Uma panorâmica de pretensos recuperáveis

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atualizado 30 outubro 2015 Deixar comentário

por Mochilowski

Comecei a ver em todos os internos a cara do Morrissey, ex-The Smiths. Se eu comecei a viver a realidade concreta de uma casa, todos os internos amigos possuem a cara do Morrisey e usam gel azul em excesso, camisetas pretas, calças pretas, tênis pretos, batons pretos. Pasmem, as figuram usam batom preto dos ultrarromânticos da famosa Avenida Paulista!

De fato, eu desenhei uma imagem que fazia jus a um momento de oscilação. Quem sabe, por estar entretido com o eco do hit Suedehead. Uma lembrança de dez anos atrás, quando testemunhei dois ditos smithsianos abrindo uma garrafa de cachaça para, em seguida, despejar todo o líquido num recipiente de liquidificador com suco de laranja em pó.

Por que você vem aqui, verso ordinário? Agora eu tento me fazer entendido a partir de uma espécie de Machu Picchu. Eu quis dizer, na casa de recuperação para almas e corpos havia um lugar celebrado como Machu Picchu. Isso, Machu. Isso, Picchu. Acalmem-se, eu não evoco vida diretamente do Peru. Aliás, não faz muito que eu disse que discursava de uma geografia brasileira?

A casa de recuperação ficava fatalmente num morro devastado. Tentem se colocar na posição deste precário aprendiz de Hans Castorp; de onde eu revivo há espaço para qualquer tipo de resgate. Como objeto de purificação, me vejo praticando sincericídio a mais ou menos 2 mil metros e 100 de altura, extasiado por uma paisagem que mescla Mata Atlântica e Cerrado.

Deste lugar, preciso lhes garantir que literalmente penso alto?

Creiam, as imagens que lembram a nossa Machu Picchu foram documentadas para uma possível comprovação jurídica. As fotografias estarão disponíveis, quem sabe, num tempo ainda não alcançado.

Eu dizia? Uma panorâmica de pretensos recuperáveis é bom demais além da conta...

Tchê…! Ainda posso me recordar sombrio naquele morro deformado pela ação do homem.

Olhem comigo, imaginem uma miniatura de cidade que oferece existência a uma cavidade absurda.

Deste cume: será que podemos suspeitar alguma sanidade daqueles citadinos lá debaixo?

Enquanto ainda me noto bem longe de qualquer recuperação, penso que sou, por extenso, Steven Patrick Morrissey com os cabelos encharcados de gel azul.

Por um ato, este interno sonha que pode errar ou ser pessoa sem ser sumariamente julgado.

Por um ato, estou com os pés acionados para um voo brusco, de cima de uma pedra de trocentos quilos outrora esculpida por vassalos que não me trazem compaixão por já estarem mortos.

Por um ato, sou puro ego, sem coração.

Por um ato, estou à mercê de uma escorregada de abismo.

Por um ato, eu penso ser mesmo um morrissey entre cópias de rasos mortais.

Suedehead nunca foi a minha preferida dos Smiths.

Sou mais Reel Around the Fountain.

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