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Vale do Capão

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Um vilarejo “estacionado no tempo”

por Eliane Barros

A ideia de ficar mais tempo no Vale do Capão, e não em Lençóis, como muitos geralmente fazem quando visitam a Chapada Diamantina, partiu de um amigo baiano, o Alexis Gois, que na época estava desenvolvendo um projeto super bacana por lá: o Vale do Graffiti. E foi uma feliz ideia. Sabe aqueles lugares que basta uma volta na praça para logo você se apaixonar pelas pessoas que vivem ali, pelo clima que move a cidade? O Capão é um deles. A sensação é de que o vilarejo propositalmente estacionou no tempo. E assim foi. Por ser um ponto energético muito forte – o céu dali é incrível -, dizem que, na década de 1960 e 70, um grupo de pessoas se mudou pra lá para experimentar novas formas alternativas de vida, todas baseadas na contemplação e no respeito à natureza. Pessoas que deixaram o stress do meio urbano para viver a tranquilidade e a paz presentes ali em abundância…

E esse clima você já sente logo no caminho de terra que liga Palmeiras – cidade onde chegam os ônibus vindos de Salvador – até o povoado de Caeté Açu, nome oficial do vilarejo. São 22 km de paisagens que, de tão fascinantes, nos convidam a um exercício de autoconhecimento e reflexão.

Retratos de cinema

Já na vila, o vai e vem dos moradores, em meio às casinhas coloridas em volta da praça, é um convite à contemplação das montanhas presentes em todos os horizontes do Capão. E bastou uns minutos de prosa por ali para começar a descobrir a infinidade de projetos interessantes presentes no vilarejo de apenas 1.400 habitantes. Tem aulas de circo, sessões de cineclube, aulas de idiomas, festival de jazz, de grafite, centro voltado a espiritualidade… E o que mais nos encantou foi conhecer a Biblioteca e a Escola Brilho do Cristal, ambas comunitárias. Com uma filosofia pedagógica construtivista, a escola experimental de 1ª a 4ª série defende o diálogo amoroso e a arte como fundamentais no processo de construção de conhecimento. Ao invés de um currículo escolar autoritário, a Brilho de Cristal trabalha com temas e projetos transversais pensados de forma coletiva entre pais, mães, professores(as) e crianças. Tudo com base no respeito à natureza em busca da conscientização de cada aluno e aluna.

Alimentos de corpo e alma

Uma série de lojinhas de produtos naturais é outro convite, este para mergulhar na gastronomia local que também busca essa sintonia com a natureza. No Capão, aliás, difícil é encontrar alimentos transgênicos ou mesmo com agrotóxicos. Tudo vem dali, da horta do vizinho, ou dos sítios da região. Até o supermercado é um desbunde: tomam conta das prateleiras diferentes tipos de grãos, castanhas, frutas secas, e até mesmo cosméticos naturais, como sabonetes, cremes e demais produtos de higiene pessoal, muitos deles vindos da Campina, uma comunidade alternativa nos arredores do vilarejo.

Vários restaurantes, bares e pizzarias seguem também essa mesma pegada. Um dia almoçamos no restaurante Dona Beli, cujo PF com arroz, feijão, legumes, salada e ovos nos custou R$ 8. O sabor? Comida caseira, feita no fogão à lenha. Dona Beli também oferece pratos com galinha caipira e carne de sol. Outro dia comemos em uma pizzaria que nos surpreendeu pela massa super leve e integral, sem contar na qualidade dos ingredientes. Comandada pelo suíço Thomas, a pizzaria já tem mais de 20 anos e oferece apenas dois sabores, sendo um salgado e outro doce. Provamos o primeiro, feito com mussarela, molho de tomate, pesto (molho de azeitona, manjericão, alho e orégano) e cenoura. Um sabor de fazer até os mais carnívoros lamberem os dedos…

Um mergulho na gastronomia local do Capão significa também estar com o paladar aberto a novas experiências. Já imaginou comer um palmito de jaca? Pois essa é uma das iguarias mais presentes nas diferentes receitas do vilarejo, sendo o pastel recheado com ela (R$ 2,50) a mais famosa. De tão incrível, fizemos um post só pra este “palmito” (confira aqui), feito a partir da jaca verde, e que substitui perfeitamente o frango em receitas como coxinha e torta, além do pastel, claro. Outra tentação que conhecemos por lá foram as bolachas “Delícias da Gê”, feitas com um mix de cerais estilo cookies.

Trilhas e uma cachoeira de 380 metros

Exuberância como cartão postal

É do Capão que partem três das trilhas mais famosas – e mais pesadas – da Chapada Diamantina: Vale do Pati, Capão-Guiné e Cachoeira da Fumaça. Na primeira tivemos a felicidade de fazer com um grupo de amigos guiados pela Diana (confira aqui). Já a segunda ficou na lista de coisas a se fazer numa próxima visita à Chapada. E a terceira, por fim, foi algo que nos surpreendeu – e muito – mesmo depois de termos percorrido os quatro dias de trekking pelo Vale do Pati.

O acesso à trilha que vai à Cachoeira da Fumaça (vista por cima) é pela sede da Associação dos Condutores de Visitantes do Vale do Capão, a cerca de 6 km do centro da vila (um moto taxi pode custar R$ 10 até lá). Fomos de carona com o Gabriel e com a Luana, um casal super bacana que mora na Chapada dos Veadeiros e que também estava se hospedando na casa na Diana (nossa guia no Vale do Pati). E é da sede da Associação onde se inicia a subida de cerca de mil metros (cerca de 2 horas) até a exuberante vista da cachoeira, que tem nada menos que 380 metros de queda livre. É tão alto que, num primeiro momento, para não marear, o melhor a se fazer é deitar no chão/pedra e ir se aproximando/arrastando aos poucos até conseguir visualizar toda a queda. É uma sensação incrível, até porque sou um pouco fascinada por altura. A vontade que deu ali foi de iniciar, no dia seguinte mesmo, a trilha que vai até a cachoeira por baixo, algo que leva uns três dias. Mas isso também ficou para a próxima…

A trilha até a Fumaça por cima é autoguiada, mas em alguns pontos é possível se perder. No entanto, é uma das rotas possíveis de serem feitas no Capão sem o acompanhamento de guia. As outras são Riachinho, Cachoeira das Rodas, Rio Preto e Conceição dos Gatos. E há sempre mototaxis na vila que podem deixar o visitante no pé da trilha.

Como chegar? Desde Salvador, todos os dias uma empresa de ônibus disponibiliza veículo em direção à Palmeiras, por R$62,98. E sempre quando os ônibus chegam em Palmeiras há carros 4×4 ou vans que levam os passageiros até o Vale do Capão, pelo custo de R$ 10,00 (cerca de 1 hora de viagem).

Onde ficar? Durante o tempo que ficamos pelo Capão nos hospedamos na casa da Diana, amiga e parceira de projetos do Alexis e que, em dois dedos de prosa, também já era nossa amiga. Mas vimos que o Capão conta com pousadas e campings para todo tipo de gosto e de bolso. Das que ouvimos boas referências, uma delas é a Pousada Pé no Mato, com diárias desde R$ 35, e o Camping do Seu Daí, Tel.: (75) 3344-1057, e diárias a R$ 10,00. Outra ideia interessante é o Centro Lothlorien, que oferece o “hospedagem participativa”. É uma proposta onde o hóspede troca parte do custo de sua hospedagem por trabalho; experimenta um pouco da rotina, alimentação, tarefas e regras de convivência.

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Texto publicado originalmente em As sementeiras.

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Vila de Paranapiacaba

atualizado 30 outubro 2014 Deixar comentário
Paranapiacaba fica a menos de 70 km de São Paulo

por Eliane Barros

No último fim de semana tive a oportunidade de conhecer uma vila ferroviária bem próxima à capital paulista. Cercada de muito verde, e com um povo pra lá de hospitaleiro, Paranapiacaba é um desses lugares perfeitos para respirar ar puro e conhecer belas histórias. Tombada pelo Patrimônio Histórico Cultural, trata-se da única vila ferroviária do Brasil conservada desde sua fundação, que data da segunda metade do século XIX. Com um grupo de amigos de um curso de fotografia que fiz em São Paulo, nossa proposta ali era perceber e sentir um pouco dessa história marcada por trilhos e trens.

Distrito de Santo André (SP), Paranapiacaba está a menos de 70 km de São Paulo. Surgiu nos anos 1860 como centro de controle operacional e residência para os funcionários da companhia inglesa de trens São Paulo Railway, a qual transportava cargas e pessoas do interior paulista para o porto de Santos e vice-versa. E foi dessa proximidade de Santos que surgiu seu nome: Paranapiacaba, do tupi, significa “lugar de onde se vê o mar”, através da junção de paranã (mar), epiak (ver) e aba (lugar).

Caminhar pela vila é um pouco entrar nessa história, por meio de seus trilhos e trens, hoje já coloridos pelas diferentes ferrugens que revelam seu passado. É se deixar levar pelas cores e linhas de sua típica arquitetura, parte dela inglesa, chamada de Vila de Martin Smith, e parte conhecida como Vila Portuguesa, esta com influências lusas e inglesas. Ambas são interligadas através de uma ponte de ferro que passa por cima de todas as linhas da estação ferroviária.

Caminhar por Paranapiacaba é se deixar levar pelo ritmo das montanhas, do vento, da neblina que vai e vem no horizonte. É se permitir um dedo de prosa com cada morador que, da janela de suas casas, ficam a olhar o movimento dos vizinhos, dos turistas, das crianças brincando nas ruas, dos cachorros que estão por todas as partes. E foi assim que conheci dona Francisca de Araújo que, debruçada em sua varanda, aos 83 anos, sorriu para mim com um olhar singelo. Comentei com ela sobre a beleza de sua casa e tão logo ela me convidou para conhecer seu artesanato e seu maior tesouro: suas poesias. Foi como ver Cora Coralina em pessoa.

Com estrofes e versos, dona Francisca guarda em poemas a memória dos tempos áureos do vilarejo, quando moços bonitos caminhavam pela estação do trem. “Gente elegante, sabe?”, lembra a poetisa. E ali, visitando sua casa, dona Francisca me falou sobre a história da vila, do apogeu dos trilhos, e do início da decadência, na década de 1940, quando terminou o período de concessão da São Paulo Railway Co., e a vila passou a pertencer à União.

Cambuci, uma fruta na Mata Atlântica

E foi me perdendo pelo colorido da vila que também conheci dona Alzira Pellegrine. Em seu Espaço Gastronômico, na praça da matriz, dona Alzira vende sorvetes, tortas, geleias, entre outras iguarias, todas feitas com a fruta típica da vila e de toda Mata Atlântica, o cambuci. Confesso que antes de Paranapiacaba, Cambuci era pra mim apenas o nome de um bairro paulistano. Mas foi só chegar à vila inglesa que logo esse nome foi se tornando algo doce, com traços suaves de limão. Provei o sorvete de cambuci e recomendo a todos essa deliciosa experiência. Azedinho como o limão e de casca verde-amarela, o cambuci é parente da goiaba, da pitanga, da guariroba e da jabuticaba.

Com um sorriso nos lábios, dona Alzira me contou que não é o tipo de fruta que se coma in natura, já que é ácido, mas garantiu que seu sabor é incrível em diversas receitas, tanto doces como salgadas. Me falou, ainda, sobre a Rota Gastronômica do Cambuci, que este ano celebrou sua quinta edição, percorrendo cidades como São Paulo, Caraguatatuba, Paraibuna, Mogi das Cruzes, Salesópolis, Rio Grande da Serra, além da própria Paranapiacaba. E com brilho nos olhos, me mostrou mudas da árvore do cambuci, todas plantadas por um parente dela, o cunhado, se não me engano, e vendidas ali mesmo por R$ 5,00. Falou sobre a importância da Rota Gastronômica, que busca resgatar e fomentar o cultivo e o consumo da fruta, não só preservando uma espécie nativa da Mata Atlântica, como gerando renda para a comunidade local.

Horas depois, me despedi de Paranapiacaba com a certeza de um dia voltar para experimentar outras delícias feitas com cambuci, e para visitar as cachoeiras que estão ali pelas redondezas. Me despedi com a vontade de partilhar, naquela vila do século 19, milhares de outros sabores e belas histórias que ali habitam. Me despedi com o sentimento de gratidão às montanhas que rodeiam e protegem a vila, aos amigos do curso Rotas Poéticas da Fotografia de Viagem, e ao professor e hoje amigo, Marcelo Schellini.

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Texto publicado originalmente em As sementeiras.

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Refeição de viagem de volta

atualizado 13 outubro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

nas primeiras vezes quando eu chegava
sempre tinha quiabo no frango e polenta
além daquela bananada de colher

depois rareou-se a bananada
falta da fruta de açúcar ou de lembrar
até que já não tinha mais doce

depois duns dois anos nessas viagens
a polenta também foi deixando de aparecer
e o frango mais difícil de encontrar

mas ainda assim tinha o quiabo
verdíssimo quentíssimo
gostoso a danar

até o dia que também não teve quiabo
porque não tinha quem preparasse

assim como um poeta em concordata
pedindo auxílio de versos
peço à lembrança que eu não me esqueça
(daquela composição de mesa e saudade)

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Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Alô alô, El Loco Abreu ?! – cap 18

atualizado 9 maio 2018 Deixar comentário
Os pés de narrador em véspera de viagem

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Domingo, 1º de janeiro de 2014; o primeiro dia do ano não poderia começar melhor… No caso da maioria dos brasileiros, poderíamos supor. Para os tripulantes de El fuca blanco, o dia começaria com certo trabalho ou preocupação. Ou melhor, apreensão talvez seja a palavra mais apropriada para traduzir este momento narrado. A tão aspirada viagem estava prestes a iniciar: “Uruguai, que país é este?”. Me perguntava, muito sinceramente, se naquele instante desejado, seria mesmo sensato irmos com um veículo de mecânica duvidosa para um destino então desconhecido; a ideia inicial seria tomar a capital Montevideo como ponto de referência para um contorno, indo, sem pensar no tempo ou no relógio, pela região central do país vizinho, projetando uma volta pelo litoral. Corrida simples. Pois bem, cessavam os pensamentos, receosos ou não, toda vez que eu me deparava com alguma imagem a associar a vida a uma mola propulsora de sentidos. Ao lado, notava Julinho tranquilo. Muito tranquilo, diga-se. O nosso condutor leva jeito pra tranquilidade, pensei. “Nobre condutor, os equipamentos preventivos de socorro já estão em El fuca?”. “Sí sí”. “E os alimentos… a água…?” “También”. “Pegou parte dos Pesos uruguaios cambiados pra você levar consigo? Vai que eu perco a minha carteira…”. “Sí sí” de novo.  Tudo ou quase tudo já fora posto na parte traseira do veículo, dissera o senhor que só diz sim nesta história. A tarefa seguinte seria aguardar o ato oficial de partida, agendado para as 12h, horário de Brasília. Se lembram? Julinho e eu a virada de ano no Jornal Pampeano; estávamos no chamado ponto zero havia alguns dias. El Loco Abreu, morador de Jaguarão, seguramente dormitou em sua residência. Aliás, o dito guia-tradutor, o terceiro elemento da tripulação, começaria a dar sinais de suspenses hollywoodianos. O amigo sósia de jogador de futebol havia prometido que chegaria ao Pampeano no instante combinado. Na dúvida ou precavido, duas horas antes do programado, resolvi ligar pra seu número de celular, para me certificar se estava tudo ok. El loco tinha o hábito conhecido de beber na véspera. Como a véspera se tratava de um dia comemorativo… Acionei a tecla do celular… Nada de sinal. Ok, esperei um pouco. Minutos depois, liguei mais uma vez. Nada de sinal do celular daquele que eu considerava como “uma peça fundamental para esta viagem”. Ligaria mais uma vez?

(continua)

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El fuca blanco – cap. 1

atualizado 24 março 2018 1 Comentário
El fuca blanco estacionado em frente ao Jornal Pampeano, em Jaguarão-RS

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

A ideia inicial era percorrer o Uruguai na tentativa de saber “que país é este?”; tal questionamento, tal paráfrase, tal intertexto, tal gota d’água, porém, não prosperou. Por motivos logísticos, econômicos e imponderáveis, o propósito ganhou contornos novos. O Uruguai passou a ser parte do Uruguai (e não o seu todo), mais precisamente, o seu respectivo leste geográfico. Não deixamos por menos, a viagem ao país vizinho ganhou ares de exotismo quando veio ao nosso alcance um fusca branco, com data de fabricação 1980. O dono do veículo, Anibal Ribas, amigo e então proprietário do Jornal Pampeano da cidade fronteiriça de Jaguarão, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul, não hesitou em ceder o carango pra gente. “Tchê, tá na mão!”, disse-me ele; se me lembro bem, a sua fala típica ainda ecoa em meus ouvidos: “Tchêêêêêêêê…”. Naquele momento, a segunda parte de dezembro de 2013, me notava com a cabeça pretensamente fresca. “A luzinha acendeu na cuca…?”. A primeira coisa foi me convencer de colocar em prática uma viagem mais próxima de uma loucura determinada do que de uma aventura propriamente dita. Pensava: sem graça fazer sozinho essa “loucura determinada”. “Tá, tá, mas quem chamar pra ir junto comigo?”. Na real, dois contatos já haviam sido feitos. Mas ambos associados ao objetivo de origem: a realização de uma viagem pelo Uruguai sem a presença de um fusca de mecânica duvidosa. Então…? O fusca, a partir de agora chamado de El fuca blanco, tem no currículo um histórico de 34 anos de estrada com registros de “quebras no caminho”. “O motor foi todo refeito…”, tais palavras expressadas pelo dono, não confortariam a pobre alma de um amigo com quase a mesma idade do automóvel, um menino literalmente barbado, convidado do estado de São Paulo para participar da jornada. Não confiante no funcionamento de El fuca, o paulista vacilou, vacilou durante dias. O medo de ficar na estrada era maior que o prazer da viagem? O desconhecimento de mecânica seria um impeditivo para a jornada? Enfim, El fuca blanco conseguiria realizar uma empreitada de milhares de quilômetros?

(continua)