Uma proteção contra urucubacas

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atualizado 21 setembro 2015 Deixar comentário
A Praia de Mar Grosso em período de sol e calor

por Jose Mochila

Depois de quarenta, cinquenta dias, resolvi ir à praia; dizem: a melhor praia da região sul do Rio Grande do Sul. Quem me dissera, me garantiu que é bonita. Me preparei com esta ideia de anúncio na cabeça. Sairia. Para o desassossego de Mafaldinha, minha então interlocutora-ima-adesivo de geladeira recém-adotado. Disse a ela, em alto e bom som, nos vemos, Mafaldinha! Mafaldinha, sempre com o dedo indicador da mão direita vibrando na direção de meu focinho, a evocar dizeres do tipo: “Tenga cuidado, pancho!”, “Te estoy veindo!”. Sempre com um gesto de chamada de atenção esta Mafalda. No creo, chica! A mocinha prodígio não quis me ouvir, eu não quis ouvi-la. Pronto. Saí de seu alcance. Deixei a eterna criança esperta gesticulando no silêncio do apartamento. “Hasta la vuelta!”. Era sábado, o diálogo de malcriados fora suspenso. Para ser mais preciso, trato de um sábado de sol de queimar as costas de crianças desobedientes soltas nas ruas à revelia dos pais. O clima estava propício para um vamos ver o que vai dar. Esbarrei com este pensamento de pretensa grafia mística, a minha decisão de conhecer um dos cartões postais de São José do Nortchê. Além dos prédios históricos, entre os quais, a edificação da matriz da igreja católica, há muita coisa para se conhecer neste cenário de mundo que, deveras, transcende as nossas notas periódicas. Como se eu fosse um guia turístico, eu vos transmito: depois da Lagoa ou Laguna dos Patos, há o Molhe leste, o refúgio dos leões marinhos, a Barra, localidade do Estreito e a Praia do Barranco. Os títulos, na realidade, superam a tinta de panfleto oficial. Eu, pra ser bastante franco, ainda não conheci todos os lugares. Logicamente, eu não fiquei pensando nestas coisas quando fui tomar um ônibus na rodoviária. De hora em hora, há um transporte até o dito mar grosso. Uma fortuna de dois reais em troca de uma carona de quinze minutos. Cheguei perto das 17 horas ao destino do dia, animado.

O ônibus freou ao lado de uma lanchonete. Por um instante, eu só consegui ver anúncios de cervejas na minha frente. Mais alguns passos, esbarrei com uma bruta imagem de uma santa. Iemanjá ou Santa Bárbara? Deixei a pergunta retórica de lado, segui adiante na direção do mar. Eu não podia conter a ansiedade, queria por que queria sentir no rosto o bafo de vento fresco vindo das ondas. Súbito, me perguntei: se as ondas da Praia do Mar Grosso usam antisséptico sabor eucalipto? Não ventava muito, apenas o suficiente. Me aproximei rápido do Atlântico; com falta de sutileza, molhei os calcanhares. Olhei do lado esquerdo, carros por sobre a areia, pessoas n‘água; olhei pro meu lado direito, carros por sobre a areia, mais pessoas n’água. Optei por caminhar na direção direita de quem chega no cartão postal, onde tinha mais gente para fotografar.

Não economizei nos cliques. Tirei foto de tudo e de todos. A pessoa passava ao lado, eu sem vergonha alguma, clic, clic. Lembro-me de um casal. Eu tive a petulância de pedir para que eles sorrissem para a minha lente de câmera de celular. Um jovem não gostara de meu clic. Uma criança que cavoucava na areia enquanto eu passava por perto, me ignorou completamente.

Nem preciso dizer que me tomaram como um turista japonês? Na verdade, antes que este clichê fosse promovido, tirei a camiseta, enrolei meu celular e fone de ouvidos, carteira, chaves numa peça de roupa e tudo. O chapéu de vaqueiro pampeano, desta vez ficara em casa. Pus minhas coisas enroladas por cima de uma sandália de borracha. Saí correndo só de cueca na direção das ondas do mar, fazendo um ahhhhhhhhhhh de doido varrido. Um grito para o nada até me perder surdo num mergulho. Desta vez, eu dei um cano na reportagem, troquei o relato da Praia do Mar Grosso pelo sal grosso do mar. Como dizem os brasileiros, uma proteção contra urucubacas, mal olhados para fora do corpo.

Ali, lembro-me, o ano de 2015 começaria para mim.

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