Um show de rap, um sinal dos tempos

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atualizado 20 abril 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

A certa altura, me vi entre a vontade de captar imagens de um autointitulado Criolo e o impulso de me deixar levar por uma audiência de apelo místico, cênico, referencial. De fato, a casa Audio toda estava conectada com o que chamei de moda charme criolex. Uma moda que, acrescentariam especialistas em música rap, inclui também um deliberado tom de manifesto. Bem o que muitos, a face de menina tranquila de A. e eu pudemos supor depois de um repique preliminar de berimbaus: “Falar demais, chiclete azeda / Chama o SAMU e ensina pra esse comédia / Respeitar nossos princípios / Tem mais Deus pra dar que cês tudo num penico…”. Uma engolida de saliva, olhos que se estalaram, ouvidos que se dilataram com o trecho subsequente: “Antigamente resolvia na palavra / Uma ideia que se trocava / O respeito que se bastava / Dinheiro é vil, tio geriu, instinto viril / AR-15 é mato e os moleque tão de fuzil.” Paralisado, embasbacado, admirado, surpreendido por uma figura com engenho de repentista urbano: “Do Grajaú ao Curuzu, pra imigração meu povo é mula / Inspiração é Black Alien, é Ferrez, não é Tia Augusta / Verso mínimo, lírico de um universo onírico / Cada maloqueiro tem um saber empírico / Rap é forte, pode crê, “oui, monsiuer” / Perrenoud, Piaget, Sabotá, Enchanté”. Sem ar no organismo, boca entreaberta e cara de novidade, sem cessar meus e nossos ouvidos de multidão: “É que eu sou filho de cearense / A caatinga castiga e meu povo tem sangue quente / Naufragar, seguir pela estrela do norte / Nas bença de Padim Ciço, as letra de Edi Rock / Calar a boca dos lóki / Pois quem toma banho de ódio exala o aroma da morte”. “Hoje não tem…”. O refrão veio forte, rápido, denunciante. Tratando de beijo, alma, vida, dinheiro, terno e gravata, filha, mundo, e de um céu de uma boca de um inferno esperando você, eu e quem sabe ouvir ou quem conhece ou ouviu falar deste retrato de mundo: “É a esquiva da esgrima, a lágrima esquecida / A cor da minha pele, eu sei, tem quem critica”.

A certa altura, uma luz reacendeu na cuca. A anestesia musical tinha terminado, santo rapper? Numa tentativa de ser mais claro, o chapa aqui estava tão concentrado no desempenho artístico do protagonista da noite narrada… A sensação de um gozo anestésico foi suspensa num quadro. Dois ou três subiram no palco com uma faixa. As luzes se apagariam; Criolo, DJ DanDan e o MC sumiriam de cena. Eu já não estava entendendo mais nada. Até ali todas as músicas cantadas faziam parte de uma grande colagem e eu conseguia projetar todas como se fossem uma grande e só composição. Se eu citei uma faixa com uma mensagem e figuras no palco? A sensação de gostosa fuga da realidade caiu literalmente na pista quando me notei evocando junto com uma massa um dito sinal dos tempos. Como num sonho de madrugada relembrado numa manhã seguinte, pude ler num horizonte a imagem de DJ DanDan cochichando com o público, em tom de desabafo, num intervalo de música. Súbito, uma inesperada suspensão de um show da atualidade. Como tem acontecido em inúmeras praças do país, a casa Audio do bairro Água Branca, em Sampa, abriu passagem para um consagrado coro de consciência política, vida social e registro histórico:

– NÃÃÃO VAI TER GOLPE… NÃÃÃO VAI TER GOLPE…

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Bônus de imagens do episódio

      

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