Um café, por favor

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De uma padaria nortchense

por Jose Mochila

Saio ansioso de meu casulo para tomar um café vespertino numa padaria da cidade. Localizei-a numa de minhas caminhadas pelas ruas e calçadas irregulares de nosso cenário de mundo. Lembro-me de ter parado rente à porta do dito estabelecimento e perguntado sobre o uso do espaço para leitura e revisão de textos durante um café. Dois dias depois, eu já respondia a um tradicional “pois não, o que deseja” e descobria que o café da casa panificadora não é do meu gosto devido. O café é feito à máquina? Franzi o cenho com ar de surpresa na hora da fala da atendente. “Não tem café coado?”. Como se eu precisasse acrescentar: “Só tem café da máquina?!”. Diante de minha provável cara desfigurada, a atendente retribuiu a sua: a de quem, além de atendente, parece fazer a vez de dona do negócio. Aliás, ela expressou algo mais. Como se eu não tivesse sentindo o chão, a atendente com cara de patroa levou um dos braços na mira de uma máquina de fazer café. “É esta aqui!”. Claro, ela não chegou a tanto. Acredite, ela chegou a tanto.

Em vez de um café sem gosto de borracha, acabei aceitando um café com gosto de borracha. Assim são quase todos os cafés feitos à máquina. Ah, eu disse algo para tentar salvar a minha visita àquela padaria que curiosamente me escapa o nome neste instante. “Café com… Por favor, se der para acrescentar o leite no café”. Para mim mesmo, bem baixinho: “Com leite, para ver se corta o gosto de borracha”. Disfarcei, com receio de que minha voz interior tivesse escapado para a esfera das convenções sociais. Coffe, coffe. Creio que a mulher nem percebeu a expressão facial de quem luta diariamente para não engolir parte da realidade social que nos é imposta. Atenta à sua função, a atendente me perguntou ainda se eu queria “algo mais além do café”. Ou melhor, “se eu iria comer algo”. Eu respondi “só o café, por enquanto”. Ah, sim. Eu poderia esperar na mesa, que alguém iria levar o pedido, “pois sim”. Virei o rosto, e identifiquei o que à distância me pareceu um acento ideal.

Quando cheguei ao fundão da padaria, o sentimento foi semelhante ou ainda maior do que o da surpresa com a oferta única de café feito à máquina. As mesas identificadas à distância, pude notar, compunham um lugar que, a priori, me pareceu aconchegante. O que parecia ser quatro mesas entre outras mais, era apenas quatro mesas e nada mais. E digo mais? Assim que eu me sentei numa cadeira… Assim que eu alegremente abri um livro, um ruído afamado cravou em meus tímpanos. Uma televisão que eu não havia percebido antes; um aparelho com o áudio de desestabilizar qualquer concentração de leitura.

Tentei ler um trecho do livro que eu levei junto a um encarte, e nada. Tentei em seguida rabiscar algumas linhas e fazer algumas anotações de canto de página, e nada. Na tela dependurada na parede, um sujeito tagarelava com ares de quem adora entreter, tirar ou desviar o foco de trabalho das pessoas.

O pedido. Enfim o café chegou. Junto dele, uma base fina redonda para a xícara, o pires e um potinho com açúcar. Enquanto eu queimava o bico com o café, o chato da tevê tagarelava tagarelava. De bandeja para quem chegou até aqui: a nossa tragédia de uma tarde de serviço perdido. Deixei de lado a minha leitura e revisão de textos; fui incrivelmente sorvido pelas imagens da tevê, pela efusiva reprise de trechos editados de uma telenovela antiga.

Em tempo: simmm, eu consegui beber o café maquinado.

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