chão rasteiro da civilização, (apontando um dedo indicador) a hipocrisia escorre mais depressa pelas narinas. Eu pensei em dizer que lá, as pessoas posam mais fortes do que as de cá. Por exemplo: lá, as pessoas apontam o focinho pras drogas que não pagam impostos com a mesma virulência de quem critica a opção carnal de outros críticos. Eu pensei em dizer para Maria Eduarda que estávamos a salvo de uma ilusão e preso a outra, dentro de um conhecido cercadinho. Dentro desta casa, eu ainda pensei em dizer para a interna sobrevivente: aqui a gente pode ao menos parar para usar um binóculo e ver um pouco melhor aquela linha do tempo, onde podemos notar um alvo que deixa ligado e manuseia um celular cheio de bactérias com e a dois dedos da própria bandeja de comida na hora do almoço; esta pessoa que vemos a longo alcance e que se alimenta de um hábito selvagem não pode estar bem, ela precisa urgentemente se filiar à nossa casa de recuperação.

– Você não acha, Maria Eduarda?

– O quê? Quem? Onde?

Maria Eduarda me lembra um tipo burguês que só faz pensar o tempo todo em si.

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