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Gentes

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por Luiz Augusto Rocha

Tem gente que é um pote até aqui de mágoa.
Tem gente que é uma ânfora de mistério.
Tem gente que é um vaso transbordando alegria.
Tem gente que é um copo meio vazio de tristeza
e meio cheio de plena alegria.

Todas as pessoas, e eu me incluo,
são um recipiente para a angústia,
que fica à espreita
doida pra trincar a gente.

______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Bem feito

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por Luiz Augusto Rocha

Você é ignorado,
bem feito!
Você recebe um xingamento,
bem feito!
Você leva um tapa na cara,
bem feito!
Você ganha um soco no estômago,
bem feito!
Você é violado,
bem feito!
Você perde a batalha,
bem feito!
Você vê, ouve, sente o amargo na boca,
bem feito!

Você tenta,

Você levanta,

Você sorri,

Um sorriso lhe sorri de volta
e a garganta prende…
Bem feito.
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Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Paternidade

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por Daniel Baz dos Santos

Presta atenção na tua morte, meu filho.
Te alimenta
do doce do salgado do amargo do azedo
– todas as descendências da fome.

Toma do martelo, da enxada, da vassoura.
Livra-te das paredes, das plantas, das poeiras.
Ou frequenta o frio dos que sonham.

Tua mãe enfurecida escolhia o feijão
com os dedos magros de nos pedir silêncio
e um cadáver imperdoável na voz.

Se sentes fome, não posso te dar
menos do que mais um dia.
Nada fica fora por tanto tempo
decidindo se mata ou se engorda.
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

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Erro

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

As novidades me moviam sem forçar o organismo, podia falar sem machucar, sem ferir os outros, tocar sentidos abstratos, errar como Paulo Leminski, que privilégio o meu errar sem aspas, feito Leminski! Eu erro, sustentava o poeta, porque só o erro tem vez. É uma ilusão deliciosa brincar com as palavras, pensei; concluí de imediato, eu que nunca fui um leitor obsessivo do Leminski, passei a ser, no fundo de minha neurose, do perigo de minha vaidade demente, um notável lemiskiniano.

Os erros me conduzem por linhas desconhecidas, por ambientes obscuros demais para alguém com pouco hábito de anunciar o que os outros desejam ouvir. Da necessidade natural de se fazer ouvir, admito um dos motivos radicais da existência deste redator. Inventei-o, portanto, com a então necessidade de remediar o meu estado crônico de solidão, de melancolia e de ceticismo.

Tão sem graça, tão amena a vida, arrisquei, mais com irritação do que com espírito arrogante, pois o erro – por falar mais uma vez no dito cujo –, o erro maior, observando-o como tal, de minha parte, o erro seria não extrapolar os limites do desconhecimento de uma dada prática, o erro seria ignorar uma satisfação imediata e objetiva, após descobrir ou constatar que o erro, o erro, o malfadado erro não existe!

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Os abraçadores das árvores

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Um outro mundo é possível?

por Elizabeth Suarique, a Bete

É possível viver conforme outros princípios? O sonho hippie ainda tem seus seguidores e ficar perto deles da vontade de tentar.  Agora estou com os abraçadores das arvores do Rio Grande, gente fina que aproveita o esforço de seus parentes para se libertar da acumulação dos bens e procurar sua felicidade. Casa, emprego, despesas, aposentadoria, não faz parte de seus planos. Eles trocam o sucesso econômico pela horta, a construção da casa caipira e uma vida simples, sem plásticos e isopor contaminante. Essa a geração dos filhos da democracia. Nem tudo mundo pode aprovar o seu modo de vida, pois para alguns pode ser uma atitude abusada, já que os pais se esforçaram a vida toda para oferecer a seus filhinhos aquelas coisas que eles não tiveram na sua infância,  no entanto alguns destes filhotes cresceram no ambiente da paz e do amor à liberdade, em consequência, agora se acham com a coragem para se afastar dos padrões de sucesso, discurso velho! A sociedade bem sucedida quis poupar o sofrimento das crianças, então a família fica numa fria quando o gurizinho de 25 anos decide largar a faculdade, procurar um emprego simples de garçonete e morar com os seus amigos, numa baita ocupação lotada de artistas e peregrinos.

Na verdade, o abraçador da árvore fez uma escolha, mudou o estereótipo de pessoa bem resolvida. Após conquistar o sucesso econômico, o cara resolve se demitir da sociedade de consumo. Ontem um abraçador falou para mim como às vezes recuar nas economias compensa com a felicidade, também se pode viver com pouco, não precisa se matar de um infarto, chegar à solidão na raspagem da pedra pra advertir como sua saúde esta danificada pela histeria da aquisição, essa ilusão de acreditar na acumulação de bens e dividas para garantir a qualidade de vida. Mas qual vida? Questionam eles. Por enquanto, os filhos da Mãe Natureza quer ser pobres, vestir do brechó, viverem da pesca, do pão feito em forno, da horta, dos ovos de codornas… Será possível? É sim, ao que parece as pessoas conseguem mudar as prioridades da sua vida, eles não dependem do excesso da tecnologia  para achar o conforto, de fato, a Natureza oferece todos os recursos que as pessoas precisam para viver. O estilo de vida é um processo assumido na maturidade, pois significa se emancipar dos padrões sociais para se aceitar na diversidade, para aprender na experiência direta, acreditando não na solidão do individuo, mas na companhia dos outros seres da vida, na descoberta de todos os níveis de consciência possíveis. Para eles a faculdade se faz na estrada, nas viagens de bici, na aprendizagem dos ofícios feitos a mão, aqueles conhecimentos que não podem se certificar na plataforma lattes.

Achei estes abraçadores das arvores muito requintados nos seus gostos musicais, samba só até a Clara Nunes, tango, jazz, clássico e os dinossauros do Rock. Da cena nacional aqueles baita underground, as músicas urbanas tem que chegar com alvará para se ouvir num sarau. Os diálogos com eles é um sermão de dados estadísticos sobre a diminuição dos recursos naturais, relatórios científicos sobre as contraindicações  dos produtos farmacêuticos, tudo isso aprimorado pela mostra no mapa das paisagens naturais do seu território, com o pano de fundo de um som bem legal de Mano Chau. Em quanto à política, permanecem à margem, pois acham ao brasileiro classe A, B, C, D e E o culpável de todos os desacertos. No entanto também tem seu bairrista, aquele que se acha o profeta da Mãe Natureza. Ele não admite os produtos culturais da mídia, implica contra o sistema e rejeita o cumprimento da lei, no entanto, aproveita toda a assistência social. Nos temas das artes parece detido nos anos setenta, numa forma psicodélica da beleza, mas sem perceber que até o hipismo mudou também.

O perigo de se ligar a esta galera, é você esquecer seus planos de sucesso, se questionar sobre suas escolhas e até terminar recusando o uso do desodorante em beneficio de seu cheiro natural. Foi o que eu percebi de longe, na rua, no parque, na universidade, e de perto, na amizade, na parceria. Infelizmente para os abraçadores das arvores o mundo pode ficar estreito e seletivo. Você conhece um abraçador da árvore que leva para outro, e assim em diante. Os abraçadores das arvores  procuram-se pelo cheiro, pelo visual, todos  irmãos num bom astral. Gostei do convívio com esta galera, mais uma experiência neste Brasil cada vez mais complexo de definir num ritmo só, numa cor só, numa vida só. Pode ser que eu esteja enganada, ainda sou muito ingênua para compreender algumas coisas destas terras do sul.

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Dolores

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por Nina Alencar Zur

Meu nome é Dolores. Pelo menos foi Dolores o nome que me escolheu. Plural de dor em espanhol. Nasci mirrada, quase sem respirar, há vinte e oito anos recém-completos. Acho que foi uma forma estúpida da vida me dizer, desde o princípio, que eu não acharia jeito fácil de me entender com as coisas. Aliás, só encontro recados nos eventos estúpidos, como se eles é que fossem realmente importantes na minha história. Fiz-me aos improvisos. Tive uma infância difícil, cresci sem método. O meu corpo não obedecia aos comandos do mundo, era um mato a brotar em terreno baldio. Sem ninguém pra tomar conta. É isso, meu corpo foi crescendo como sem dono. Não era nem um tantinho meu. Lembro bem do nojo que sentia dos pelos grossos que começavam a aparecer em minhas pernas, naquela fase em que a gente se dá conta de que toda infância acaba. Tinha medo de observar as mudanças mais sutis, e pedia a Deus para que desse uma trégua naquele tormento de virar gente grande. De nada adiantava. Meu corpo ficava cada vez mais distante do que eu era.

Logo que entrei na escola, um pouco antes da alfabetização, fiz amizade com as meninas. Elas gostavam daquele sujeito atrapalhado, que não sabia muito bem o que dizer, nem a hora de dizer. Quantas vezes riram de mim… Eu entendia melhor as suas brincadeiras, sempre gostei de pular corda e jogar amarelinha. Tinha uma imaginação de artista, acho que pra compensar a ausência do corpo. Inventava jogos que faziam o maior sucesso. Os meninos, normalmente, não me davam muita conversa. Achavam-me uma coisa fora do normal. Era como se eu estivesse a desafiar o entendimento daquelas crianças. Imagine, um menino que não gosta de jogar futebol! E só escolhe as fantasias de princesa na sexta-feira. Os anos assim se passaram, comigo sempre a forçar portas para encontrar um espaço. Aprendi a ignorar olhares tortos e ofensas gratuitas. O mais difícil foi aguentar a prisão de não estar no corpo certo. Sentia-me menos gente, menos digna, a conviver com um inimigo grudado na alma, me aporrinhando noite e dia.

Quando me apaixonei pela primeira vez, aos quinze anos, as coisas ficaram ainda mais complicadas. Apaixonar-se é sempre uma forma de sofrer. Tudo se sente aumentado, as fragilidades todas tomam gigantescas proporções. Achei que não ia resistir ao episódio bruto do amor, que chegou a mim através de um vizinho. Chamava-se Estevão. Por um ano inteiro, andei magra, fugindo das pessoas, sempre de olhos arregalados para não ser surpreendida. Senti um medo enorme. Tinha vergonha daquele sentir, como se a mim, que negaram o corpo, também proibissem o desejo. Quando cruzava com Estevão, virava a cara e apertava o passo. O coração acelerava, parecia estar a ponto de explodir. Já longe, chorava. E como chorava. Chorei todos os dias daquele ano. Não poderia explicar a uma pessoa tão inocente, acostumada com os desígnios naturais da vida, o que era aquela confusão que eu causava ao mundo. Sentia-me culpada por estar insatisfeita. Optei por deixá-lo em paz.

A adolescência seguiu estranha. Odiava o meu próprio corpo, sentia raiva dos músculos e cheiros que tinha. Quando estava quente, eu fedia muito. Explicaram-me que eram os hormônios. Comecei a raspar todos os pelos, a fazer a sobrancelha, a vestir o que desse na telha. Nem assim a aflição diminuiu. Ainda tinha pau, não conseguia me masturbar direito, achava o mundo injusto para caralho. Revoltei-me com aquela situação. Não conseguia conversar com ninguém sobre o que me acontecia. Era uma vontade de me virar do avesso, trocar tudo. Eu não era aquele horror que via no espelho. Usei todo tipo de droga. Arrumei briga na rua, só trepei sem camisinha. Quis mesmo me foder. Não adiantou, saí ilesa de tudo. Era forte o meu corpo de macho. No dia em que fiz dezoito anos, ganhei um vestido azul marinho de presente da minha mãe, com um decote nas costas. Foi a coisa mais linda do mundo. Era como se ela estivesse, com aquele presente, dizendo que me entendia. Acalmei. Há gestos que dão de nos sossegar.

Aos vinte anos, já mais largada de angústias e um pouco melhor resolvida, decidi me operar. Finalmente um ato de coragem. A gente precisa dela na travessia. Gastei o que podia e o que não podia, peguei dinheiro emprestado, caí em dívidas. Mas cumpri com a minha decisão e isso não tem preço. Pela primeira vez na vida, me senti honrada. Era capaz de gritar pelas ruas que, enfim, haveria de conseguir um corpo. Entrei em contato com uma alegria que nunca antes sentira. Era como se eu estivesse a nascer de novo, só que dessa vez de verdade. Até ali tinha sido uma grande mentira. Depois de dois anos, um sem número exaustivo de consultas médicas, pesquisas, dúvidas e noites insone, fui internada. A última pessoa em quem pensei, antes de tombar com a anestesia, foi o Estevão. Não sei por quê. Às vezes a gente também é traída pela mente, não só pelo corpo.

Foram quatro cirurgias e pós-operatórios sofridos. Minha mãe virou um anjo a me acompanhar naquele tempo. Cantava ao pé da cama para ver se amenizava as dores que eu sentia. Quando me recuperei, surgiu o nome Dolores. Digo que surgiu porque as coisas que surgem parece que vêm porque têm de ser nossas. Foi o jeito que encontrei de nunca esquecer o quanto me custou brigar por mim. Junto dos hormônios que passei a aplicar, também veio uma liberdade que poucos vão conhecer nesse mundo. Quase todos a têm sem se dar conta, já que faz parte da ordem das coisas poder ser quem se é. Para mim, aquilo era uma novidade inquietante. Ganhei confiança e força para continuar atropelando os preconceitos. Caminhava orgulhosa, de peito aberto. Eu tinha dois peitões lindos demais! A primeira vez que fui à praia de corpo meu, fiquei até o fim do dia. Chorei quando o sol se pôs, mas de felicidade. Fui grata à vida.

Hoje, sou uma mulher feliz. Tenho as minhas decepções e impaciências, como qualquer pessoa, mas sou feliz. Trabalho, comprei um dálmata e há um ano e meio vivo com meu amor. Não com o primeiro amor, mas com o último, provavelmente. Ele sabe que nasci fora do corpo e gosta disso. É um grande companheiro. Nosso maior sonho é adotar uma criança, e para nós não importa que seja menino ou menina. Amanhã vamos a Porto Alegre. Ainda não posso usar documentos com o meu nome verdadeiro. Na passagem de avião, serei Antônio. Embarcarei calada.

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Vida intensa

atualizado 13 outubro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

Uma vida só
para três empregos,
cinco projetos sociais,
dez cursos,
– de inglês à interpretação dos barulhos
das baleias jubarte.

Vamos conversar um pouco!
não há tempo,
não tenho tempo,
agora não!
Preciso viver.

Posso ligar, dia desses?
Pode, dia 30 do mês que vem,
às seis e quarenta e cinco da manhã.
Fechado! Eu ligo, então…

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Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Do grandioso show da vida

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Vai ver.

Vai ver o “carro novo” de sua tia, lá fora.

A recomendação eufórica de minha avó sempre me comove; de modo distinto, a lembrança de minha terra natal possui a imagem obrigatória de minha avó materna.

Vai ver.

Vai ver, menino!

Fui ver. Sem hesitar, fui. Um pouco por curiosidade; outro pouco pela grande consideração que tenho pela mãe de minha mãe.

Vou ver, vó, sem demora. Diante de uma máquina prateada, fiz a vez de considerar quem parece comparar a realização de suas ambições a um bem simbólico pincelado com status de promoção social.

Carro vistoso! Observo sem pronunciar mais que duas palavras de deferência: muito bonito! Interiorizo um comentário: trata-se de um digno objeto de consumo da então chamada “nova classe média urbana” da Era Lula. O carro tem até uma traseira arrebitada que, por uma associação de ideias aparentemente estranha, me fez lembrar do rebolado gracioso das bailarinas do programa semanal de um famoso colecionador de Rolex. Alguém haverá de concordar comigo: ambas as imagens devem chamar a atenção do público.

Visualizei uma então multidão de seis ou sete espectadores – sem contar outro tanto amontoado dentro do veículo. Com certo exagero, percebia uma espécie de mini show da vida, nas proximidades de um centro urbano.

Observava o carro atentamente – novíssimo! Vá lá, quase zero.

Antes de perguntar pelo preço, disse que se tratava de “uma máquina feita pra poucos”. Atenta ao que eu dizia, minha tia deixou escapar um riso de vaidade comprimida. Quem me dera ter um deste?

Ainda preciso dizer que falo de um registro de século 21?

Saio de perto do automóvel; volto pro interior da lembrada casa da avó, esbarro com outra cena: a televisão, o deleite dos brasileiros genuínos. Ponto sugestivo: algo me prende a atenção. Pergunto qualquer coisa para o mais próximo. Esbarro com um primo adolescente. Sem muito me olhar no rosto, ele me responde com qualquer coisa. Direciono meu nariz pra telinha, vejo uma imagem impactante. Logo entendi o gesto de “o mais próximo”. Um sábado à tarde, num sabe? Não, não deve haver coincidências na associação de imagens. Súbito, me noto numa multidão de dois fiéis da comunicação de massa nas dependências de uma sala de grande prole, enquanto o restante da turma promove um salve pro mais novo “membro” da família.

A vida e seus pequenos espetáculos! Consagrado lazer, chapado entretenimento! Era justamente a vez do grandioso show da vida de Luciano Huck e suas santas bailarinas.

Para o contentamento dos fiéis de plantão, as santas bailarinas estavam em estado contínuo de ação de graças…!

Primo? Primo? Meu primo nem piscava…

 

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Em Sampa

atualizado 13 outubro 2014 Deixar comentário

por Aléxis Góis

Na urbes paulista
Sinto sede
de cheiro de mato
Do gosto do silêncio
Que a cigarra canta
E daquele cantinho ermo
Quase sem gente
Se dando bondias, cumade
Porque os carros alucinam anônimos os seres em constante frenesi histérico
E as luzes afiadas cortam
o equilíbrio de meu fio de vida

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