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Uma flor que o vento leva

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por Nina Alencar Zur

Fruta é flor adormecida que a gente come. Esse era um segredo só meu, que eu não contava para ninguém. E olha que eu adoro contar segredo, faz com que ele tenha algum sentido de ser. Minha mãe me chama de linguaruda. Quem me dera ter uma língua enorme, quem sabe assim eu não conseguia chupar três sacolés de coco da Marlene de uma só vez. Tinha dias em que, antes de dormir, eu falava essa minha descoberta em voz alta, para enganar a vontade de dizê-la por aí. Era um segredo só meu, não é mais, porque eu contei para o Artur. Quando a gente gosta de alguém as coisas vão deixando de ser muito nossas. Ele riu da minha cara e disse que eu estava errada porque flor não dorme e uma melancia de camisola era quase tão impossível quanto contar os grãos de areia da praia. Aquilo me deixou tão aflita. Como assim flor não dorme? Não existe nada que fique acordado a vida toda. Até a minha boneca dorme, e disso eu tenho certeza porque sou eu que a coloco para dormir. Perguntei se as flores não sentiam sono. Ele disse que não, que flor não dorme e nem sente sono. Continuo achando muito esquisito, mas, como ele é dois meses e quatro dias mais velho, deve entender melhor desses assuntos. Também fiquei encasquetada com a história dos grãos de areia da praia. Perguntei se ele sabia o que tem mais, se grão de areia na praia ou estrela no céu. Ele disse que tem mais areia porque as praias são muitas e o céu é só um. Até que faz sentido. O Artur é muito inteligente. Eu disse que tem muita coisa que não é obrigada a botar pijama para dormir, como a gente. Uma lagartixa, por exemplo, não usa camisola. É óbvio que melancia também não usa. Ele me perguntou se eu já tinha visto lagartixa dormir e eu disse que não, que elas devem ser muito reservadas, como a minha mãe. Eu contei para o Artur que ela nunca soltou um pum na minha frente. Ele riu de novo e falou que a sua mãe solta pum o tempo todo, e dos fedidos. Lá na casa dele tem lentilha toda semana. Não sei se a minha mãe tem esconderijos para soltar pum, se só solta no banheiro ou em qualquer lugar, contanto que eu não esteja por perto. Acho a segunda opção a menos provável, porque tem horas que a gente sente uma vontade louca de soltar pum e não tem banheiro por perto. Esconderijo não, a gente arruma em qualquer canto. Outro dia mesmo eu descobri um lugar perfeito para ser esconderijo, ao lado da casa da Marlene. Se é que ela já não usa aquele lugar para guardar os ingredientes mágicos do sacolé de coco. Tenho que ir até lá para conferir. Vou chamar o Artur para ir junto.

Ontem, um pouco antes da hora de dormir, meu pai disse que é bom a gente sonhar porque os sonhos são que nem vagalumes, acendem as nossas noites. Eu já tinha até escovado os dentes e ele me solta uma dessas. Perdi o sono na hora. Perguntei se eu podia sonhar acordada para ver o meu quarto ficar cheio de vagalumes. Odeio aquele escuro que fica, que não dá nem pra enxergar a minha própria mão, mesmo que ela esteja pertinho do meu rosto. Ele falou que não era esse tipo de noite que o sonho acendia e que, para resolver o problema do quarto escuro, a gente podia comprar uma lampadinha. Uma lampadinha é uma lâmpada feita especialmente para o medo que criança tem do escuro, porque ela é pequena e fraquinha. Ele disse que o sonho acende outra noite, uma noite que dá dentro da gente. Achei que não ia conseguir dormir nunca mais depois daquilo. Eu nunca imaginei que dentro da gente existisse noite. Até então, dentro de mim só tinha bala de hortelã do bar da esquina que eu engolia inteira, com medo de ser pega. Ele me explicou que essa noite a gente sente quando está triste, com muita saudade ou com um medo muito grande. Aí eu entendi. Isso tudo eu sinto bastante. Contei para ele que quando o Beijinho, nosso cachorro, foi atropelado por uma moto-táxi, anoiteceu dentro de mim. Quando a polícia sobe o morro e tem tiroteio, além de anoitecer, também chove, porque eu faço xixi nas calças. E que quando eu ouço aquela música do Roberto Carlos no rádio, aquela que tocou na novela, a saudade da vovó é tão grande que a noite é uma noite com lua amarela e milhões de estrelas cadentes. Só vi estrela cadente uma vez na vida, quando a gente viajou para o sítio da patroa da mamãe. Na cidade a gente não consegue ver porque tem muita claridade, foi o que ela me disse. Mesmo daqui do alto, que é mais perto do céu. A gente bem que podia combinar de um dia desses apagar a luz, todo o mundo de uma vez, para brincar de fazenda. Vou dar essa sugestão para o prefeito quando ele vier. Meu pai disse que a campanha foi agora, então ele só deve aparecer daqui a quatro anos. Vixe, daqui a quatro anos eu não sei se ainda vou querer brincar de fazenda. Pensar em daqui a quatro anos é coisa muito longa, que só adulto consegue. Quatro anos é só um pouco menos do que o tempo que passou desde o dia em que eu nasci. E faz tanto tempo que eu nasci que nem me lembro desse dia.

Quando me perguntam o que eu quero ser quando crescer, respondo que quero ser criança. Não sei por que insistem tanto nessa pergunta. Como se ser criança não bastasse e a gente precisasse querer ser mais alguma coisa. Gente afobada, deve ser por isso que anda tão rápido. Minha mãe tem uma amiga, a Dora, que é a pessoa que anda mais rápido no mundo inteiro. Quando ela me leva para passear, eu volto cansada da correria. Acho que minha mãe liga pra ela quando quer que eu durma cedo e não faça bagunça. Os filhos da Dora já são velhos, mas devem ter sido uns anjinhos quando eram pequenos. A cada passo que ela dá, eu tenho que dar uns cinco. Ela tem umas pernas compridas! As minhas são mais curtas que o cabelo da Ana Maria. Ela cortou na semana passada, mas ele continua enorme. É um cabelo infinito. Eu tenho perna curta e os adultos vivem me chamando de bonitinha, mas dizem que mentira tem perna curta e que mentira é uma coisa muito feia. Depois é criança quem diz coisa sem pé nem cabeça. Vai entender. Seria legal se existisse um sacolé de coco infinito, que a gente toma, toma e nunca acaba. Que nem o cabelo da Ana Maria. Bateu uma vontade de tomar um agora, tá me dando até coceira. Vou chamar o Artur, até porque preciso falar com ele sobre uma coisa em que eu pensei hoje de manhã. Tem muita praia e o céu é só um, mas toda praia tem céu em cima, e tem céu em cima de muita coisa que não é nem parecido com praia. Tem céu em cima da casa da Marlene. Então deve existir mais estrela que grão de areia. Também preciso perguntar qual é a diferença entre uma borboleta e uma flor que o vento leva, porque eu acho que borboleta é flor que voa por aí. Ele deve ter a resposta.