voltar

A musa da Universidade de b.

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Olhem só o meu Minhocão!

Invoco-o, novamente, grandão como tal, em pé!

Viu, nada de virarem o rosto, hem.

Prometi citá-lo melhor, semanas atrás.

Dele, destacamos a sua estrutura física.

Meninas, nada de dobrar a língua agora, por favor.

A propósito: a sanha das universitárias de b., por meu Minhocão, é tamanha, que quando o sol bate forte (me desculpem: o sol sempre bate forte em Brasília), elas desfilam diante dele com os umbigos arrepiados, os decotes cavados e as coxas à mostra.

A fantasia só não é geral e eterna, caros leitores e caras leitoras, porque sabemos que o erotismo de meu Minhocão não vai além de um preâmbulo perturbador, agressivo e agora alvo potencial da censura de licenças poéticas.

Minhocão, o maior bloco de salas de aulas da Universidade de b.

O meu Minhocão e sua representação arquitetônica.

Sua estrutura de concreto é reconhecida, podemos reforçar; tratemos de uma minhoca pretensamente fixada num espaço privilegiado de Brasília, uma importante edificação postada num terreno por onde ganham existência grilos, moscas, pernilongos, borboletas, baratas, ratos, sapos, rãs, cobras, siris, pardais, jacarés, tartarugas, urubus e seres afins.

Já posso vê-lo distante, na nostalgia de seu formato de minhoca gigante a se perder num horizonte de fim de época esfumaçada. Sua imagem é de um fim de show musical, um show que nunca recebe bis da plateia, plateia que supostamente mal sabe levantar as mãos num gesto casado: a ilusão de um refrão popular somado à reverência alinhada numa ranhura de testa.

O ruído desse refrão inominado perde força aos poucos…

Aos poucos, a sensação é de que andamos na contramão da musa da Universidade de b.

A musa da Universidade de b., que surge ao nosso arrepio de pele.

A musa da Universidade de b., que surge num descarado gesto de excitação pública.

Ela vem logo ali, a favor do vento, como a princesa de meus sonhos conturbados.

Friccionem as mãos, garotos de plantão.

A musa vem por aí…

Quando ela surge, eu tenho que me declarar distante da vida real.

Quando ela surge, sempre surge um incômodo gostoso no organismo.

Os nossos encontros são quase sincrônicos e, vejam só, sem cumprimentos tradicionais.

Eis a ironia do destino.

Na medida em que eu me disperso de meu representado Minhocão, a gata de quadril vibrante dá as caras, bocas, pernas, coxas, ombros e lábios à luz do dia.

Ela passa perto de mim sem parar, sem parar, por capricho, sem me ver.

Passa e me deixa boquiaberto, menos ligado ao mundo social.

Percebo-a descendo em direção ao mezanino sul, um dos pátios principais da Universidade de b.

O andar daquela. Uma fuga quase instantânea de minha fantasia…

Na realidade, a fuga da moça só não é mais rápida porque eu não deixo que assim o seja.

De propósito, e sempre que posso, retardo a sua saída de cena.

Como a aparição se repete, faço-a permanecer além da conta dentro de meu olhar rútilo.

Ela e seus cabelos a esvoaçar pela força de seus próprios passos.

Os passos são de quem sempre está atrasada para uma aula qualquer.

Que importa as aulas neste instante?

Coço a cabeça a pensar na musa da Universidade de b., que passa dilacerante por mim, sem reconhecer esta minha mania mal compreendida de ser sem solução, sem reconhecer o seu fã incondicional e amante estilístico.

A Universidade de b. aparece sempre da mesma forma sensual e artística.

A imagem de aparição é sempre a mesma.

Quanto à moça…? Ela desce de um ônibus lotado, vindo diretamente de Marte.

Deus do céu!

É só ela descer de um busão que a minha vida ganha tons envolventes de romance postumamente hemingwayano.

É só a nossa musa colocar um dos pés num ponto de ônibus para o restante do mundo animal se dar conta de sua respectiva condição de paisagem.

Ela desce. A imagem da musa congela.

Minto. A imagem da musa ganha uma construção slow-motion.

A câmera fica lenta, o chão fica movediço.

Os movimentos agora são medidos, compassados.

O andar daquela soa um desfile de moda sem arrogância.

Nem mesmo uma despretensiosa calça jeans consegue disfarçar a definição bem contornada de sua experiência visual.

Suas coxas são…

Sua camisete colada aos ombros.

Sua costa ereta.

Sua nuca à vista.

Seus cabelos ondulados, suspensos por uma caneta transparente.

Aquele seu quadril…

Respiro um pouco para não parecer vulgar com meus pensamentos…

A auto repreensão imaginária surge no momento em que a musa da Universidade de b. passa por mim.

A necessidade de esperar o meu ônibus não me permite segui-la indefinidamente.

Por uma fração de segundos, só consigo sentir aquele perfume feminino a estimular a inconsciência de transeuntes.

A musa da Universidade de b. descendo apressada em direção ao Minhocão.

Na verdade, para mim, ela nem parece tão apressada assim.

Vendo-a desfilar, não há pressa alguma de o mundo acabar.

Não há…

Mas o Minhocão está à sua espera.

Por outra, uma universidade ou a fotografia de meu Minhocão está à sua espera.

Quem sabe um dia…

Vida longa, Universidade de b.

voltar

De volta da quase casa de recuperação pra irrecuperáveis (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Embasbacado, tonto e loucamente hiperincrédulo, passei a conceber uma imagem inacreditável: testemunhei alunos do curso de Educação Física praticando a arte das canoas num ambiente pouco festejado pelos politicamente corretos.

Notei que a até então impensável quantidade de água naquele espaço estreito permitia aos visitantes brincar com um efeito de eco inacreditável-vel-vel-vel.

Três a quatro metros de inundação, numa extensão de um pouco mais de um quilômetro.

A enchente inundaria o vão de falsa linha de metrô da Universidade de b.

Só as laterais ficaram a seco.

A repercussão do caso, como sempre, foi abreviada pela oficialidade de plantão.

A manchete do site da universidade amenizou o acontecimento, dando-lhe pouco destaque.

O assunto não pôde virar meme nas Redes Sociais? Só o Diarios de Mochila registraria o fenômeno.

Somem-se a esta observação sem importância as súbitas férias dos (ops!) universitários de b…

Durante alguns minutos, fiquei ali, parado, após descer uma das escadas para o purgatório local.

Juro que eu não podia acreditar. Acabara de passar pelo mezanino norte, um dos dois principais pátios do Minhocão, antes de descer do ônibus. Este, um protótipo das famosas latas velhas de Brasília.

Diga-se, a imagem que vemos de transporte público de Brasília é um reconhecido cu sujo.

De dentro do ônibus, me lembro, pude ver a imagem das Esplanadas dos Ministérios.

Por ser cotidiano, um tour com ilustrativo.

De volta à Capital Federal, vindo de um intervalo de uma quase casa de recuperação pra irrecuperáveis no sudeste brasileiro, nossos olhos de mosca morta testemunham um cenário fantasiado diariamente por aqueles que reproduzem – como presentes ou futuros fantoches de patrões abestalhados – as versões noticiosas sem conexão com a nossa realidade.

Aqui reforço um testemunho: em Brasília, de perto, quase tudo é pequeno.

Não me entendam mal, eu não me refiro às vaidades pessoais.

De resto, é experimentar e entrar no Congresso Nacional…

O espaço físico do Congresso Nacional é minúsculo!

É experimentar uma visita, parça de plantão.

É notar ainda o mar de carros pelas vias engarrafadas…

A rodoviária do Plano Piloto…

Já relatei aos desavisados? Brasília é o Plano Piloto.

O Plano Piloto é um ovo. Um ovo gorado, quero dizer.

A posse econômica e definitiva de uma kitnete no Plano Piloto pode então custar um milhão de reais.

Não é brincadeira, não! Assim como esta história de Subsolo alagado.

No Subsolo, o conforto suposto de uma fuga pessoal.

No Subsolo, eu já podia rever um feliz agrupamento de esquisitos.

Ali, um esquisito chama outro esquisito de parceiro e vai logo oferecendo um beck ou algo barato pra beber.

Ali, a esquisitice é coisa normal, e as pessoas não precisam esconder dos outros seus defeitos, suas manias, suas incompreensões.

voltar

De volta da quase casa de recuperação pra irrecuperáveis (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Lembram-se do Subsolo?

O Subsolo da Universidade de b…

Caramba! Como não se lembram?

O subsolo do Minhocão, o maior bloco de salas de aula da Universidade de b…

O Subsolo…

Ah, me perdoem, só agora reparo que fiquei ausente nos últimos dias.

Nos últimos dias… O que o dito jornalista sem solução andou fazendo nos últimos dias?

Então, garanto que não fui preso por tráfico de falta de influência.

Não, ( juro!) também não fui detido por criticar sistematicamente as cartilhas de movimentos estudantis e digitais.

Detido? Nem por falta de soluções e palavras de ordem cotidianas.

Nos últimos dias…

Nos últimos dias, vou confessar, admitamos, simmm, nos últimos dias mandei às favas a periodicidade de nossos diários, fui rever um filme francês na divisa criada entre o real e o imaginário; respectivamente, estados de São Paulo e do Paraná.

Ah, sim, no filme godardiano, datado na década de 1950/60, os personagens quase não se fala(va)m.

O que importa dizer além do sexo cine grafado: fui curar uma ressaca numa quase casa de recuperação pra irrecuperáveis. E, claro, voltei com o sangue limpo, asseguro-lhes!

Com o sangue limpo de indígena de 1500, a cabeça cheia de ideias e a língua ainda preta.

De novo no Subsolo, o nosso chamado monstro da obsessão.

Quando voltei ao nosso sempre reiterado Subsolo…

Os pensamentos logo se dissiparam quando notei o Subsolo completamente cheio de água.

Aquele famoso vão que dá existência a uma falsa linha de metrô de cidade grande e esgoto a céu aberto.

Muita gente do piso superior sequer então desconfiava daquela imagem de Veneza brasileira escondida debaixo dos próprios pés. Tratemos de um espaço social da universidade de b., em Brasília.

No piso inferior, a vida dava sentido a outras caras. Botes e remos que outrora enfeitavam as águas do Lago Paranoá, a poucos metros dali, agora inacreditavelmente trafegavam em águas sujas de enchente no ambiente mais libertário da Universidade de b.

Como já descrevi em outras passagens, o nosso Subsolo é imune a pressões institucionais.

Asseguro-lhes mais uma vez: acontece de quase tudo naquele espaço sacrossanto e pretensamente iconoclasta.

Episódios com personagens tresloucados são logo tomados como subliteratura fantástica.

De fato, o Subsolo não suscita consequências jurídicas.

Ninguém, mas ninguém mesmo é punido ou julgado pela mídia no Subsolo.

No nosso Subsolo, as imoralidades caminham juntas com os pensamentos de vanguardas.

E a chuva que raramente caia em Brasília, hem?

Os últimos três meses – pela falta de chuva e umidade – foram de totais entupimentos de narizes.

(Num dado capítulo anterior, o nosso retratado de Kurt Cobain bem alimentado experimentou este drama, e, em nome de seus semelhantes e asseclas, sacou de um dos bolsos um dedo indicador e limpou o próprio salão em público).

Na nossa ausência de vida, um pé d’água atingiu o piso subterrâneo dos irrecuperáveis de b.

(continua)

voltar

De um sol de espantar mosquitos e pessoas brancas (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O julgamento de um impassível?

Pela falta de ação, o namorado deve ter cometido algo grave em relação à moça.

Algo mais grave do que a mentira mal contada?

Na falta de precisão, imaginei um zilhão de coisas.

Imaginei o prenúncio de um acabamento passional.

A dez metros de um banco encardido, em outro banco encardido, e debaixo de uma árvore com sombra falhada, eu projetava o fim de um relacionamento numa seção de jornal barato.

A namorada então senta, respira, senta e cruza as pernas, sufoca a visibilidade de sua emoção.

Involuntariamente ou não, notei a cena por um hábito de descrença diária.

O rapaz mudou de lado, escondeu-se do sol.

Sentou-se, por que filho de Deus que se preze senta, abaixa a cabeça e conta os rosários.

Ela, de lado; ela ainda resmungando.

Ela com as duas mãos a cobrir o rosto de choro incontrolável e pintado de decepção. (Nesta passagem eu exagero, me perdoem.)

Uma prova de que o rapaz fosse mesmo um notável cafajeste, um Jece Valadão do século 21?

Como se a moça lamentasse a suposta pisada de bola do rapaz, ali, diante de outros passantes.

Passantes que, sem cessar os passos, respeitavam os personagens ou fingiam não vê-los.

Passantes que iam e viam, ora na direção de uma biblioteca, ora na direção de um mezanino.

O mezanino norte do Minhocão, o maior bloco de salas de aula da Universidade de b.

A nossa falta de áudio continuava…

Um palco sem degraus. A curiosidade sobre um possível desfecho inimaginável aumentava na proporção inversa em que diminuía meu interesse de leitura por uma página qualquer de um livro teórico, leitura lenta ou arrastada por um habitual sono pós-refeição no R.U., vulgo Restaurante Universitário.

Ali, na mira distante de nossos personagens, num contorno de cotidiano.

Uma obsessão de realidade. Quem sabe, os dois, de propósito, provocavam a atenção gratuita das pessoas?

Uma troca de gestos à la cinema mudo. Isso, uma cena tipo Charles Chaplin.

Minutos depois, após secar o rosto num lavatório próximo, dirigi-me a caminho da biblioteca.

Agora na posição simbólica de um reles passante, noto de novo o casal de namorados.

Os ditos personagens de cinema mudo, neste instante, estão felizes.

Felizes?! Isso. A moça no colo do rapaz.

O rapaz – vai saber? –, contorcendo-se por uma irresistível sensibilidade de pobre mortal.

Ambos, agora visivelmente renascidos com o giro da vida.

Aos risos.

FIM

voltar

De um sol de espantar mosquitos e pessoas brancas (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Todas as culpas e dores, todos os caprichos e fatalidades da humanidade ficaram de lado naquele momento, naquele momento, a moça gesticulava com os braços, em pé, possessa, descontrolada, diante de um rapaz, ela vociferava, vociferava repetidamente, vociferava como a expulsar de si uma incompreensão de então namorada despeitada com o namorado; de longe, era notável, de longe via-se nitidamente que a moça levava o dedo em riste pra ponta do nariz do outro, que impassível se postava com as mãos na cintura, tão impassível quanto alguém que, questionado por um suposto desvio de conduta, não tem argumentos a apresentar.

Imaginemos um erro.

Imaginemos uma falha.

Imaginemos uma bola fora.

Imaginemos uma escorregada numa escada.

Imaginemos um caso único de depressão súbita ocasionada por uma pane nervosa vindo diretamente de Marte.

Após um erro, após um vacilo, após uma reconhecida cravada nas costas da amada.

Amada que, até a semana passada, recebia flores vermelhas.

Amada que, até a semana passada, ouvia palavras doces.

Amada que, até a semana passada, sentia toques zelosos no entorno dos lábios.

Aquela imagem, à distância, juro, à distância dava para imaginar coisas mil.

À distância, num primeiro momento, quando os vi…

Quando os vi, pensei que fosse uma representação teatral à luz do dia.

Mas não, não?

Os dedos insistentes em riste daquela garota continuavam.

O gesto não suscitava intervalos de um ensaio.

Sim. Supus que ele fosse o amado daquela amada. Minutos de gestos repetidos me fizeram ter a certeza de um lunático diante de uma descoberta ocasional que só ele pode notar, sentir ou reproduzir, a certeza de um instintivo direito de posse de uma pessoa sobre outra, admitido em público.

Era uma altercação sem o peso simbólico de um áudio promocional.

Era uma discussão descontrolada.

Uma sequência de chiliques reproduzidos em excesso.

Um rompante de vida social numa das praças de convivência social da Universidade de b.

Em pleno sol de meio dia, aquele sol de cinco metros de altura, a partir de nossas cabeças.

Naquela lua, num sol de espantar mosquitos e pessoas brancas.

– Porque você é um cretino – tentei colocar um pouco de volume naquela máscara feminina.

Enquanto isso, o rapaz fazia cara de falsa surpresa.

Enquanto eu coçava o ouvido, o rapaz supostamente admitia falta de memória.

Ou melhor, enquanto o rapaz ouvia uns palavrões, sua amada se segurava para não saltar em sua garganta.

Ela, no seu limite aparente!

Ela, prestes a saltar nos olhos do outro com unhas e alfinetes.

O rapaz, a esta altura, um suposto canalha vendido.

O rapaz deve ter pensado consigo, deve ter sido mesmo uma mancada minha!

(continua)

voltar

Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 6)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Eis o momento mais esperado por todos: o instante em que dizeres pensados, frases não rimadas, orações coerentes, atos falhos não percebidos, estruturas feminizadas e cheias de efeitos saltariam em demasia diante de ouvidos ocos de positividade aflorada. A principal análise da consulta de Guru:

– É importante, mocinha, você buscar um significado para todas as experiências.

– Ahãm.

– Ah, e isso serve para todos vocês – dirigiu-se aos demais presentes, permitindo-se um parêntese.

De volta à universitária sensível:

– Se lhe falta energia positiva, então você, Alessandra? É bom você encontrar um sentido para esse momento em que a vida pode exigir que entreguemos o que nos é mais precioso. Ou, ou que a vida possa nos mostrar, neste instante, que nossos alicerces estão corroídos pela ferrugem… pela ferrugem…

A ideia fugiu-lhe à mente, mas ele disfarçou bem.

– … pela ferrugem, enfim.

Se Guru estava sendo bastante filosófico, isso pouco importava naquele momento.

Confesso que…

… naquele momento, senti também uma energia no ar.

– Você! Ali. Ali. Você! Do lado, aí…

Opa. Alguém me toca num dos ombros.

Ouço algo positivo.

Uma voz me desperta de uma introspeção.

Era pra mim!

Peguei-me numa meditação incrível.

A consulta da capricorniana havia acabado.

Perceberíamos – a plateia – que o nosso herói preza pelo poder de síntese. Sua objetividade soava a de um cientista em fim de carreira, num pós Pós-doc. Direto ao assunto, ou, sem mais.

Em vez de segurar as minhas mãos, Guru optou por um método diferente.

Abraçou-me como um urso polar, aproveitando-se de seu enorme porte físico?!

Segurou minhas mãos com a força de um pugilista drogado, numa luta de revanche?!

Coçou o queixo em um de meus ombros, como um poodle destemperado?!

Naaaada.

Que isso, plateia?

Que imaginação?!

Nosso guia optou por olhar-me insistentemente nos olhos.

E cada vez que eu virava o rosto, de relance, assim, pra espantar uma mosca ordinária de ocasião, ele elevava o tom de voz feito um professor carente de didática.

Sem perguntar meu signo, ele tascou uma análise paranormal:

– Você pertence a um dos signos da riqueza da vida, cuja representação atravessa uma fase espiritual importante, numa tentativa de se desligar do passado e seguir em frente…

Que palavras lindas, eu pensei.

Guru e seus olhos enormes de jabuticaba.

Guru e seus olhos de intimidação contagiante.

Guru e seus olhos de presença de humor.

Que energia, que energia, eu logo daria passagem pra outra pessoa.

Num pulo de gato, Guru pegou a nota que lhe dei, sem ver bem a sua representação monetária. Seus olhos já estavam voltados para a consulta seguinte.

As consultas seriam subsequentes até o final do dia.

Até o final do dia, a Universidade de b. se resumiria a aquele evento.

No final do dia, o desabar de um amém.

Até o final do dia…

FIM

voltar

Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 3)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O cenário estava cheio.

Dezenas de pessoas perfilavam-se ao redor de Rogério dos Anjos, o guru.

A seis ou sete cabeças à nossa frente, o dono da voz que não quer calar.

Ali, naquela posição, ali, todos ali, a alguns determinantes centímetros de uma lenda contemporânea presente na superfície da Universidade de b.

A propósito: deste ponto da história, o guru daria o seu cristalino ar de guia mor.

Uma olhada panorâmica acima do próprio queixo.

Se ele projetou uma reação facial a respeito da quantidade do público?

Ele pareceu-nos satisfeito com o que viu.

Curioso, certifiquei-me.

Sim! Havia muita gente, de fato, gente pra de-déu.

Virei-me pra nossa liderança novamente, assim que nosso guia, numa tirada louca de pigarro, chamou a atenção de uma plateia ansiosa.

Dali em diante, ele deixaria de lado, temporariamente, sua face batismal de Rogério dos Anjos.

Por um tempo desejado, Guru daria as cartas.

As cartas seriam dadas, literalmente.

Um sopro de vida.

Um bafo de sabedoria.

Pra surpresa geral, e dos primeiros que tomaram assento às margens de um fantástico tapete rosa metálico, o atendimento público de Guru seria feito de forma aleatória, sem recepção de fundo meritocrático.

Com ar de estranhamento, pude notar o focinho de alguns.

Ninguém fez beiço de discordância.

O cenário estava mesmo tomado por um pensamento único.

A Universidade de b., talvez, jamais sediara um evento desta envergadura.

Ali, só o notável e mais ninguém teria relevo.

E se tivesse relevo, ou se pudessem ter, as energias misticamente presentes naquela atmosfera absorveriam qualquer irreverência ou interferência por um capricho pessoal de Guru.

– Eu sei… – iniciou ele, em tom extraoficial.

Foram suas primeiras palavras, seus primeiros suspiros.

Creio ter dito em linhas anteriores: o herói deste capítulo é bastante consciente.

Ele sabe perfeitamente que nenhuma publicidade lhe sustentaria as ventas se sua individualidade de profeta precoce – e de consultor sentimental – não fosse bem apurada e contornada por um dizer maligno de “eu sei”, o fundamento de seu já dito esquema discursivo.

– Eu sei, eu sei que vocês esperam por uma mensagem positiva.

A fala surgiu identificadora sobre os presentes.

Ter ou não ter o dom de dizer o que se deve dizer, diante de mentes ávidas por atenção?

Definitivamente, este não é um dilema para nosso mestre.

Guru não esbarra em desconfortos interiorizados de jeito maneira!

O silêncio, então, fez-se matéria com a queda automática de seus braços de gigante mítico.

(continua)

voltar

Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O horizonte.

O que é o horizonte?

Meu saco, o horizonte só pode ser uma plataforma de realidade.

Acerca de um horizonte, quase sempre não sabemos o sentido de um horizonte.

Acerca de um horizonte, quase sempre temos uma opinião redutora de mundo.

Quase sempre sabemos da existência física de um horizonte.

Mas quase sempre não sabemos, com exclusividade, de seu conceito.

Vemos um horizonte a cada meneio de cabeça.

Vemos um horizonte em parede fixa, transparente ou irregular.

Vemos um horizonte de formas múltiplas.

Tal raio de metodologia pode ser o prenúncio de uma visão de mundo curiosa.

À minha frente, um aglomerado de pessoas.

Acabara de chegar ao pedaço mais minado por vaidades de Brasília, depois do Congresso Nacional, é claro. Senti-me, assim, pronto para um processo de desumanização.

Sinalizei noutra frente: a multidão não tem cara nem rosto, ela nos desumaniza por completo. Diante de outras pessoas, só nos resta perder o pouco de nossa personalidade. A coisa é automática, o choque entre duas ou mais pessoas é um liquidificar abacate com leite e açúcar. A ideia, um plágio descarado de um descarado plagiador confesso de uma literatura descarada por leitores descarados, tomava corpo na medida em que eu me aproximava descaradamente de um eminente alvo descarado: um horizonte específico. Isso. À nossa frente – leitores, façam-nos o favor de nos acompanhar até a última passagem – vemos um sujeito peculiar.

Acreditem. O sujeito escolheu o epicentro do piso principal de um dos mezaninos do Minhocão. Lembram-se: o maior bloco de salas de aulas da Universidade de b. possui dois mezaninos. No popular, estávamos num de seus dois pátios principais, o mezanino norte.

Uma, duas, três pessoas.

As três formariam uma camada de espectadores iniciais, uma primeira menção de testemunhas oculares, segundos depois, acrescida da marca numérica de mais uma e outra pessoa, apareceram outras, sabe-se lá se por curiosidade, se atraídas pelo medo de ficarem sozinhas pelos cantos e recantos, ou se por esbarrarem com um obstáculo num trecho de caminhada diária.

O centro das atenções…

Bem, o centro das atenções, neste episódio de descaradices, não é a plateia que ali se formava como a imagem de uma besta de aluguel ou de um mostro periódico, como nos dizem e reproduzem testemunhos exagerados de tempos anteriores de nossa história política. Falo de um pretenso orador.

Salvas as exceções, a imagem atribuída à figura do orador em nossa história política ou a do líder, como pregam mentes ávidas por atenção gratuita, é o de um completo toupeira, de um retórico varrido ou de uma vaca sem tetas. Porque, de herói em herói ou de heroína em heroína, a gente vai se afundando…

(continua)

voltar

Inspirações de um subsolo (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

A luz de fim de túnel.

A minha luz de fim de túnel só pode ser uma ideia fixa de meros mortais.

A primeira porta se abre! Vejo uma mesa de sinuca. A mesa de sinuca é uma imagem recorrente na Universidade de b.

Quem não conhece minimamente a Universidade de b. ou é de outro planeta ou vai pensar que blefo nesta parada ou que dou bom dia a cavalos ou que bato a cabeça contra a parede mais próxima a cada dois dias no período noturno.

– Sério?

Há mais mesas de sinuca do que lousas usáveis na Universidade de b.

Ah, duas figuras também compunham com o ambiente de bar. Quase me esqueço, ambos faziam um mano a mano.

Um preto contra um branco ou vice-versa. Por senso de localização, permaneço rente à entrada da sala.

Observo a jogada repentina.

O preto se posta na posição de taco.

Havia poucas bolas sobre a mesa.

Os lances seguintes, como se pode inspirar, são mais que decisivos.

Enquanto o preto se posta numa ação, o branco observa e passa o giz na ponta de seu taco. O branco passa o giz sem qualquer fundamento, sem saber se o giz faz algum efeito, de fato. Eis uma tradição, o misticismo, a simpatia que normalmente floreia a chata da vida.

Pá!

Pá-pá-pá.

A bola branca resvala em outras.

O preto solta um riso mudo de satisfação.

O preto havia acabado de estragar o jogo do branco.

O preto me pareceu estrategista.

Me pareceu ainda uma jogada de autodefesa do preto.

Como não havia jogo aberto…

Bem, era a vez de o branco contra-atacar.

Nesta altura da disputa de retrato à lá Sebastião Salgado, eu já estava dentro da sala.

Ah, sim, era mais que um visual sala de jogos.

(Interrogação!)

Sala de jogos ou o caralho!

Além da mesa de sinuca, o espaço suscita mais quatro máquinas de jogos.

(Interrogação!)

Noto ainda máquinas tipo fliperama ou de formato similar ou. Dessas que se encontra em botecos pra jovens aprendizes da arte de afogar as mágoas ou de tatear as criatividades.

– Ae parceiro, chega mais – o preto me convidou pra entrar.

Acho que não mencionei que eram duas da tarde de uma terça-feira?

Não, acho que não relatei.

Quase me esqueço desta vida: havia também outras coisas curiosas naquela sala de entretenimento.

– Ae? Vai um trago ae? – o branco lançou um alô amigo.

(Interrogação!)

A recepção me pareceu vip; ofereceram-me um trago.

Um trago?

Sim, ofereceram-me um trago.

Ofereceram-me outro trago.

Outro trago?

(continua)

voltar

Uma sala de aula incomum (parte 9)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Neste ponto da história, Gilberto Ferretto é o acontecimento fatal.

Gilberto Ferretto? Simm!

Vale uma breve alusão aos caronistas de plantão.

É Gilberto Ferretto, se não o fosse, poderia ser Gilberto Nóia, Gilberto Paradase, Gilberto Sinistro, Gilberto Façanha. Mas é precisamente Gilberto Ferretto, vulgo Crítico Literário.

O notório professor de Crítica Cultural da Universidade de b. a caminhar na direção de Loirinho, não faz muito tempo, poucas linhas um sujeito de nome próprio e com status público. Estávamos lá, num palco que literalmente não permite intromissões institucionais. Tratemos de mais um lance de subsolo.

A galera do subsolo da Universidade de b., atuante e com seus respectivos olhos de urubu sem asas.

Por extenso, o nosso público se associava a uma renca de subsolistas de b.

Incluam nesta lista genérica, os nominados Loirinho, Contrarregra, Vagabunda e a mina do curso de Ciências Sociais.

O Subsolo, aqui vale a publicidade ou a releitura, é um dos poucos ambientes de reprodução de dúvidas a sustentar o excesso de egos que eternizam os corredores e as extremidades do maior bloco de salas de aula da Universidade de b., o popular Minhocão.

E que fique bem claro: Subsolo é o espaço místico e libertário da Universidade de b.

Viva, o espaço místico e libertário da Universidade de b.!

Uma síntese que evoca novamente Crítico Literário e seus passos silenciosos.

O notável e sua mania de vestir preto.

O notável e sua mania de beber no bico de uma garrafinha de água mineral.

Poderíamos insinuar que os passos do notório professor quase não exalam ruído.

Poderíamos insinuar que o tom preto sobre sua pele branca é uma religião.

Poderíamos insinuar que a água de sua indescolável garrafinha não é bem mineral.

Feliz ou infelizmente, as insinuações ficam à parte neste instante.

À última cena, com urgência.

Notávamos a iminência de um tetê a tetê entre dois sujeitos conhecidos.

Gilberto Ferretto na mira de Loirinho.

Ambos, cabeça a cabeça?

De certo, Loirinho teria lhe lançado uma piscada indiscreta.

De certo, Ferretto teria surtado a partir de um de seus goles pregressos.

A plateia de subsolistas não entendeu o gesto.

Ou não o viu.

Ou era mesmo um fingimento sublime dos presentes.

Incluído na doidolândia, eu não pude me sentir menos doido.

Aquela nuvem de cigarrinhos clandestinos embaçaria meu par dois graus de miopia.

Aquela sensação de entorpecimento de produzir arrepio na patrulhagem.

Aquele regozijo literário.

Diante daquela representação de início de show de banda heavy metal, Ferretto, num movimento brusco, cerca Loirinho.

(continua)