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Uma sensação de sonho próprio

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Do prestigiado boteco “Sonho meu”

por Jose Mochila

No perímetro da dita boca pequena existe um boteco que transcende a realidade. Chama-se “Sonho meu”, fica ao lado da hidroviária nortchense. Quase não acreditei quando li a inscrição. De queixo erguido, me notei com os olhos rútilos de emoção. Não vacilei, troquei a realidade pela sensação de um pretenso sonho próprio. Quero dizer, eu estava atrás de um exercício de terapia. As revisões um dia ainda vão me deixar louco. Fiquei muito tempo dentro de casa, trabalhando. E os últimos feriados me deixaram depressivo. He he, prefiram tudo menos a profissão de plantonista.  Meu conselho de revisor: não leiam tanto nem escrevam sem obsessão. Prefiram atividades braçais; sejam peões de uma forma menos dolorida! É mais fácil ler parnasianos do que corrigir textos para jornais e revistas. “Sonho meu”, minhas dores e senões evaporaram quando pisei neste sacrossanto estabelecimento – todos os estabelecimentos da boca pequena local são sacrossantos, tenho que frisar esta redundância.

“Sonho meu”, um estabelecimento de cidade pequena, mas com dispositivos de segurança de alta tecnologia. O chão, por exemplo, é antiderrapante. A diretoria não vê ou parece fingir que não vê o engenho: a cada três minutos, um poeta tasca um cuspe no piso. Bebericador algum cai naquela base. Ao menos por escorregão. Captei o registro no primeiro gole de cerveja. Então observava o ambiente. Uns jogavam sinuca, alguns carteado, outros jogavam conversa fora. Ao fundo, perto do banheiro, um pau d’água abraçava a única mulher entre bebericadores profissionais. Pra ser sincero, eu não me ative nesta última imagem. Nem na penúltima. Voltei-me para a primeira. Obsessivo, eu não via jogadores de sinuca na frente. Eu via pescadores. Eu não via taco, nem a falta de giz, nem mesa desnivelada. Eu via pescadores. Para mim, só havia pescadores naquele microcenário de nosso cenário maior de mundo. Quereria eu que todos ali fossem pescadores? Acertou quem arriscou a única e certeira alternativa. Eu já estava na segunda garrafa, oferecida a um dos bebericadores. Não me contive, quis saber se o sujeito era pescador. Um dia fora um deles, fiquei sabendo. Hoje, apenas um aposentado, ex-açougueiro e esportista da tarrafa. E como fala, este esportista. A coisa ficou intensa mesmo depois que eu disse que era um periodista indisfarçável. O ex-açougueiro não parou mais de versar. Ele só diminuiu a fala depois de ser convocado para uma disputa no pano verde. De lá, o velho esportista da tarrafa ia tecendo suas histórias e, para não deixar por menos, aproveitava para provocar o oponente. Com riso de curinga do Batman, o sujeito se dirigia para mim e ao mesmo tempo para o seu oponente amigo: “Olha a moral deste cara, só joga com uma das mãos. Tal um aleijado!”. E não é que o oponente amigo, a esta altura também um amigo da reportagem, jogava só com o braço direito? Nããão, este cara não é um aleijado. No dizer de nosso herói, “este cara é um marrento!”. Ex-açougueiro falaria com destaque até a marra do oponente se deparar com a derradeira bola 8. Suspense? Tambores rufando? Um movimento de consagrar vencedores e de secar bocas abertas? Ex-açougueiro já não falava tanto, após um lance de causar surpresa nos próprios olhos do marrento, que numa jogava de tabela, mataria jogo. A bola preta cantou surda dentro da caçapa, eu bem percebi ex-açougueiro engolindo a seco a perda de uma valorizada moeda de 50 centavos de real. Depois desta, fechei a conta com a diretoria do bar que, sabendo de minha profissão, acionou a tabela para forasteiros: me cobraram inacreditáveis notas de reais por cada garrafa de cerveja consumida. Deus do céu, eu nunca pagaria tão caro por uma Antarctica tradicional 600 ml. Saí do “Sonho meu”, voltei à nossa realidade compartilhada.