voltar voltar voltar

Os abraçadores das árvores

Deixar comentário
Um outro mundo é possível?

por Elizabeth Suarique, a Bete

É possível viver conforme outros princípios? O sonho hippie ainda tem seus seguidores e ficar perto deles da vontade de tentar.  Agora estou com os abraçadores das arvores do Rio Grande, gente fina que aproveita o esforço de seus parentes para se libertar da acumulação dos bens e procurar sua felicidade. Casa, emprego, despesas, aposentadoria, não faz parte de seus planos. Eles trocam o sucesso econômico pela horta, a construção da casa caipira e uma vida simples, sem plásticos e isopor contaminante. Essa a geração dos filhos da democracia. Nem tudo mundo pode aprovar o seu modo de vida, pois para alguns pode ser uma atitude abusada, já que os pais se esforçaram a vida toda para oferecer a seus filhinhos aquelas coisas que eles não tiveram na sua infância,  no entanto alguns destes filhotes cresceram no ambiente da paz e do amor à liberdade, em consequência, agora se acham com a coragem para se afastar dos padrões de sucesso, discurso velho! A sociedade bem sucedida quis poupar o sofrimento das crianças, então a família fica numa fria quando o gurizinho de 25 anos decide largar a faculdade, procurar um emprego simples de garçonete e morar com os seus amigos, numa baita ocupação lotada de artistas e peregrinos.

Na verdade, o abraçador da árvore fez uma escolha, mudou o estereótipo de pessoa bem resolvida. Após conquistar o sucesso econômico, o cara resolve se demitir da sociedade de consumo. Ontem um abraçador falou para mim como às vezes recuar nas economias compensa com a felicidade, também se pode viver com pouco, não precisa se matar de um infarto, chegar à solidão na raspagem da pedra pra advertir como sua saúde esta danificada pela histeria da aquisição, essa ilusão de acreditar na acumulação de bens e dividas para garantir a qualidade de vida. Mas qual vida? Questionam eles. Por enquanto, os filhos da Mãe Natureza quer ser pobres, vestir do brechó, viverem da pesca, do pão feito em forno, da horta, dos ovos de codornas… Será possível? É sim, ao que parece as pessoas conseguem mudar as prioridades da sua vida, eles não dependem do excesso da tecnologia  para achar o conforto, de fato, a Natureza oferece todos os recursos que as pessoas precisam para viver. O estilo de vida é um processo assumido na maturidade, pois significa se emancipar dos padrões sociais para se aceitar na diversidade, para aprender na experiência direta, acreditando não na solidão do individuo, mas na companhia dos outros seres da vida, na descoberta de todos os níveis de consciência possíveis. Para eles a faculdade se faz na estrada, nas viagens de bici, na aprendizagem dos ofícios feitos a mão, aqueles conhecimentos que não podem se certificar na plataforma lattes.

Achei estes abraçadores das arvores muito requintados nos seus gostos musicais, samba só até a Clara Nunes, tango, jazz, clássico e os dinossauros do Rock. Da cena nacional aqueles baita underground, as músicas urbanas tem que chegar com alvará para se ouvir num sarau. Os diálogos com eles é um sermão de dados estadísticos sobre a diminuição dos recursos naturais, relatórios científicos sobre as contraindicações  dos produtos farmacêuticos, tudo isso aprimorado pela mostra no mapa das paisagens naturais do seu território, com o pano de fundo de um som bem legal de Mano Chau. Em quanto à política, permanecem à margem, pois acham ao brasileiro classe A, B, C, D e E o culpável de todos os desacertos. No entanto também tem seu bairrista, aquele que se acha o profeta da Mãe Natureza. Ele não admite os produtos culturais da mídia, implica contra o sistema e rejeita o cumprimento da lei, no entanto, aproveita toda a assistência social. Nos temas das artes parece detido nos anos setenta, numa forma psicodélica da beleza, mas sem perceber que até o hipismo mudou também.

O perigo de se ligar a esta galera, é você esquecer seus planos de sucesso, se questionar sobre suas escolhas e até terminar recusando o uso do desodorante em beneficio de seu cheiro natural. Foi o que eu percebi de longe, na rua, no parque, na universidade, e de perto, na amizade, na parceria. Infelizmente para os abraçadores das arvores o mundo pode ficar estreito e seletivo. Você conhece um abraçador da árvore que leva para outro, e assim em diante. Os abraçadores das arvores  procuram-se pelo cheiro, pelo visual, todos  irmãos num bom astral. Gostei do convívio com esta galera, mais uma experiência neste Brasil cada vez mais complexo de definir num ritmo só, numa cor só, numa vida só. Pode ser que eu esteja enganada, ainda sou muito ingênua para compreender algumas coisas destas terras do sul.

voltar

Anatomia

Deixar comentário

por Daniel Baz dos Santos

O ácido lático ferve.
Esquenta o tendão exausto
Onde as fadas sentam
Para beber veneno.

A actina age involuntária e cardíaca.
Dorme sob o deltoide.
Treme entre o trapézio, dentro do tórax.
E atrofia um coração
Que mastiga e nunca engole.

A matriz óssea de um homem feito.
Fibra e massa parietal e linha epifisária…
Quando o fogo vier da floresta,
Os animais não te perceberão,
Posto que teus hematomas
São menos que ruídos
Nos buracos de tuas roupas.

O corpo improvisa uma glândula.
Um buraco onde se esconda a alegria –
que serve, contudo, durante os serões,
Para enterrar os cadáveres do sonho.

Entras pela porta
Para
Incompletar minha anatomia.
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

voltar

O sol e a brisa

atualizado 31 outubro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

Em determinado momento do dia,
a brisa passa debaixo do sol que torra.
Poderia ser o inverso:
o sol torra, mas, a brisa passa…

Não há porque desistir,
se, cá embaixo,
a brisa continua passando,
mesmo com o sol que torra.

Entre o sol e a brisa,
não existe uma ponte de concreto
que ligue um lado ao outro.
Nós estamos entre os dois…

O que mais arde no sol
é o suor todo dia suado;
é a pele queimada que,
já à noite, cozinha o sonho.

O que o sol tenta matar
é a umidade que transborda
dos nossos corpos todos os dias,
a contragosto de seu abrasamento…

É o suor ardido diante do sol
que se encontra com a brisa.
Sempre, às duas da tarde,
da planta do pé à ponta do cabelo.

E a sensação que o vento provoca,
dançando nas costas, na nuca;
enfrentando os olhos, segurando o peito.
Quase esquecemos do sol…

Entre os dois pontos desse lugar,
(no instante do encontro de brisa e sol)
o mundo deixa de girar um segundo.
E eu sei que estou vivo!

______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

voltar