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De volta da quase casa de recuperação pra irrecuperáveis (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Embasbacado, tonto e loucamente hiperincrédulo, passei a conceber uma imagem inacreditável: testemunhei alunos do curso de Educação Física praticando a arte das canoas num ambiente pouco festejado pelos politicamente corretos.

Notei que a até então impensável quantidade de água naquele espaço estreito permitia aos visitantes brincar com um efeito de eco inacreditável-vel-vel-vel.

Três a quatro metros de inundação, numa extensão de um pouco mais de um quilômetro.

A enchente inundaria o vão de falsa linha de metrô da Universidade de b.

Só as laterais ficaram a seco.

A repercussão do caso, como sempre, foi abreviada pela oficialidade de plantão.

A manchete do site da universidade amenizou o acontecimento, dando-lhe pouco destaque.

O assunto não pôde virar meme nas Redes Sociais? Só o Diarios de Mochila registraria o fenômeno.

Somem-se a esta observação sem importância as súbitas férias dos (ops!) universitários de b…

Durante alguns minutos, fiquei ali, parado, após descer uma das escadas para o purgatório local.

Juro que eu não podia acreditar. Acabara de passar pelo mezanino norte, um dos dois principais pátios do Minhocão, antes de descer do ônibus. Este, um protótipo das famosas latas velhas de Brasília.

Diga-se, a imagem que vemos de transporte público de Brasília é um reconhecido cu sujo.

De dentro do ônibus, me lembro, pude ver a imagem das Esplanadas dos Ministérios.

Por ser cotidiano, um tour com ilustrativo.

De volta à Capital Federal, vindo de um intervalo de uma quase casa de recuperação pra irrecuperáveis no sudeste brasileiro, nossos olhos de mosca morta testemunham um cenário fantasiado diariamente por aqueles que reproduzem – como presentes ou futuros fantoches de patrões abestalhados – as versões noticiosas sem conexão com a nossa realidade.

Aqui reforço um testemunho: em Brasília, de perto, quase tudo é pequeno.

Não me entendam mal, eu não me refiro às vaidades pessoais.

De resto, é experimentar e entrar no Congresso Nacional…

O espaço físico do Congresso Nacional é minúsculo!

É experimentar uma visita, parça de plantão.

É notar ainda o mar de carros pelas vias engarrafadas…

A rodoviária do Plano Piloto…

Já relatei aos desavisados? Brasília é o Plano Piloto.

O Plano Piloto é um ovo. Um ovo gorado, quero dizer.

A posse econômica e definitiva de uma kitnete no Plano Piloto pode então custar um milhão de reais.

Não é brincadeira, não! Assim como esta história de Subsolo alagado.

No Subsolo, o conforto suposto de uma fuga pessoal.

No Subsolo, eu já podia rever um feliz agrupamento de esquisitos.

Ali, um esquisito chama outro esquisito de parceiro e vai logo oferecendo um beck ou algo barato pra beber.

Ali, a esquisitice é coisa normal, e as pessoas não precisam esconder dos outros seus defeitos, suas manias, suas incompreensões.

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De volta da quase casa de recuperação pra irrecuperáveis (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Lembram-se do Subsolo?

O Subsolo da Universidade de b…

Caramba! Como não se lembram?

O subsolo do Minhocão, o maior bloco de salas de aula da Universidade de b…

O Subsolo…

Ah, me perdoem, só agora reparo que fiquei ausente nos últimos dias.

Nos últimos dias… O que o dito jornalista sem solução andou fazendo nos últimos dias?

Então, garanto que não fui preso por tráfico de falta de influência.

Não, ( juro!) também não fui detido por criticar sistematicamente as cartilhas de movimentos estudantis e digitais.

Detido? Nem por falta de soluções e palavras de ordem cotidianas.

Nos últimos dias…

Nos últimos dias, vou confessar, admitamos, simmm, nos últimos dias mandei às favas a periodicidade de nossos diários, fui rever um filme francês na divisa criada entre o real e o imaginário; respectivamente, estados de São Paulo e do Paraná.

Ah, sim, no filme godardiano, datado na década de 1950/60, os personagens quase não se fala(va)m.

O que importa dizer além do sexo cine grafado: fui curar uma ressaca numa quase casa de recuperação pra irrecuperáveis. E, claro, voltei com o sangue limpo, asseguro-lhes!

Com o sangue limpo de indígena de 1500, a cabeça cheia de ideias e a língua ainda preta.

De novo no Subsolo, o nosso chamado monstro da obsessão.

Quando voltei ao nosso sempre reiterado Subsolo…

Os pensamentos logo se dissiparam quando notei o Subsolo completamente cheio de água.

Aquele famoso vão que dá existência a uma falsa linha de metrô de cidade grande e esgoto a céu aberto.

Muita gente do piso superior sequer então desconfiava daquela imagem de Veneza brasileira escondida debaixo dos próprios pés. Tratemos de um espaço social da universidade de b., em Brasília.

No piso inferior, a vida dava sentido a outras caras. Botes e remos que outrora enfeitavam as águas do Lago Paranoá, a poucos metros dali, agora inacreditavelmente trafegavam em águas sujas de enchente no ambiente mais libertário da Universidade de b.

Como já descrevi em outras passagens, o nosso Subsolo é imune a pressões institucionais.

Asseguro-lhes mais uma vez: acontece de quase tudo naquele espaço sacrossanto e pretensamente iconoclasta.

Episódios com personagens tresloucados são logo tomados como subliteratura fantástica.

De fato, o Subsolo não suscita consequências jurídicas.

Ninguém, mas ninguém mesmo é punido ou julgado pela mídia no Subsolo.

No nosso Subsolo, as imoralidades caminham juntas com os pensamentos de vanguardas.

E a chuva que raramente caia em Brasília, hem?

Os últimos três meses – pela falta de chuva e umidade – foram de totais entupimentos de narizes.

(Num dado capítulo anterior, o nosso retratado de Kurt Cobain bem alimentado experimentou este drama, e, em nome de seus semelhantes e asseclas, sacou de um dos bolsos um dedo indicador e limpou o próprio salão em público).

Na nossa ausência de vida, um pé d’água atingiu o piso subterrâneo dos irrecuperáveis de b.

(continua)

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Inspirações de um subsolo (parte 9)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Chuuuaaaaaaaaááá.

Batata, sem pensar, jogou sobre Régis – num gesto de socorro e de solidariedade – toda a água fria de um balde emprestado de um terceiro.

E? A socorrista Vanessa relataria o caso três horas depois, diante de uma miniplateia.

– Véi, justo naquela hora, justo naquela hora, caraaaalho, praticamente quando a água já tomava um sentido looouco, meeeeeu, quando o Régis tava praticamente acordado – recordaria ela, num depoimento teatral dirigido a um grupo de subsolistas, subsolistas postados numa roda de amigos às margens de um fosso de metrô imaginário, abaixo do piso superior do Minhocão. – Foi um susto, um susto… – a moça acrescentaria já ao lado do namorado, este com riso mudo de falso adulto, nada arrependido e aparentemente satisfeito pelo último pileque exagerado.

Ouvi as últimas palavras de testemunho, e despedi-me da galera.

Como cheguei, saí. Discretamente.

Os passos agora ganhariam um rumo na direção de uma superfície. O caminho de volta do Subsolo.

No andar de cima – já comentei em outra ocasião episódica? – fica o piso principal do maior bloco de salas de aula da Universidade de b. Um espaço social onde as serpentes de plantão se destacam e praguejam a publicidade de suas vidas.

Ainda há dois metros de uma saída de subsolo.

A pouco de uma iminente releitura diária.

Na subida da primeira escada, um acesso seguro à luz do sol.

Quase não há luz solar no Subsolo.

Na doidolândia há apenas um vácuo de ar que dá existência aos jardins regados acima.

Sim. Imaginem a cena, quem não a conhece, é claro.

A imagem é bucólica. Há jardins floridos acima, entre dois corredores extensos. Um canteiro de flores e outras espécies vegetais dão o ar de eterna primavera ao piso superficial do Minhocão.

Ainda no Subsolo? Acima, o ambiente do corre, de canteiros e de borboletas pouco percebidas por mortais. O ambiente das moças graciosas e de demais tribos.

O Minhocão das paredes promocionais.

O Minhocão dos murais que dão vazão às necessidades primitivas.

Parei diante de um deles. Aliás, parei diante de um anúncio de aparente apelo social.

A inscrição: “Orientação acadêmica? Aulas particulares de Redação e de Metodologia Científica, com fulano de tal”. Achei o anúncio engraçado.

Ou melhor, achei o reclame curioso.

A causa, a razão, a circunstância? Expliquemos.

Dois motivos nos chamaram a atenção naquele anúncio.

Primeiro, porque o “professor” das ditas aulas particulares se diz jornalista.

Fiz graça da inscrição, zoando com meu próprio nome; pensei alto:

– Ah, este sim, é um suposto jornalista COM solução.

Segundo: o anúncio incitava ou sugeria um possível ou potencial fracasso das aulas de Metodologia Científica, oferecidas por doutores efetivos e substitutos de salas de aula da Universidade de b.

Ainda sobre o quadro de parede de corredor. Bem, ao lado, outro anúncio mencionado, outro anúncio de dizeres parecidos, mas menos formal. (Risos…)

(continua)

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Inspirações de um subsolo (parte 5)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Plépléplé…

De volta ao cenário, num rompante nostálgico de século 20.

Como numa fantástica rebobinada de fita VHS.

A alusão de uma transcrição de época.

Plépléplé…

Fita VHS, coisa de tempo analógico. Coisa de outro planeta, coisa de doido, num passado, produto de poucos.

Plépléplé…

A incompreensão é, agora – toda ela, se é que ela aqui se faz presente, viva e gritante – de possíveis bebezinhos de peito, pobres bebezinhos de memória curta, donos de bocas sedentas por leite industrial, pequenos de bochechas roxas e de olhos luminosos de medo e terror.

Plépléplé…

Como demora…

Pléplé… pá!

O-pa! Morre a onomatopeia.

Stop, play! Uma imagem embaça mais de mil palavras.

De volta ao futuro, lembram-se? Régis, nosso herói preto, havia nos lançado um desafio.

Um silêncio ensurdecedor de subsolo.

Um silêncio ensurdecedor no Subsolo.

Um silêncio ensurdecedor toma gosto da dita sala sem publicidade.

Um silêncio ensurdecedor sem precedentes na história dos silêncios ensurdecedores.

Um silêncio ensurdecedor, enquanto as serpentes de andares superiores do maior bloco de salas de aula da Universidade de b., vulgo Minhocão, continuavam a rastejar as suas vaidades, os seus rebolados, as suas etiquetas, as suas razões, as suas manias e incertezas, os seus pelos e cabelos, os seus rabos e línguas pelo chão.

O mundo todo quase alheio àquele suposto acontecimento banal de subsolo.

Sem perceber, a Universidade de b. ficaria pequena pra tanto mistério. Ou melhor, a sala de aula sem publicidade ficou pequena pra extensão desta narrativa.

Soubemos de uma voz tensa de universitário de b. Uma voz que estourou no ar rarefeito da sala de aula sem publicidade, num desespero discreto de atenção, numa pose lenta de ator sem roteiro, numa posição sem dó nem piedade, numa mania de ser sempre o que bem entende ser, intenso, duro e explosivo:

– Quero ver… quero ver se nesta sala tem bunda mole! – sua primeira estrilada.

Quem nos acompanha sabe desta desconversa. Uma bela de uma desconversa, diga-se.

Régis, nosso herói preto, parece-nos impossível, incontrolável, uma gota de sujeito que não perde a pose ou dela não arreda o pé.

– Quero ver se aqui tem macho que se preze, quero ver! – sua segunda estrilada.

Meio que descontrolado, quase apelando? O estampido da primeira estrilada ainda ecoava em nossos ouvidos. Quero ver se aqui tem macho que se preze…

Agora sim! Reposiciono-me diante da retratada apelação de Régis.

Régis emenda uma oração com um fôlego nada previsível:

– Tenho um desafio pra vocês…

Seu tom de voz desce um degrau quase insignificante.

Nosso herói preto suga um pouco de ar, emenda num lance de falsa ira e de dor não sentida.

– … seus porras!

Batata, nosso herói branco, e eu, ficamos mudos.

Mudinhos.

Ficamos surpresos até.

(continua)

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Inspirações de um subsolo (parte 3)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Outro trago.

O branco me ofereceu a segunda dose.

– Batata, desse jeito você desmaia o coitado – disse o preto, a meu respeito.

Assim eu soube o nome do branco. O nome do preto…

– Qualé, Régis? Cê virou freira agora? – sem cerimônia reagiu o branco.

Antes que surjam questionamentos, lembremo-nos de nosso último ambiente físico.

Estávamos no Subsolo. Por extenso, o subsolo do Minhocão – o maior bloco de salas de aula da Universidade de b.

O retrato, em específico? Uma sala sem publicidade.

Em seu interior, uma mesa de sinuca.

Diretamente associados à jogatina, dois universitários de b.

Ambos disputavam uma guerra de estratégia no chamado pano verde.

Sinuca pra que eu te quero!

Dependendo da região do país, snooker. Pra outras, taco.

– Outro trago – com ar de indeciso, eu aceitei mais uma dose.

Agora, vemos Régis saborear a última partida ganha.

– Um brinde ao meu talento! – Régis se empolgou.

E é válido um trago nas dependências da Universidade de b.? – alguns devem de pronto se perguntar.

Se vale um trago na Universidade de b.? Teremos uma explicação nas próximas linhas.

De volta ao brinde. Na verdade, o brinde era pra uma espécie de round vencido.

Régis travava, desde as 8 da manhã de uma terça-feira, portanto, seis horas contadas, uma disputa renhida com o amigo Batata. Ganhara a última partida. E de uma melhor de quinze!

Porra, uma quase inacreditável melhor de quinze partidas.

– Melhor de quinze? – arrisquei-me curioso.

Os dois deram de ombros.

Depois da segunda dose, eu já não tava em condições de entender coisa alguma mesmo. E nem os comparsas de pileque, eu logo deduzi.

Nunca fui além de uma melhor de três.

Melhor de três acaba quando uma das partes faz dois à zero.

Minto. Já disputei uma melhor de cinco. Melhor de cinco é quando, uma das partes, faz três à zero ou alcança primeiro uma diferença de três vitórias. Certo?

Agora. Melhor de quinze? Desta – confesso – até aqui não tinha registro.

Interrogados, os estrategistas juraram pela garganta do primeiro universitário septuagenário, e de primeira graduação, que pudesse aparecer vivo no pedaço: melhor de quinze é comum no Subsolo.

Preferi não polemizar. Quanto ao jogo?

A disputa estava empatada.

Nossos dois heróis iam até o último esforço físico pela causa, se fosse preciso. Ou algo do tipo.

Curiosamente, as regras daquele clássico de dia de semana consideravam intervalos.

– Mais uma [dose]? – Batata me ofereceu.

Súbito, ele se posta diante de meu rosto.

Olha-me como se notasse remela seca exposta pra fora de meu nariz.

Meio sem jeito, dou um jeito de me certificar.

Disfarço como posso.

Nada.

O nariz estava limpo.

Que a plateia não ache graça nisso.

Que a plateia não note excesso de zelo, mas em Brasília há um clima destacado de deserto.

(continua)

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Inspirações de um subsolo (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Preso às fantasias de um subsolo.

Subsolo; cada vez mais digno de um substantivo.

Em busca de uma descrição de mundo.

Os pés literalmente alçados na direção de uma sub-realidade.

Ainda sustentado pela publicidade editorial de nossas últimas manias.

Ainda preso àquele ar de quarto de dispensa cheio de compras e com utensílios domésticos; espaço tradicionalmente trancado pela mãe para que as crianças e os bichos não ataquem fora de hora, sem métodos ou de uma vez só os doces e as vitaminas do mês.

Lá.

Não resisti.

Ou, quase lá.

Desci novamente as escadas que dão fuga à realidade de pisos superiores do Minhocão, o maior bloco de salas de aula da Universidade de b.

Voltemos ao cenário de doidos.

Outro dia. Desci as escadas na direção de um espaço imune a pressões capitalistas, a autocensuras desmedidas e a sentenças institucionais, desci tão rápido pelos degraus de corrimões desgastados como que a perder o controle das mãos e do resto do corpo num deslize de ribanceira de infância congelada em fotografia de filme de marca falida. De volta ao cenário de uma sala de aula incomum, rente ao fosso de linha de metrô sem trilhos, sem metrô e sem tarifas reais, sem guardinhas sádicos, sem pedintes de roupas batidas e sem uma infinidade de passageiros a esperar por uma viagem de final de dia com o peso do desgraçado descanso do patrão fincado aos próprios ombros, ombros cada vez mais arqueados pela repetição do gesto de burro de carga. Na verdade, da última vez passaram-se alguns dias. Qual seja?

Num retrato de presente, podemos descobrir outras escadas, outros corrimões, outras descidas, outras quedas, outras ribanceiras que nos darão vasão à já pinçada doidolândia. Há uma infinidade delas às margens de dois ditos corredores de b.

Ao perambular pelas extremidades do Subsolo, noto portas abrindo-se para uma nova construção de sentido, noto portas abrindo-se para mais veias expostas nos braços, noto portas abrindo-se para mais um capítulo de inspiração simbolista.

Portas seguidas de outras portas, entradas e saídas paralelas numa extensão de um passeio fora de cálculo imediato. A propósito: de ponto algum do Subsolo a vista alcança a chamada luz de fim do túnel.

O desconforto terreno não atinge subsolistas de plantão.

Foi o que cogitei quando percebi outra vez uma atmosfera de fundo imaginário.

(continua)

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Uma sala de aula incomum (parte 7)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Gilberto Ferretto cravaria no Subsolo uma atuação de mestre?

Muitos dos presentes tinham a resposta, por saber de precedentes.

Eu não tinha resposta coisa nenhuma. Era a minha primeira vez de sala de aula incomum.

Contrarregra, Vagabunda e outros subsolistas tradicionais sabiam da tensão do ato.

Não era a primeira vez que o professor aparecia no pedaço mais vivo da Universidade de b.

O popular Crítico Literário havia chegado com um papo filosófico.

Lembram-se do capítulo anterior? Pudemos perceber que Ferretto evocou um tom reflexivo pra falar sobre a suposta morte do Autor, um ponto de vista complexo sobre a figura do escritor nas entrelinhas do texto de ficção. Os subsolistas prenderam a respiração para ouvir a sua sapiência de retrato gótico. À reconstituição do discurso da pessoa com cara, focinho e rabo de luto eterno!

– Dizem que o Autor – o genérico – morreu numa narrativa em meados do século passado; no exterior, não podemos precisar a data, mas no Brasil – conforme avaliam alguns críticos eurocêntricos de crises formais –, o Autor foi assassinado numa novela de 1977.

Até os subsolistas experientes ficaram boquiabertos com aquela abertura de diálogo.

Notei a imagem e fiquei sem entender.

A mina de Ciências Sociais, novamente, foi providencial.

Ela cochichou em meus ouvidos:

– Crítico Literário quase nunca dialoga abertamente com seus alunos.

Gilberto Ferretto é daquele tipo que adora aulas expositivas, e não tolera debate até que o seu roteiro de aula ou a sua atuação artística chegue ao fim.

– Estamos falando da morte do Autor – insistiu ele.

Além de surpresos, os subsolistas estavam em pé, todos postados de braços cruzados, como soldadinhos de chumbo; todos os presentes com uma das mãos a apoiar o queixo, em posição conjunta de filhotes pensadores da Grécia Antiga.

– Desconfiam de quem eu falo? – a pergunta do mestre ficou no ar.

A figura neogótica andava de um lado pro outro. Ou melhor, o professor de Crítica Cultural da Universidade de b. andava em círculo, projetando seu bafo de inteligência às margens de uma tribo de subsolistas sedados por pileques e cigarrinhos clandestinos, e atentos a mais uma palavra-chave de impacto negativo.

– Antecedentes meus do escrever? – continuou o professor, como a incorporar a fala (in)direta de um anti-herói da modernidade percebida em seu próprio objeto de análise – sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto. E só minto na hora exata da mentira. Mas quando escrevo não minto

Tomou fôlego:

– Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou.

– Dá-lhe Gil! – irrompeu do anonimato uma fala desproporcional e eufórica.

Gilberto Ferretto meio que ignorou a babação de ovo fora de momento.

Dali pra frente, Ferretto não toleraria qualquer interrupção?

(continua)

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Uma sala de aula incomum (parte 6)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Me perdoem a sinceridade de incrédulo declarado: nunca vi, nunca presenciei durante toda a minha folha corrida de condição humana e de dono de currículo de universitário profissional, a sensação de alunos sedentos por assistir uma aula, sobretudo uma aula em sala de aula incomum cheia de uma galera visivelmente ansiosa, pulsante, excitada para saber exatamente do professor, se professor, se professora, se os dois gêneros ao mesmo tempo e numa mesma postura ou o caralho a quatro.

A gota parecia grande, parecia que algo sem precedentes dos relatos sem solução cairia com tudo em nossas cabeças de bezerros. Pluguei num dos ouvidos de Contrarregra:

– Escuta, amigo: seguinte, mano: aula? Mesmo? De quê?

Contrarregra ficou com cara de extasiado, feito alguém que sabe da resposta, da pergunta e dos desdobramentos. Seu riso mudo quase que petrifica a minha curiosidade de calouro na Universidade de b.

– Então…

Meu amigo gosta de um “então…”.

– Então…

Depois de uma golfada em seu cantil inseparável.

– … logo mais, daqui a pouquinho, meu cha-pa, teremos aula de Crítica Cultural com Gilberto Ferretto, o notável Crítico Literário, como chamam os subsolistas da Universidade de b.

De uma vez só, Contrarregra trouxe à tona Crítico Literário e os subsolistas de b.

Senti-me num clube de dessemelhantes e variados.

– Isso. Subsolistas – repisou-me Sancho do Século 21, como a ler meus pensamentos.

– Mocinho, Gilberto Ferretto é fodástico – acrescentou, ao lado, a mina de Contrarregra.

Vagabunda, a propósito, parecia sossegada, a afagar o seu Contrinha com o auxílio do queixo.

Subsolistas de b.! Soube mais do conceito ao travar um diálogo de aproximação com uma mina de Ciências Sociais.

– Há um clube de subsolistas neste trem! – fulanizou a desconhecida de sotaque goiano.

Ou de sotaque mineiro.

Ou de sotaque mesclado.

Ou ou.

Súbito! Uma fala de ator principal ganha os devidos holofotes.

– Uma crise… uma crise sugere outras crises.

A galera ficou muda.

Nesse momento, descia a escada do Subsolo, e em passos saltitantes, uma figura de preto.

Totalmente de preto! Uma pessoa com cara, focinho e rabo de luto eterno!

A figura ecoou a própria fala, após uma pausa pra recolher o bico de uma garrafinha de água mineral.

– Uma crise que sugere outras crises.

O efeito era de uma voz em volume baixo, grossa e sem positividade.

Tive um tempo pra uma suposição literária: o cara parece ter dicção e desempenho de quem bebe gim com tônica gelada todas as noites.

– Já ouviram falar na crise do Autor? – emendou Crítico Literário, num discurso formal e dirigido aos presentes. – Dizem que o Autor, o genérico, morreu numa narrativa em meados do século passado; o registo do exterior não nos interessa, mas no Brasil – conforme avaliam alguns críticos eurocêntricos de crises formais –, o Autor foi assassinado numa novela de 1977.

A aula de sala de aula incomum estava apenas começando…

(continua)

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Uma sala de aula incomum (parte 5)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O subsolo do Minhocão.

Minhocão, o reiterado maior bloco de salas de aula da Universidade de b.

No Subsolo, Contrarregra, Vagabunda, a quem pudemos conhecer de relance em linhas anteriores, além do vosso jornalista sem solução, e demais convidados desconhecidos, por hora desconhecidos de nos forçar a memória numa seleção coincidente de nomes compostos: Gringo Gula, Robertinho Teixeira, Valerinha Net, Solange Medeiros, Virna Virtuosa, Marcio Alexandre, Luiza Vilela, Paula Andrade, Sandro Sicca, Joventino Dias.

A galera – no dizer publicitário da militância de b. – dava as caras aos poucos, como católicos que incomodam o ego do padre e chegam atrasados à missa das sete da manhã de domingo.

Aquela aglomeração.

Aquela aglomeração tipo festa universitária não comercial, feita de gente desequilibrada, bebida barata, risos despreocupados e uma baita liberdade de comunicação na forma de ações politicamente incorretas.

Sim. Havia gente desequilibrada. Sim. Havia bebida na bagaça. Sim. Havia risos despreocupados. Sim. Havia liberdade de comunicação na forma de ações politicamente incorretas.

Os desavisados talvez notem estranheza na aglomeração de festa universitária não comercial… Acreditem: há caronistas de plantão que a desconhecem. Peço uma licença temporária, assim, praqueles que já a conhecem. Expliquemos: existem festas universitárias comerciais em excesso no universo das ditas escolas superiores, daquelas promovidas para arrecadação de fundos de formaturas ou de quitação de aluguel vencido de república de estudantes ausentes da vida ou de oportunistas sem sangue nas nucas e nas bochechas; nesse tipo de aglomeração – vale a ênfase – não se vê sinceridade de confraternização. É mais uma forma de reprodução de capitalismo selvagem a rasgar a pele humana sem descanso e cerimônia.

Ma… vá lá, a aglomeração.

A aglomeração não daria sentido a uma festa neste caso. Não se tratava de uma festa, em absoluto. Apenas parecia uma festa.

Não, não era festa porra nenhuma, tou dizendo, malucão, era aula mesmo. E o Subsolo era o espaço de sala de aula incomum regada ao registro de contradição de garrafas sem rótulo e cigarrinhos clandestinos, diga-se. Uma sala de aula incomum, se é que ainda precisamos reiterar. No subsolo do Minhocão, uma sala de aula incomum, reiterado está.

O Subsolo, os leitores atentos podem ou já puderam perceber: é um espaço socialmente irrespirável para o senso comum, sem interferências institucionais, marcado por um fosso que lembra o de uma estação de metrô, relatei esta engrenagem em trechos anteriores.

Esta, na verdade, foi uma impressão que tive do lugar. Coisa que me fez pensar e repensar diante de doidos, sem chegar a uma conclusão imediata. A propósito: os doidos não paravam de chegar ao espaço. Nesta passagem, o Subsolo tomaria uma forma real de doidolândia.

(continua)

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Uma sala de aula incomum (parte 3)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Chacoalhei a cabeça num lance de despertar as caspas de todas as gerações juntas.

– Ô seeeu cusããão!

Ouvi a frase rente ao fosso do subsolo do Minhocão – o nada imaginário bloco dos blocos da Universidade de b.

Muito em breve, faço aqui uma aparente promessa de político, farei um retrato verossímil (e derradeiro) deste Minhocão!

E, de véspera, posso até arriscar um trocadilho: as meninas vão adorar o meu Minhocão! (Risos…)

Heeeeein?!

Ah, sim, assim faço associação com Jerônimo Dantas de Oliveira, vulgo Canaaaaalha!

Lembram-se dele?

Nããão?

Ma cómooo? Ma… Ma… có-mooo não?

Jerônimo Dantas de Oliveira me visitara em outros diários.

O trocadilho faz luz ao Canaaaalha, em O dia em que Brasília foi apresentada a (mais) um canalha.

– As meninas vão adorar!

De repente, a frase de início ecoou entrecortada.

– … seeeu cusããão!

Ainda sentado, observava o outro lado do fosso do Subsolo, agora com nome próprio definido.

A bochecha ainda doía por causa das últimas tentativas fracassas de cuspe à distância, registradas na forma de capítulo anterior.

Fiquei na minha por uma fração de segundos, como se eu não tivesse sendo ofendido por uma voz de pessoa desconhecida e sem medo do perigo. A frase entrecortada ganharia um som de túnel sem fim.

– … cuuusãããããão!

Comigo? Mesmo?

Antes que eu virasse o rosto ou encarnasse um infeliz profissional de luta livre.

– Paaara Contrinha!

Queeem? Virei o rosto.

Contrarregra!?

Ou, o cusããão!

Ou, na intimidade de uma mina, o Contrinha.

Ri mudo pra não espantar meus fantasmas de plantão.

Sancho de Brasília num abraço com uma garota.

Nééésss…

Fiquei na mira dos dois. A seis ou sete metros do casal.

Os dois, até então, incrivelmente não haviam me notado.

Fiquei quieto. O diálogo prosseguiu.

Quer dizer: diálogo modo de dizer. Só a moça falava.

– Seu cusããão! Que mania cê tem de beliscar a minha bundaaa!?

Os dois estavam atarracados num cantinho discreto do Subsolo.

Deu pra notar. Contrarregra envolvia sua amada num gesto de chega mais amorzinho.

Entre beijos e gargalos, é claro.

Contrarregra. Sua imagem é de esgoto a céu aberto. Deu pra notar no amigo, o relevo imaginado de Paris do século 18: ele estava com os mesmos trajes de ontem, de anteontem ou de sabe-se lá qual data exatamente: a calça social preta, o casaco sobretudo surrado e cheio de pelinhos de cobertor de lã.

Já a moça? Vestido curtaço! E…?

Estrategicamente, não me perguntem mais… (Risos…)

O conjunto manequim do estudante de curso vago incluía ainda um calçado que realmente não nos transmitira sentido algum pra mencionar a sua etiqueta, nesta passagem.

(continua)