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Rascunhos sobre os quais não há nada a ser dito (nem mesmo um pio) ou com quantas ideias estúpidas se faz um roteirista de sucesso?

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por Nina Alencar Zur

– Martina, preciso que você me mostre alguma coisa até amanhã. Prazos são prazos. E vice-versa.

O prazo é o grande lobo do homem. Homens sem prazo seriam quase como coelhos, ou joaninhas. É em nome dessa palavra tão inocente, de cinco letras – ou seis, porque é praticamente impossível haver somente um prazo na vida de um homem de bem – que se cometem as piores atrocidades. Ou que se escrevem as linhas mais infames.

Desespero inicial (que só alarga o branco criativo): preciso de alguma coisa, qualquer coisa serve, pelo amor de Deus. Serve até protótipo de curta metragem pseudo-cult (que todos os santos e orixás nos protejam dos pseudo-cult).

Caneta, papel, lápis, borracha, corretivo. Luminária meio fraca, meio forte. Como alguma coisa pode ser meio fraca, meio forte? Dá no mesmo, é só uma questão de opinião. Martina é meio magra, meio gorda. Meio pseudo-cult, meio dissidente do movimento pseudo-cult. É cult ser dissidente do pseudo-cult?

Lá vamos nós.

Primeira tentativa frustrada: A reunião de trabalho que nunca existiu ou A desculpa do marido infiel

Escritório apertado, um homem dentro. Outro entra e fecha a porta.

– Oi. Cê tá atrasado de novo.

– Mas ainda não são três horas.

– A gente combinou às duas.

– Puts, desculpa, me confundi.

Os dois se sentam. Papéis na mesa, como se tivessem algo importante a tratar. Estão de terno. Passam quinze minutos olhando para a parede branca, para uma parte da parede que está descascando. Sérios.

Ruído de fundo: Uma ou outra buzina e o andar dos ponteiros do relógio. Tic, tac, tic, tac.

Um deles acende um cigarro, o outro reclama, abre a janela. O som das buzinas fica mais alto. O som dos ponteiros desaparece.

– Você não me ligou.

– Desculpa, não deu. Você sabe que é complicado.

– Tô cansado.

– O que você quer que eu faça?

– Eu quero que você me dê um pouco mais de atenção.

Os dois se pegam loucamente.

Nossa, que merda de roteiro!

Segunda tentativa frustrada: O homem que andava com a pulga atrás da orelha

Desconfiança, o verdadeiro mal-estar da civilização. Somos todos idiotas a andar por aí com os olhos atentos, esperando uma grande traição.

Um homem e sua pulga de estimação, pra lá e pra cá. Já nasceu desconfiado, desconfia de tudo e de todos.

Sequência cronológica de uma vida mal vivida, dominada pelo medo.

O bebê, recém-nascido, olha para o pai e para o melhor amigo do pai, lado a lado, no quarto de hospital. Os dois sorrindo, ternos, cheios de amor. Close na pulga. Ela ainda é uma pulga recém-nascida.

Que vergonha. Essa vai para a lista das leituras terminantemente proibidas. Não é para isso que se recebe o pior salário do mundo.

Pausa clássica para o café. Um roteirista de sucesso tem que gostar de café. Se não gosta, ao menos finja que gosta, senão não entra para o grupo. Quem avisa amigo é. De preferência, esteja descabelado na hora do café. E com olheiras. Mas isso é tão pseudo-cult…

Terceira tentativa frustrada: Martina, a roteirista de sucesso que não sabe escrever roteiros

Entrevistas, poses, flashes, tapete vermelho. Desfila Martina, a roteirista do filme de maior bilheteria do cinema mundial da última década.

– Bom, pois é, foi fácil, a inspiração veio na hora certa, acho que foi sorte… Queria homenagear o meu avô que morreu no ano retrasado, ele adorava ficção científica.

Só dá ela na passarela, transpira poder e segurança.

Fim de festa. Em casa, lava o rosto – que continua cheio de maquiagem borrada – e cai na cama, de vestido. Close no salto alto, um ainda está no pé.

Ruído de fundo: Zumbido de mosquito.

Martina não consegue dormir. Agita a palma da mão pelo ar, tentando afastar o incômodo. Coloca um travesseiro na cabeça. O zumbido começa a virar uma voz, uma voz que diz “Martina, o seu roteiro é o pior roteiro da última década”, “Martina, você não sabe escrever roteiros”, “Martina, a sua história já foi escrita mais de mil vezes”, “Martiiiiiiiiiiiiinaaaaa…”.

Puta que o pariu. Não tá dando. Impossível trabalhar assim.

– Oi, Carlos. Martina. Olha só, ainda não consegui escrever nada. Não, não vou poder te dar nenhum sinal amanhã. Eu sei. É. Eu sei, mas não deu. Fala pra eles que não deu. Gordo escroto, desligou na minha cara.

Alívio final (que encurta o branco criativo): foda-se, eu trabalho com cinema é pra isso mesmo, pra não ser escrava de ninguém. Arte não é produção em larga escala. Não ganho quase nada, não tenho que escrever qualquer mediocridade para cumprir com um combinado sem sentido. Princípios são princípios.

Pausa para um banho quente, para uma boa comida, para um vinho, para todo tipo de exagero. Duas horas de bem total com a vida. E de gastos desnecessários.

O remorso bate, Martina vai de novo aos papéis, escreve uma coisa meio boa, meio ruim. Faz uma nova ligação, pede desculpas pela falta de compromisso.

– Ok, amanhã às duas no seu escritório.

– Oi. Cê tá atrasada de novo.

– Mas ainda não são três horas.

– A gente combinou às duas.

– Puts, desculpa, me confundi.