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Moda luz de um lampião

atualizado 23 janeiro 2015 Deixar comentário
Um blecaute do bar/lanchonete Recando do café

por Jose Mochila

Encostei-me a uma parede com sombra. O sol batia forte no final de tarde da última segunda-feira. Na verdade, eu parei ali depois de comprar um suco de uva num mercadinho próximo. O tédio me tirara de dentro de meu casulo de revisões de textos infinitas. De repente, eu me percebi atento à paisagem. Eu estava exatamente em algum ponto da rua General Osório, no dizer dos brasileiros, dando sopa para o azar. Para cada sorvida do suco, uma manobrada no canudo. Não por acaso, eu escolhi um horário apropriado para captar a vida social. Clic. Literalmente, fui reproduzindo meus pontos de vista. Clic, clic. Enquanto veículos se exibiam na esquina, pessoas caminhavam pelas calçadas. E eu ali, fingindo que o suco ainda existia dentro da latinha. Alguns passos, e pus o recipiente vazio para dentro de um grande tambor de lixo, postado no canteiro central da rua. Alguns passos de volta, e me vi novamente na parede com sombra. Clic. Uma pessoa passou ao lado, o guri que vinha com ela deixou escapar um “bah, que calor, mana!”. Os dois entraram no mercado e se perderam em meu imaginário. A recorrência dos passantes me fez pensar num registro de atualidade que considero importante para quem não é da cidade São José do Nortchê e que um dia deseja conhece-la: em período de forte calor os moradores não economizam, ops, em tempos de calor as pessoas economizam bem nos trajes. No inverno, aí sim, as pessoas não economizam. Deste senso de economia, eu ainda posso acrescentar: os guarda-roupas expostos em público costumam ser bastante agudos. O relevo, a ênfase. Eu poderia dissertar mais sobre moda verão local. Mas fiquemos com a constatação de que o livre estar impera entre os nativos e radicados.

Retiro as costas da parede com sombra. Mudo de ângulo. Resolvo descer a Osório em direção ao cais. À distância, se podia ver uma cortina imensa azul celeste uruguaio. Mas um azul celeste uruguaio diferente dos demais dias. O que se via no horizonte, ou melhor, o que eu pude ver era um temporal que surgiria avassalador no cotidiano de gente com poucos trajes ou de vestes curtas.  Curiosamente, à medida que eu me aproximava do cais, mais o sol se transformava numa figura inexistente num novo telão que se formava no ar. Quase que do nada, aquele calor de queimar nucas expostas foi dando lugar a uma atmosfera de ar refrescante.

Inacreditável! Quando cheguei a duas quadras do cais, começou a chuviscar. O céu ficara menos claro numa questão de minutos. Sem muito pensar, abreviei a intenção, virei à direita. Decidi passar numa farmácia para recarregar o celular. Quer dizer, quis evitar os pingos que começaram a cair mais forte da estratosfera. Atravessei uma galeria (eh vero, o Nortchê tem uma galeria!). Já do outro lado do túnel, não demorei a cruzar a rua Pinto Nogueira (??) na diagonal, para ganhar tempo. A ideia era chegar o mais rápido possível em meu destino. Passos acelerados, quando dobro a esquina na direção da farmácia, tudo escurece de vez, até os postes de iluminação pública. Sendo fidedigno com o relato, a farmácia suspenderia o atendimento naquele instante; sem eletricidade, as máquinas param.

Mais dois passos, esbarro com o Caxias, um amigo carioca residente no município. Ele estava uniformizado com um macacão de uma empresa que opera no estaleiro northense. O camarada havia acabado de sair do serviço. Quando me viu, soltou um sorriso de quem, enfim, acabara de conseguir uma companhia para beber e conversar. Dito e feito: acompanhei Caxias no interior do bar/lanchonete Recanto do café, que se transformou em inevitável refúgio de seres de naturezas diversas: do affair duma das atendentes a um policial civil à paisana; do Caxias ao mototaxista que estaciona na frente do estabelecimento; de um pedinte profissional a uma figura inclassificável. Um lampião iluminava os presentes e a abertura das garrafas. Exceto eu, os demais pareciam não se importar com mais um (fiquei sabendo) rotineiro blecaute.

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As descobertas

atualizado 13 outubro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

quando descobri o átomo
, tudo a ser descoberto
, sol, lua
, estrelas não só iluminavam a janela.

quando descobri nem tudo a ser descoberto
, tempo não é rápido como imaginação
, consenti pacientemente
, o nem mais e nem menos: medianeira.

quando descobri poder falar
com a laranja, com o sabiá e que as pessoas gritam e sussurram
conforme eu queria nos meus sete anos
, que bom…

______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Cap. 41. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Numa brisa que parecia flutuar na atmosfera

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

A impressão era de que já estávamos na estrada há dias, semanas, meses. Mas era apenas o primeiro dia de viagem, a primeira cena de hora do recreio para sentir ar fresco, tomar um refri e comer um lanche. Foi o que fizemos quando passamos por uma sombra de notáveis eucaliptos fincados num terreno próximo a um conjunto de casas populares numa das bandas periféricas de Vergara, onde estacionamos a nossa máquina do tempo. Que viagem, hein!, deixei escapar um suspiro ainda dentro de El fuca blanco. Ao lado, o parceiro já se movimentava para curtir uma brisa que parecia flutuar no ambiente. Em segundos, Julinho estava fora do carro, com o pescoço envergado e consumindo um pouco de água mineral. Glogue… Glogue… Geladinha…? O parceiro fez que sim para minha pergunta retórica, balançando a cabeça positivamente num movimento consagrado de gargalo. Se fazia muito calor naquele final de tarde de domingo que parecia não acabar nunca? Ao tirar a tampa da caixa de isopor, peguei uma segunda garrafa… De fato, pude sentir a garrafa bem geladinha entre as mãos. O gelo comprado numa vendinha de beira de estrada em Río Branco estava sendo bastante útil. Além de saciar a sede de piloto e de copiloto, a água – bem geladinha – serviu para que pudéssemos nos refrescar numa dada atmosfera de micro-ondas ambulante. Atmosfera de micro-ondas ambulante? Podes crer, quente pacas, dentro do veículo… E para não fazer papel de ingrato com o dito cujo, nosso reconhecido resistente protagonista, oferecemos a ele um pouco da H²O. Uma, duas, três pingadinhas santificadas por sobre a lataria avariada de El fuca, que diante de nossos olhos parasitas sorriu como uma criança amamentada. Aliás, o gelo havia funcionado além da conta. Olhando bem no interior da caixa de isopor, vendo bem mesmo no interior da caixa de isopor, eu pude perceber algo não esperado, quase uma… Parceiro, já viu o que aconteceu dentro da caixa de isopor? Julinho, que parecia não mais tirar a garrafa de água da boca tal a sede que lhe atravessava o organismo, me olhou como se ao mesmo tempo pudesse me dizer ou dizer em alto e bom som: o que que aconteceu, Renato?

 (continua)

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O sol e a brisa

atualizado 31 outubro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

Em determinado momento do dia,
a brisa passa debaixo do sol que torra.
Poderia ser o inverso:
o sol torra, mas, a brisa passa…

Não há porque desistir,
se, cá embaixo,
a brisa continua passando,
mesmo com o sol que torra.

Entre o sol e a brisa,
não existe uma ponte de concreto
que ligue um lado ao outro.
Nós estamos entre os dois…

O que mais arde no sol
é o suor todo dia suado;
é a pele queimada que,
já à noite, cozinha o sonho.

O que o sol tenta matar
é a umidade que transborda
dos nossos corpos todos os dias,
a contragosto de seu abrasamento…

É o suor ardido diante do sol
que se encontra com a brisa.
Sempre, às duas da tarde,
da planta do pé à ponta do cabelo.

E a sensação que o vento provoca,
dançando nas costas, na nuca;
enfrentando os olhos, segurando o peito.
Quase esquecemos do sol…

Entre os dois pontos desse lugar,
(no instante do encontro de brisa e sol)
o mundo deixa de girar um segundo.
E eu sei que estou vivo!

______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.