Tio Tão, Sebastião

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Bar Tio Tão, localizado no bairro Sebastião (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Evitei qualquer ladainha que eu pudesse adotar de antemão e já me notei atuante no Bar Tio Tão, localizado numa das bandas da Praça Getúlio Vargas. O lugar fica num bairro paralelo ao centro de Ubá, chamado São Sebastião. No momento já estou tomando uma e conversando com Valter, o Valtinho, se ouvi bem o que ele me disse: um sujeito de uns 58 anos. “Natal” – fui logo alertado ou lembrado de viva voz por um rapaz do lado, que por provocação chamou o outro por nome diferente. “Você parece mesmo o Natal”, insistiu o rapaz com tatuagem no braço. Valtinho negaria a suposição, rindo do interlocutor. “Se eu fosse o Natal, não estaria aqui!”. Natal, logo eu soube, é um cara supostamente podre de rico em Ubá. Como eu não conheço o tal de Natal, passei a observar o Valtinho que estava sentadinho numa cadeira ao lado, junto da minha mesa, como ele de fato dizia ser: Valtinho. O derivado de Valter tem o perfil de um sujeito que fala fala fala e não parece que se cansa de falar. Encheu a boca pra dizer: bebi seis branquinhas antes de sair de casa! Logo notei estilo e irreverência no companheiro de mesa. Valtinho alternava um copo de cerveja com um de “branquinha”. Uma mesa ao lado, Tateado só espiava o parceiro de conversa fiada. Tateado é um rapaz de 29 anos e piloto de motocicleta, eu saberia. Tateado, aquele de tatuagem à mostra num dos ombros, estava ali antes de eu chegar. Assim como Valtinho. Enquanto meus dois vizinhos de pileque conversavam, eu me ocupava de observar o espaço. Bar Tio Tão, que eu conheci outro dia numa visita com amigos ubaenses. Da outra vez, eu fiquei à distância, bebendo da calçada oposta a da que dá existência concreta ao boteco. Desta vez, preferi entrar. Trouxe o meu focinho supostamente produtivo pra este espaço sacrossanto de biritas e distrações. Se observei bem, vi um casco de tartaruga gigante num pilar erguido no meio do boteco. “Será que pesa uns cinco quilos?”, perguntei pra um vovô que atua como garçom e atendente no Bar Tio Tão. Eu saberia logo do nome da figura: Paulo. Paulo ou a máscara de José Celso Martinez, o Zé Celso, um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro, então vivo. Pra mim, Paulo era Zé Celso. Mas me segurei pra não dar bola fora e chamá-lo de Zé. Paulo não me parecia pessoa ilustrada e que quisesse confabular a respeito de teatro nacional. Ele, livre de minhas fantasias, me serviu há pouco e eu logo perguntei se ele era o dono do estabelecimento. Não era. Quem então responde pelo Bar Tio Tão é a Laura, irmã-herdeira de Sebastião, antigo dono e falecido há uns dois anos. Valtinho fez sinal com a mão, apalpando o peito, sugerindo que o antigo titular do boteco da vez morreu de problema de coração. Há, abaixo do imenso casco de tartaruga instalado num pilar estrutural, uma moldura com uma foto do antigo patrão do pedaço. A foto do falecido Sebastião, inclusive, é curiosa: destaca uma figura ou simplesmente um retrato público de Tio Tão com o dedo indicador numa calculadora. Deve de ter amado muito a calculadora e os fechamentos de contas de boteco este sujeito!

Enquanto eu me concentrava na descrição do lugar, Valtinho se defendia de Tateado. Incansável, Tateado continuava a atacar o meu colega de mesa. “Não sou o Natal! Não sou!”. Tateado, como se tivesse percebido que o parceiro de pileque tivesse mordido e engolido a chumbada junto com o anzol, repetiu o nome de Natal até Valtinho começar a justificar porque era pé-rapado e não o aludido rico ubaense. “Sou dono de oficina! Já tive empregado e hoje não tenho mais! Todos os funcionários que tive me roubaram!”. Foi uma senha pra que Valtinho e Tateado começassem a falar de política e eleição? Ave Maria, saí de casa pra evitar o demônio e quando me noto vivo, o demônio usa a boca alheia pra se fazer presente. Começaram a meter o pau numa figura conhecida de todos: o ser humano! Ate aí, tudo bem. O problema é quando começam a colocar uma máscara no tal ser humano e fazer de conta que se está falando de um ser extraterrestre. Meus amigos paus d’água confabulavam sobre política nacional e o som de um aparelho de televisão que emitia mensagens políticas competia com eles em abordagem semelhante. Aliás, um tempinho atrás notaria que o ibope do Tio Tão dá atenção a um programa televisivo de “jornalismo mundo cão” também existente e muito reproduzido em outros botecos ubaenses. Na minha passagem pelo Bar Arizona, testemunhei  dias atrás, a mesma sanha por boletins de ocorrência e tragédias passionais que destacam as desgraças mais incompreensíveis de um grande centro urbano do país, em especial.

Como pode o interesse televisivo dos mineiros ultrapassar a fronteira interestadual assim?! Esta minha abstração estava fora de cogitação e fiquei na minha tentando relevar o que as manifestações populares espontâneas ubaenses tinham a me dizer ali no Bar Tio Tão. Mirei Valtinho novamente, percebi seus olhos vermelhos de excesso de bebida nas veias. Valtinho, agora filósofo, em fala pro amigo Tateado: “A vida é tesão! Acabou o tesão (putz!), acabou a vida!”, disse ele com voz ardida e fazendo sinal de pinto mole ou reduzido com uma das mãos para todo mundo presente do boteco ver. Nesta passagem, Valtinho se levanta. Coloca a mão no ombro de um visitante recém-chegado e cochicha algo no ouvido do outro… Valtinho, tecnicamente, deu dois passos à frente e, em seguida, dois passos pra trás. Voltaria pra sua cadeira existencial e repassaria o holofote pro nosso Zé Celso, vulgo Paulo, que agora passa um paninho molhado na mesa onde Tateado se encontra. No exato momento em que o dublê de Zé Celso prepara o palco pra chegada de um sujeito de camiseta regata vermelha que vai ocupar o posto vazio ao lado de Tateado… O nome do novo personagem, eu saberia, cita diretamente o nome do próprio boteco. Sebastião chegaria à mesa com uma tigela, um copo de cachaça cor amarela nas mãos e uma cara de quem até merecia episódio exclusivo num diário futuro. O novo personagem de boteco trouxe do balcão uma porção de buchada. A birita veio de um vidro transparente enorme postado no balcão. Sebastião ignoraria a clássica dedicatória pro santo e mandaria ver, em parcela única, dois dedos de pinga pra guela.

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