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Fascistas aludidos ou historicamente citados

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por Mochilowski

“Fascistas, fascistas, não passarão!” Por outra, também escutei: “Fascistas, racistas, não passarão!”. Se escutei bem, uma terceira versão invadiu meus tímpanos: “Fascistas, nazistas, não passarão!”. Impressionante registrar que eu escutaria mais do que uma forma derivada de discurso durante a chamada Marcha Antifascista em São Paulo, que ao mesmo tempo foi também realizada em duas dezenas de cidades do país. Importa dizer: as frases de ordem ecoavam em meus miolos horas depois de eu me incluir num relato como uma pretensa testemunha ocular. Na capital paulista, onde me notei vivo, os manifestantes se reuniram na Praça da Sé, no centro antigo. Pensei em dizer um grupo, mas na real foram inúmeras tribos que se reuniram no local a partir das 16 horas de um sábado de 30 de abril e de um clima fresco. Queria eu estar na posição de curioso apenas. Mas estava na posição de repórter freelancer para a Parabula.net, a respeito da qual eu passei dias interiorizando como “a mais nova e revolucionária página eletrônica de jornalismo ativista”. Se sugeri uma pista, acordei num dia aludindo um codinome; na oportunidade, me notei auxiliar de produção do nobre jornalista Giovanni Giocondo. Falei prazer pro sujeito, que eu até ali não conhecia pessoalmente. Conversamos, fizemos algumas entrevistas, trocamos ideias enquanto um público ia chegando ao cenário. O professor de Língua Portuguesa da rede estadual e amigo Aderaldo dos Santos, vindo especialmente do interior de São Paulo para o ato, foi também testemunha na Praça da Sé, escolhida não por acaso pelos autointitulados antifascistas como um palco da atualidade. E menciono a atualidade para lembrar que o tal ambiente fora palco da dita “Revoada dos galinhas-verdes”, cujo nome faz referência ao confronto armado ocorrido na mesma Praça da Sé em 7 de outubro  de 1934. Assim damos fundamento a um testemunho de hoje de um ativista vestido de preto ao lado de um carro de som cercado de uma infinidade de outros ativistas. Em outras palavras, lembramos um registro de tempo aqui reproduzido de modo indireto: o confronto histórico ocorreu quando anarquistas, comunistas, sindicalistas e trotskistas, organizados na Frente Única Antifascista, posicionaram-se contra a realização de uma então marcha promovida pela Ação Integralista Brasileira (AIB), organização que nos anos de 1930 congregava correntes nacionalistas e fascistas, dirigida por Plínio Salgado. Uma história que também nos diz: “Durante o episódio, 30 pessoas ficaram gravemente feridas e morreram pelo menos seis pessoas – três guardas civis, dois operários integralistas e um militante da juventude comunista, Décio Pinto de Oliveira, estudante da Faculdade de Direito de São Paulo. Décio foi alvejado na cabeça quando discursava e passou a ser o símbolo do movimento antifascista brasileiro daqueles anos. Também ferido foi no confronto o jornalista Mário Pedrosa, enquanto ajudava um outro militante comunista também atingido”. Em resumo, a denominação “Revoada dos galinhas-verdes” se deve ao desfecho do incidente, com a debandada dos integralistas, que, enquanto corriam, deixavam pelo chão suas camisas verdes, principal elemento de identificação dos militantes da AIB. O professor Aderaldo, o jornalista Giovanni, eu e uma multidão pudemos conferir com olhos vivos a perspectiva dos autointitulados antifascistas de hoje. Desta vez, os fascistas não se apresentaram de corpo presente, apenas foram aludidos ou citados historicamente. Da Praça da Sé, a marcha percorreria dois quilômetros até o Memorial da Resistência, também no centro da capital paulista.

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Mais vídeos da Marcha Antifascista realizada na cidade de São Paulo:

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Bônus de imagens do episódio

                                  

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