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Matar um rio

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por Daniel Baz dos Santos

Para matar um rio não basta estar errado. A lógica do erro não alcança a falência da matéria. Para matar um rio é preciso abandonar todas as moradas: o nome, a larga canção, a diminuta estrofe e suas persianas finas, as perfumadas desculpas.

Para matar um rio é preciso esquecer certas coreografias: do abraço quente, do peito aberto, do olho vivo. É necessário ignorar onde pasta o sangue e gastar todas as funções da pele. É preciso admitir que a noite não tem mais saídas e agora pesa como uma joia velha; que o coração é só um gemido obsceno e tóxico e as mãos desamparadas pendem inúteis como entranhas. Urge confessar que tememos um céu que nunca explode, que temos pânico da ardência dos livros, das línguas que se sacrificam nas sílabas, das frestas que iluminam o sexo e dos fedores que adornam a boa vontade.

Agora o que mais querem os homens? Já golpearam a aurora com janelas que mais parecem feridas postiças a guiar os suicidas. Já conduziram a álgebra para as arquiteturas possíveis, para as rotas transitáveis e esqueceram o sonho sob os gritos e as rezas. O que mais querem os homens, se as estrelas estão duras e ásperas como um teto qualquer e as cores nascem com defeito, servindo como âncoras a derrubar os objetos preciosos da casa? Se existem raízes frias que se confundem com rugas, neutras e desconfiadas e inquietas como raios. Se a brisa fresca ressoa em nosso peito como uma frágil superstição. O que mais querem os homens?
Matar um rio. Não dominar o rio, não vencer o rio, sequer beber o rio. Não colher o rio, apenas matar o rio. Há fantasmas que se abastecem do que não creem os olhos e eles especulam o mutismo ao redor de meu rosto. Mataram um rio. Não uma pessoa apenas, não uma comunidade apenas, mas toda uma lógica assassina que vem mantendo nossa voz morna e salobra e tem despetalado nosso canto. Quem matou o rio não foi uma circunstância geograficamente específica, temporalmente limitada, antropologicamente plausível e socialmente previsível. Mataram um rio e é como se tivessem matado todos, todas as raças e sedes em uma única aniquilação.

Matar um rio! Depois será alvejada a aurora, será apunhalado o crepúsculo. Usaremos suas patas de bengala e seu bico de farol. Trairemos as montanhas. Colocaremos no lugar dos jardins e dos cavalos a flora prateada dos relógios. Envenenaremos a noite, que cairá uma última vez dentro dos nossos olhos, entoando triste seu voo final. Depois açoitaremos os mares, como fez Xerxes, caçaremos os mares, atiraremos redes que deixem os peixes e capturem o pélago para com ele engolirmos, de uma vez, todos os amargos. Escamaremos o mar para exibir seu corpo flácido em algum museu, ao lado das moedas e dos automóveis que caíram em desuso. Em seguida, abateremos o escuro para, com sua penugem, desbotarmos a nudez. Ao fim, cravaremos nossos dentes na terra, indecisos e inquietos, sem termos muito o que fazer de nosso paladar e vocabulário.

Para matar um rio é preciso esvaziar os espelhos. É preciso atear fogo às nuvens e interromper a estrada de pássaros por onde passa o poente; matar o vento a pedradas e, no cadáver inerte, colher letras escuras e oferecer aos famintos; colocar uma concha ao ouvido e escutar o silêncio de todas as cobras trocando subitamente todas as peles; descascar todas as poças e desfolhar as asas de todos os açudes.

Antes foi que morreu o rio, não percebem!? Não o Tâmisa, não o Ganges, não o Nilo nem o Sena, mas tudo que ousou hospedar o homem, tudo que serve de estada aos nossos desejos e expectativas. Há um arrepio dentro da terra. Há em tudo um susto de ter riquezas. Há no mundo um pavor de ter valor. Os animais domésticos e as feras noturnas aproveitam-se destes vãos de luz e silêncio que os homens deixaram intactos e esperam o fim, o inevitável fim. Não o Mackenzie ou o Congo, mas, obviamente, o Mackenzie, o Congo e o Yangtze. E não o Mississipi. E não o Volga. Mas, naturalmente, o Mississipi e o Volga. Mataram um rio, percebem? Não morreu de cansaço, ou de velhice e frustração. Foi morto e só.

Como se matássemos uma voz, como se poluíssemos uma veia larga, larga como uma garganta e completa como um fruto. E matamos tudo isso. E não morreu só o rio. Morreu também a vontade do rio, os desejos do rio. O raciocínio das águas, sua teimosia, controle e prioridades para sempre exilados na geometria seca do luto. A lágrima não terá mais potência, o suor será um destroço menor dentro dos artesanatos do desejo e a chuva não terá mais sabor. Já agora se estende, e falo daqui de Rio Grande, tal qual um campo cinza, depois de definitiva guerra.
Um rio nunca enche de fato o mar. Essa é a maior utilidade do rio. Não ser jamais aquilo que se torna. Um rio vivo é espera bruta e, na espera, alcança tudo o que nunca poderá ser e, por isso, nos ensina a vida. Morrer não tem tradução. Matamos um rio. Quando perceberemos que ele passava por nós?

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Crônica originalmente publicada em 27/11/2015 no jornal Agora, de Rio Grande, RS.