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O peso da história

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Um retrato histórico de Sintra, em Portugal

por Nadson Vinícius dos Santos

Esta é a vista de uma das torres do castelo dos mouros na cidade de Sintra em Portugal. Atualmente, ele tem sido alvo das políticas portuguesas para incentivo do turismo; suas estruturas foram reformadas e abertas à visitação. O turista pode subir a pé (o que eu fiz) o morro até o castelo, e no caminho vai passando por uma reserva florestal lindíssima, ouvindo o som do correr das águas e o cantar dos pássaros ou subir de carro.

A história do castelo vai sendo contada ao longo do trajeto mediante placas de informação. E quando atingimos o topo, isto é, as torres do castelo, estamos já embriagados de história, e uma história que de certa forma nos marca.

Sintra foi palco das lutas entre cristãos e muçulmanos no início do segundo milênio da nossa era. A vista do alto do castelo era bastante privilegiada, se podia ver toda a região; os mouros se instalaram ali e possuíam uma vantagem cobiçada pelos cristãos, orientados pela igreja católica. O castelo foi dominado, os mouros subjugados e a história se seguiu com o nome do castelo ainda em referência aos primeiros donos – não sei se uma honraria ou deboche.

Em cada estrutura que pisei era dominado por um sentimento forte… uma angústia, uma curiosidade, uma decepção em relação aos atos humanos. Ia pensando no absurdo das guerras que sempre, a história vem mostrando se fundar nas mesmas razões: construimos castelos, invadimos ou somos invadidos.

Minha cabeça me levou, quando cheguei à praça do castelo, onde tomei também uma cerveja, a imaginar a vida da elite que residia naquela fortaleza, que se sentava naquela praça e tomava suas bebidas. Nos guardas que ficavam em cima das torres de vigia; me sentei em uma espécie de sofá na sala de conselhos e imaginei o quanto de segredo da humanidade aquelas pedras não escutaram, o que se tramava ali quando os mouros tinham às portas seus inimigos de outro credo?

A cisterna subterrânea, os túmulos, as casas na borda da fortificação, os locais de culto; tudo isso revela um grau de perícia importantíssimo além de uma sofisticada civilização e cultura, em parte absorvida pelos conquistadores (o que lhes garantiu tecnologia para cruzar os oceanos e trocar umas palavras com os nativos daquilo que se chamou América), mas a maioria foi destruída.

Esse pensamento me carregou para outro: imaginei a correria e o desespero que não tomou conta de todos ali dentro quando os muros do castelo foram ultrapassados pelos invasores e a espada anunciou que um outro deus ali seria instalado e o crescente havia de ser substituído pela cruz semelhante ao que houve nas Américas.

Bom, esse ato ajudou a formar o atual Estado português que conhecemos hoje e compõe a orgulhosa identidade nacional. Motivos para considerá-lo brutal há vários, mas a julgar com a cabeça da época, que tenta se inserir ainda nos dias atuais, os dados eram outros… embora os jogadores ainda hoje existam. Pois é, voltei de Sintra com o peso da história em meus ombros.