Um retrato às margens de

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atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Pátios sem pisos.

A libertação de todos os nossos fantasmas.

Sem aulas? Recesso escolar? Greve?

Já não havia mais fofoca alguma às margens do Lago Paranoá.

A graça do cotidiano deu lugar a uma máquina sem organismo.

Qualquer sinal de vida que surgisse, ali, naquele abismo visual, podia causar uma explosão.

A Universidade de b. como uma franga depenada, sem plumagem, sem patas.

Diante de nossos olhos míopes, aquele quadro sem molduras.

As salas de aula fechadas, sem numeração definida.

Os corredores vazios, por estarem vazios, os corredores já não eram como antes.

Guichês sem os chefes de departamentos…

Todos fugiram para o Serrado, meu Deus?

Qualquer pergunta falada naquele momento seria interpretada como um monólogo inútil.

Onde foram parar os universitários e universitárias de b…,meus brinquedinhos?

Sem mais interrogações, os velhos personagens vagaram numa clima de deserto, apostei.

Mesmo. A esta altura, a recordação é de um lugar distante de nós.

Vejo agora um copo de caipirinha cair nos pés de um desconhecido. Seu chinelo de dedo melado fica com o súbito retrato de falso vômito. Um acidente. Testemunhei precisamente um sujeito que não consegue controlar os próprios braços!

Longe de pesquisadores complexados, a reportagem sem solução chega a um boteco sujo e escondido do sol, localizado numa cidadezinha ao redor do Plano Piloto. Chamam-na de cidade satélite. Talvez, para que os desavisados pensem que Brasília é como um planeta. Ou o centro do Universo. Ou a puta que pariu!, a saltar da língua de um indivíduo num instante de tensão.

– Vai querer o quê?

Domingo. Era responder ou responder.

Desejaria uma boa canção: letra modesta e som marcante; assim, eu não pensaria além da conta.

Que tal um poema de Bandeira? Parei de imaginar coisas.

Faltava-me uma passagem só de ida pra Pasargada.

Olhei pra cara oleosa do vendedor, travestido numa camisa cinza desfiada na gola; um sujeito com semblante pardo e preso a um olhar supostamente parado no tempo:

– Um vinho barato, por favor!

Pedi a bebida do sul do país, sem notar que estava mesmo fora de órbita.

No sul do país, a bebida é o vinho.

No sul do país, os vinhos baratos são bons.

Lembrei-me do Sul e da mania por emancipação federal dos sulinos.

– Quase ninguém bebe vinho por aqui – um sujeito ao lado cortou meus pensamentos.

Ameaçaria algumas palavras, mas sou logo contido pela falta de tempo pra reações.

A solidão é o verdadeiro senhor da razão!

É. Boteco é mesmo um espaço apropriado para filosofias.

– Aqui o pessoal só bebe cachaça – eu ainda tive que escutar.

Pra ser verossímil com o acontecimento, eu ainda tive que ouvir coisas a mil.

Abreviei-as. Um choque de civilizações, outra linguagem!

Outra realidade, outro modo de falar:

– A cachaça vem de Minas – fui devidamente informado.

Quem enxerga bem, seja onde for, pisa firme no chão e reconhece o solo onde está pisando.

Fiquei na dúvida, se era mesmo o meu caso.

O sujeito ao lado logo nota a minha cara de poucos amigos.

Observo-o sem intimá-lo, evitando um sabe-se lá o que pode acontecer se eu encarar muito.

O sujeito tinha a cara do vendedor.

Neste boteco, quase todos se parecem com o vendedor, logo deduzi.

O sujeito ao lado sorve fundo um gole de bebida de um clássico copo americano.

Nosso vizinho de mundo rememorado bebe como quem experimenta um remédio conhecido e apreciado diariamente, produto comprado sem nota fiscal e sem a necessidade de prescrição médica.

– Esta cachaça é da boa!

Da urgência do outro de ser visto publicamente, uma espiada atravessada.

Arrisquei-me com uma retratação.

A imagem daquele sujeito lembrava-me a de outros vizinhos!

Era a falta do que fazer.

Era a busca por uma razão de ser.

Era um conflito por reconhecimento pessoal.

Meu copo de vinho então cravou no balcão.

Ouvi um tlim.

O vendedor perguntou se eu queria mais alguma coisa?

O vendedor perguntou-me se eu queria mais alguma coisa.

Era o que eu queria; não necessariamente o que eu precisava.

– Este vinho é uma porcaria – ouvi mais uma manifestação crítica do sujeito ao lado, justamente no momento em que eu me preparava pra bebericar o pedido.

Cessei os movimentos.

Virei o rosto lentamente.

Fui logo aconselhado a experimentar de vez a dose:

– É barato mas é bom, manda ver, cara!

Depois desta, percebi que o sujeito ao lado queria mesmo conversar.

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