Uma tranquilidade falsa

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por Luiz Augusto Rocha

De frente pro boteco da esquina tem um pé de manga. Imenso. Eu até respiro para repetir, imenso. Ele fica em um terreno murado e a gente o vê muito acima das paredes. Hoje, aliás, já há mais ou menos um mês e meio, ele está carregado de frutas ainda verdes.

A tarde vai esmorecendo, perdendo a batalha para a noite e o que era um verde claro e vivo da mangueira se torna algo escuro. Só que isso é tão bonito. A saparia vai ensaiando o coral, de vez em quando atrapalhada por um carro que passa, buzina, um choro de menino ao longe (aquele de quase na hora de jantar).

Um estudante passa mexendo no que aprendi (e não é mais) ser um telefone; uma estudante também passa cheia de um pacote que eu contei até o quarto livro, ela também mexia no telefone. Eu já fui como ela e ele?

É noite, é angustiante, é clichê, só não chove neste filme quase que pretendente a cult… A mangueira continua ali a me incomodar com sua plácida majestade.

Enquanto isto se desenho como uma crônica bucólica de um tempo/lugar saudosamente construído, apenas em São Francisco centenas de famílias seguem sobrevivendo abaixo da linha da pobreza, esperando (embora trabalhando miseravelmente mais do que eu) a vida melhorar.

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