Um mal súbito (parte 1)

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atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

– Ei!

Súbito, percebo alguém me chamando.

Passava por um pátio na Universidade de b., num dos dois chamados mezaninos.

Aquele…

– Ei!

Voltava da biblioteca. Era tarde até. Escurecia. Última quinta-feira. Cabeça cansada. Sabe como é?

Havia passado a tarde toda pensando numa inalcançável ideia original para um livro futuro.

Quanta falta do que fazer a minha!

– Ei!

Outra vez…

Continuei andando.

Se me recordo bem, continuei andando feito um ator perturbado e sem salário: com a cabeça baixa, os olhos semifechados e sem levar o rosto de lado.

– Ei!

Aquele chamado?

Fiz que o ruído não era mesmo comigo.

Segurei-me no ato antissocial até a voz estourar num canto de uma parede.

– Porra, jornalista!

Tasquei lentamente o nariz na direção daquele chamado.

Contrarregra, o nosso Sancho do século 21?

Contrarregra!

Nosso amigo surge mais uma vez como um idoso de expressiva autoestima, cômico e desengonçado.

De fato, vi um sorriso a estampar o rosto daquela figura sem noção da vida, vi um semblante de ser despreocupado com o mundo, vi uma aparência social de um ser mal alimentado.

Quis crer, naquele preciso instante de realidade, que não era mesmo meu amigo de cotidiano quem estava ali, coçando o cocuruto de sua namorada, num love danado de final de tarde.

Vagabunda com a nuca nas coxas de seu namorado?

Quis crer de novo a respeito daquela imagem de assombração, que Vagabunda não era mesmo a autointitulada Vagabunda,  aquela que não tem pudor das moralidades de plantão, mas logo tive uma reprovação de pensamento, uma resposta de franca telepatia:

– E a e jornalista sem solução, por onde tem andado?

Incrédulo com o encontro inesperado e com cara de muxoxo, eu fiquei em silêncio de velório.

– Pô, minha Vaga? Olha só o nosso amigo jornalista sem solução. Deu pra ficar mudo agora!?

O casal de amigos ali, juntinhos da Silva, diante de minha vista cansada, respectivamente:

– Vagabunda, a feminista desbocada além de seu tempo.

– Contrarregra, o estudante crítico de todas as regras.

Porra, onde estou, quem sou eu? Quando voltei a si, Contrarregra me amparava com a ajuda de sua amada.

Que choque de realidade danado…

Havia desmaiado subitamente e sem motivo aparente.

Uma fraqueza física de momento, uma dor inesperada de pesar o cérebro e os bagos esquecidos.

Um motivo pra ser notícia de corredor? Um monte de gente se juntaria aos pés de meu desabamento.

Sem saber da noção do tempo, me veriam logo cercado por um monte de mãos munidas de capas de fichários coloridos a abanar um oxigênio providencial em minhas ventas.

– Rapaz, o que tá havendo? – ouvi algo assim da boca de Contrarregra.

Sem muita condição pra responder, estalei os olhos de espantalho para o amigo e demais.

Ao lado, se me lembro bem de um reflexo, Vaga dava existência ou extensão a uma dezena de curiosos que, naquele ato de desgraça pessoal, pareciam me gorar com o sangue quente ainda preso aos pulsos.

(continua)

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