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Visões da Aduana – Cap 28

atualizado 13 maio 2018 Deixar comentário
A imprecisos mil metros de uma aduana, na saída de Río Branco

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Após rápida parada para compra de gelo e de intercâmbio cultural num mercadinho, estávamos a um passo da saída de Río Branco, rindo da performance de Don Julito com as chicas vendedoras, assunto que aos poucos foi ganhando status de memória. O hielo comprado já esfriava os nossos refrigerantes na caixa de isopor no banco traseiro do veículo; do lado de fora, batia forte um sol de final de tarde de um início de ano. O relógio marcava 17h30 quando nos aproximávamos de uma aduana, a segunda que encontramos instalada na ciudad. Horas antes, havíamos passado pela primeira, que fica numa base de atendimento da Ponte Internacional Barão de Mauá. Se da outra vez a passagem pela alfandega foi tranquila, desta vez não tínhamos muita certeza: será que vão nos abordar desta vez…? As aduanas – vale a consideração – são entraves obrigatórios nas regiões de fronteira; são locais onde produtos não originais de uma região pagam tarifas para poder entrar em outra. Julinho e eu então não sabíamos direito da função de uma aduana. Se o entreposto também funcionava como posto de fiscalização policial e tal. Era a nossa exata preocupação… Ou a minha. Vide o comportamento de Julinho… Julinho trocava friamente de marcha, desacelerando, sem precisar acionar a quarta e crônica marcha. Uma adrenalina de final de campeonato ou lance decisivo: em nosso visual, a alfandega se fazia cada vez mais perto; no horizonte, cones a dividir ou a organizar “ir” e “vir” de veículos. “A aduana parece estar vazia”, pensei alto. Minha miopia, que nesta história contada não tem nada de artigo de literatura, fez-se expressiva além da conta. Passei a literalmente ver coisas, envolvido pela intensidade do momento. Colei os óculos num rosto suado, e num piscar acelerado senti o brilho forte do sol a confundir a qualidade de minha visão. Uma confusão de luzes tomou a superfície de minha retina; na condição de copiloto, pisquei os olhos na tentativa de ver e informar melhor el condutor.. Se eu via bem…? A uma distância imprecisa de mil metros, comecei a ver coisas: espectros de fiscais presos ao meu horizonte numa pronta expectativa de barrar El fuca blanco e sua mecânica duvidosa. Vão nos parar, Don Julito… Vão parar com a nossa narrativa…? Será…?

 (continua)

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Na posição de turista japonês – cap 26

atualizado 12 maio 2018 Deixar comentário
Vista embaçada de Río Branco

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Foram inúmeras as tentativas de fazer – em ato de trânsito – com que o câmbio do carro obedecesse às intenções de Júlio Cesar Bregagnoli Martins. Assim, quando a terceira marcha pedia um deslocamento, a quarta pedia um movimento peculiar; na falta de um dispositivo de travamento na caixa de câmbio, a quarta marcha passou a depender de um esforço literalmente manual, ou seja, a quarta marcha de El fuca blanco se transformou em um caso crônico.  Num improviso, Julinho passou a utilizá-la segurando-a com toda a força da munheca direita. Tal um motorista de maquinário rural, el condutor segurava o vibrante volante de El fuca com a força do braço esquerdo e a quarta marcha, para sublinhar um drama, com a energia de seu braço direito. Buscávamos então uma saída de Río Branco, entre ruas de pedacinhos de concreto e estradas de saibro. “Nem bem pisamos em solo uruguaio, e o carro já nos apronta, hem, Julinho?”. El condutor apenas riu mudo da situação; diga-se, a bem da verdade notei no olhar do parceiro um riso curioso de satisfação. Em vez de ficar preocupado, o “senhor que só diz sim” nesta história contada me pareceu ter ficado incrivelmente mais feliz com o problema de câmbio. E se o carro quebra, ou melhor, e se a caixa de câmbio não suportar a viagem? Eram alguns de meus pensamentos então interiorizados. Aliás, creio que eu devo ter externado algo parecido a Julinho, a quem eu naquele instante me limitava a chamar a atenção. Estava na minha, meio ocupado com o horizonte lateral do veículo; na posição de turista japonês, eu tentava registrar uma fotografia com o carro em movimento. O alvo de um horizonte lateral era uma carretinha engatada num veículo uruguaio, que passava numa rua de saibro. Até me recordo de uma exclamação, percebi que a imagem tinha saído embaçada. “Cara, perdi a bagaça do foco…”.  Na hora de um segundo clique, Julinho esterçou o volante numa entrada de um retorno num canteiro central, à esquerda. Súbito, eu lhe perguntei: “Ué, vai fazer o caminho de volta…?”.

 (continua)

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Da pacata ciudad de Río Branco – cap 24

atualizado 12 maio 2018 Deixar comentário
El fuca blanco nas imediações da praça General Artigas, em Río Branco

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Localizada no departamento ou estado federativo de Cerro Largo, Río Branco é considerada uma cidade pacata, cuja economia advém da pecuária, do turismo e da venda de armas por lojas de free shops voltadas ao público brasileiro, segundo as más e extensas línguas. Com uma população aproximada de 13 mil habitantes, o município deve seu nome ao brasileiro José Maria da Silva Paranhos Júnior, o famoso Barão do Rio Branco. Pois bem, este dado histórico ou esta nota de rodapé passava longe de um horizonte na tarde de sol do primeiro dia do ano de 2014. Na ocasião, curtindo a primeira parada oficial em solo uruguaio. Parada que não durou muito. “Então, Don Julito, preparado…?”. Minto, foi eu quem ouvi tal fala de ansiedade, camuflada de pergunta banal. “Então, Renato Renato, preparado…?”. O parceiro de viagem me fez a pergunta no instante em que nos recolhíamos para o interior de nossa máquina do tempo. Estávamos nas imediações da Praça General Artigas, onde tiramos algumas fotografias e instalamos um chip de telefonia uruguaia num celular, que não pegou direito num primeiro ato; um problema que, por hora, não nos causou muita preocupação. “Bora, Renato Renato?”. El condutor atravessou meu pensamento e me chamou a atenção novamente, quando ambos nos movimentávamos para colocar os cintos de segurança e nossos respectivos traseiros nos bancos; quer dizer, os cintos não encaixavam na peça de travamento, que, na realidade, não existia no veículo; assim, a estratégia era contornar os cintos por sobre o corpo pra criar uma aparência positiva diante da fiscalização policial ou de trânsito. Que os leitores fanaticamente éticos e excessivamente metódicos nos perdoem, mas não tínhamos escolha neste caso. A aventura no País das Políticas de Vanguarda estava apenas começando e um pouco de adrenalina e risco não nos faria mal, isto é, é de se supor que não correríamos inúmeros riscos durante um longo percurso sem um dispositivo de segurança importante. As condições mecânicas de El fuca já são conhecidas. Uma descoberta, porém, não muito feliz, assim de cara, viria à tona nos primeiros metros após a partida do centro de Río Branco. E não tinha nada a ver com os tais cintos inexistentes de segurança.

 (continua)

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A 1ª parada em solo uruguaio – cap 23

atualizado 12 maio 2018 Deixar comentário
A primeira parada oficial em solo uruguaio: o centro de Río Branco

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

A parada oficial de estreia em solo uruguaio foi marcada por uma dada fruição de expectativas. Como hablar…? Como pedir alguna información…? Como intercambiar ideas com os nativos sem o domínio da língua espanhola…? Foram algumas das pré-ocupações mentais surgidas na iminência de estacionarmos El fuca blanco na Praça General Artigas, em ciudad de Río Branco. Quem nos acompanha de carona nesta história contada sabe, falamos do município vizinho a Jaguarão. Estivemos em tal localidade em data anterior; passamos pela cidade fronteiriça num giro prévio de test driver; no local, então testamos o imaginário freio de mão de El fuca e adquirimos um chip de telefonia celular da empresa estatal uruguaia. Lembram-se? E fora justamente o chip da Antel, o objeto que eu manuseara no momento em que Julinho e eu paramos para respirar e registrar fotografias para a nossa mochila de experiências e emoções vividas. Tinha de trocar o chip brasileiro pelo chip uruguaio; o meu dispositivo celular não era compatível com a realidade uruguaia. “Precisamos operar esta bagaça”, argumentei com Julinho, que já começava a se distanciar de minha fala. “Este celular poderá nos ser útil, caso a mecânica de nossa máquina do tempo não suporte a pressão da viagem”, continuei mesmo falando sozinho. Enquanto eu me ocupava com o celular, encostado numa das laterais de El fuca, Julinho observava a paisagem. Observava-o, naturalmente. Ele sem muito saber que, naquele instante cristalino, caminharia por uma calçada como um protagonista em potencial. Julinho ou Don Julito das gurias, começaria desde o primeiro instante a buscar uma audiência na tentativa de confabular ideias e sorrisos cativantes em meio a um horizonte desconhecido. A propósito, a paisagem que então notávamos era mesmo uma paisagem. Não havia praticamente ninguém naquele retrato cinematográfico, nenhum gato pingado, nenhuma mosca azul naquela praça de tons coloridos. As três e pouco da tarde daquele primeiro de janeiro de 2014, Río Branco parecia um pouco da impressão subentendida que tivemos de Río Branco dias atrás: uma colorida cidade fantasma.

(continua)

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Julinho na pele de Don Julito – cap 13

atualizado 2 maio 2018 Deixar comentário
O ambiente da loja da Antel, em ciudad de Río Branco

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Importa dizer neste capítulo de breve visita à cidade fronteiriça de Río Branco. Lembram-se em que ponto da história paramos? Estacionamos El fuca blanco numa sombra em frente de uma loja da Antel, empresa uruguaia de telefonia estatal. Em três passos, da calçada, atravessamos uma porta de vidro, mergulhamos num bem surgido ar condicionado. Lá fora, é providencial assinalar, um sol de rachar mamonas, como se diz no interior de São Paulo. “Por favor…”, eu disse para uma atendente, esquecendo-me que a maioria do local não falava português. “Yo soy monoglota”, eu pensei em considerar com cara de tacho, analfabeto sem vergonha. Julinho, que estudou Espanhol durante dois anos de sua adolescência de interior de São Paulo, curiosamente não fez papel de auxiliar. Não por acaso, ele estava então mais preocupado em notar as chicas, digo, as franciscas das uruguaias do que me ajudar com a tradução simultânea de conversas provocadas. Havia duas chicas hermosas no local, se eu me lembro e me expresso bem o condutor de El fuca não tirava os olhos delas. Dei de ombro no ombro do condutor de nossa máquina: “Hablas, Julito?”. O condutor de El fuca riu, arriscando autossuficiência momentânea para a atendente imediata: “Tienes chip para telemóvel?”. Enquanto a atendente piscava os olhos, suponho, para o charme irrequieto de Don Julito, eu observava a ambos e, ao mesmo tempo, desmontava meu celular para a troca e instalação de chip novo. Iríamos precisar do dispositivo durante a longa viagem programada pela frente. A atendente, com aparência de trinta anos, disfarçou a falta de jeito com o olhar galanteador e desnaturado de Don Julito e foi aos poucos processando o seu sotaque adaptado à nossa constrangedora dificuldade de entendimento… Súbito ou como se não conseguisse mais se conter, Julinho tascou uma investida. “Chica”, disse ele, “tienes un teléfono?”. A atendente cessaria 100% de seus movimentos. Julinho na mira da chica. A chica olhando compenetrado pra ele, olhava-o assustada até. Coitada. “Yo no tengo”, disse ela ao nosso galanteador de araque. Não me aguentei com a cara vermelha de nosso condutor, ri baixo escondendo a boca com uma das mãos. Este Don Julito… !

(continua)

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Um ensaio prévio em Río Branco – cap 12

atualizado 2 maio 2018 Deixar comentário
Um visual da praça central em Río Branco, em uma visita prévia com El fuca blanco

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

“É apaixonante este local”, pensei mas não disse ao nosso condutor, que se concentrava numa espécie de treinamento com El fuca blanco. Uma prévia para a viagem, que para rebuliço dos leitores ansiosos de plantão ainda não começou. Equipado de um para-choque traseiro e espelhos laterais, utensílios há alguns dias não existentes, o veículo estava sendo testado nos pisos históricos de Río Branco e de Jaguarão. Quem não conhece a cidade brasileira do extremo-sul e a sua vizinha uruguaia, não sabe que o paralelepípedo e o cascalho compõem o chamado piso asfáltico dos municípios. O asfaltamento de piche, muito comum em outras regiões do país, não faz parte das realidades citadas… Tudo isso para ilustrar o piso em que nosso glorioso El fuca blanco vinha sendo testado. Quer dizer, falar em teste de direção para El fuca é afrontar a história consagrada de um dos modelos históricos da montadora alemã volkswagem. O teste, se é que ele poderia ou pode aqui ser atestado documentalmente, diz respeito à condução por parte do tarumaense Julio Cesar Bregagnoli Martins, el senhorito que só fala sim nesta narrativa. Julinho, assim chamado desde a infância, se não minto demais, havia tirado a Carteira Nacional de Habilitação poucas semanas antes desta viagem. Em juízo, ele contestaria a minha afirmação e me corrigiria acrescentando mais algumas semanas. “Ou eu tou mentindo?”, perguntei ao nosso condutor em momento de teste de sinceridade pelas ruas de Jaguarão. Atravessamos o Rio Jaguarão, a fronteira que separa a cidade de mesmo nome e Rio Branco e, ainda, o Brasil do Uruguai. Percorreríamos, já em solo uruguaio, ainda no perímetro urbano da fronteira, por uma estradinha estreita que nos levaria ao centro urbano de Rio Branco. Colorida cidade, cortada por uma avenida principal cheia de anúncios comerciais a cobrir lojas ou estabelecimentos comerciais. Como toda a cidade ou como toda a cidade que se digna pelo nome, marcada por uma praça. Pela tal praça, contornamos El fuca. Julinho, talvez por nervosismo ou inexperiência, talvez ainda por querer testar El Fuca, abusava sutilmente do acelerador, mas não corria… “Uma loja de celular!”, quase como um grito saíram-me as palavras. Encontramos uma loja da Antel, empresa de telefonia estatal. O motorista virou bruscamente El Fuca e usou um freio-de-mão imaginário do veículo, pois neste ponto da história queremos incutir no leitor a dúvida se, de fato, El fuca blanco possui um freio-de-mão…

(continua)

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Um teste de direção na fronteira – cap 11

atualizado 1 maio 2018 Deixar comentário
O horizonte do entorno urbano de Río Branco, em giro prévio com El fuca

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Faltava pouco, faltava pouco. Mentalmente reproduziríamos esta sugerida imagem de contagem regressiva. Posso, aqui, falar por Julinho, o famoso sujeito que nunca diz não. E foi com ele, depois de mais um sim, que rumamos de Jaguarão para a cidade vizinha Rio Branco, do outro lado da fronteira. Súbito, cruzamos a Ponte Barão de Mauá, sob o rio Jaguarão. Em um momento determinado, fomos atrás de um chip de celular uruguaio, que serviria para um uso prático e providencial; seria um instrumento de comunicação e de um possível socorro. “Julinho… vai que… o fusca quebra?”. As palavras de preocupação eram ecos dos pensamentos socializados pelo fantástico Menino barbado com quase quarenta anos nas costas, nosso ilustre vilão-personagem. Aliás, quem nos acompanha na história desta pré-história sabe ou soube de Barbudinho e de suas famosas meninices. “Vai que…”, disse a Julinho durante a passagem pela Barão de Mauá, “… o carro não quebra?”. Julinho riu da paráfrase. Ou melhor, desconfiei se ele riu mesmo de minha súbita literatice. Não por acaso, Julinho vivia rindo, mas um riso mudo de franca satisfação. Não era um riso maldoso ou autodestrutivo dos sarristas sem boas intenções. Enquanto conduzia El fuca blanco em direção a Rio Branco, o personagem mais positivizado desta história contada não disfarçava a alegria de notar a beleza da natureza da cultura gaúcha. “El narrador… as gaúchas são simpáticas”, Julinho expressaria inúmeras formas de expressão verbal, como se sentisse num harém de um território pouco conhecido. “De minha parte, meu caro senhor que só diz sim nesta narrativa, eu não vejo nada, estou bem e ponto”. Julinho riu de minha autodefesa e registro autobiográfico. De fato, Julinho até então não conhecia o retrato de cotidiano do Rio Grande do Sul, nem o retrato de vida do país vizinho Uruguai, partes integrantes de um bioma popularmente conhecido como Pampa. Uma paisagem geográfica marcante, a propósito daqueles que a veem pela primeira vez, um dos retratos que nos esperam pela frente.

(continua)