Um mal súbito (parte 2)

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atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Pedi água…?

Não me lembro se realmente pedi água.

– Nosss… gente, ele tá com os lábios roxos – uma fulaninha assinalaria bem próximo.

Se minha boca estava mesmo roxa, eu não podia ver.

Um drama danadogalera.

Os sentidos meio que paralisados.

Meus sentidos meio que foram sendo recobrados.

Aos poucos, pude notar que havia vida na Universidade de b.

As vozes aumentavam paulatinamente.

As vaidades humanas foram momentaneamente cessadas, eu podia apostar que sim!

Por um instante, uma multidão deixou de pensar sistematicamente em si para acudir um determinado semelhante de convívio diário. Explorei o máximo possível a minha posição de vítima protagonizante:

– De certo, faltou água no organismo dele – um tonto cogitou uma hipótese.

Faltava água em meu organismo. Se faltava água em meu organismo?

– Sai, sai! – Contrarregra logo procurou uma distração, tentou dissipar o conjunto de chupins ao redor de meu nariz. – Chispa, chispa – o amigo acrescentou.

Na posição de enfermo e testemunha da zorra, eu sentia na testa suada o carinho das mãos de Vagabunda.

Em poucos minutos, os chupins vazariam.

Ao lado, passei a respirar na presença do casal de amigos.

Ainda sem dizer uma mísera palavra. Sem abrir o bico, passei a pensar num motivo que me levara ao chão.

Contrarregra, entendedor da matéria, (vai saber) fez pose de compreensivo:

– Vai ver que… – ele disse-me algo absurdo.

Vagabunda ficou em silêncio, quase que em posição de solidariedade.

Diferentemente de sua amada, Contrarregra passou a falar mais do que o homem da cobra.

– Já sei! – ele sentiu uma luzinha acessa nos olhos.

Nosso Sancho do século 21 saiu-se com um achado. Lembrou-se, na verdade, de seu potinho mágico.

Os desatentos ou os desavisados de plantão devem saber desta nota: Contrarregra é praticamente um morador da Universidade de b. Vive o nosso amigo naquele espaço sacrossanto de cabeças pensantes de Brasília, dorme por lá por sinal, estica-se em qualquer canto daquela bagaça, gasta boa parte de seu auxílio estudantil com o conteúdo de seu cantil inseparável.

Até então, eu fingia não saber do conteúdo daquele cantil.

Até então…

O amigo então me passa o cantil.

Traguei fundo aquele líquido de valor fora de mercado.

Fiz caretas diversas após o primeiro goró.

A água benzida desceu rasgando a minha garganta.

Era o que eu tanto precisava…

… naquele instante de auto desligamento.

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