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Uma lição russa

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por Luiz Augusto Rocha

Em noites brancas, de lua alta,
escondemos no subsolo
nossas piores memórias.

Elas são um amontoado de recordações
de uma casa repleta de cadáveres,
demônios e pequenos heróis.

Somos nós os humilhados, os ofendidos:
idiotas tuberculosos e epiléticos,
jogadores criminosos castigados.

Desajustados punidos severamente
por uma moralidade forjada
nas mãos de um grande inquisidor.

Essa gente pobre, de coração fraco
escreve uma história suja
em que ladrões são honestos.

Só que o sonho de um homem ridículo
nunca foi, nem nunca será,
o de ser uma gentil criatura.
______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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A volta do homem que entrou pra ficção

atualizado 31 dezembro 2015 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Faltava-me a certeza de um raio, por isso saí pra rua com uma ideia de causar estranhamento nas pessoas, como se eu – a priori – não tivesse me incluindo na realidade; ou saí pra rua como se tivesse a pisar num chão instável da vida social; ou saí para entender melhor resquícios de maluquice desmedida que ficaram no ar, desde a aparição do inusitado homem que entrou pra ficção.

O homem que entrou pra ficção? Ou o nosso livre arbítrio. Ou a releitura de casos anteriores: 1º capítulo e 2º capítulo.

O sujeito surgiu feito uma promessa cantada do centro mágico da Citi, minha cidade natal. O homem que entrou pra ficção ofertou-me – então em off – um convite para conhecer a dor humana e expressiva de parecer verdadeiro; depois de um intervalo, reforçou-me a proposta por meio de uma ligação instantânea. Assegurou-me:

– Uma cortesia, meu caro jornalista aposentado. Aceita a passagem de ida para os confins da imaginação humana? (Caso queira mesmo evitar o tédio dos seres mortais!).

Naturalmente, achei graça do parêntese e, é claro, das palavras difíceis.

Aparentemente inconcebível, a ligação telefônica do sujeito surgiu do nada. Acreditem, a figura viu de perto um dos retratos fundamentais da Citi; dito e feito, o retorno de duas doses de vinho barato num boteco local. O grauzinho desejado (o chamado efeito imediato de álcool nas veias) me fez lembrar outros botecos nada escanteados pelo mundão de Deus e de seus filhos malcriados e mal geridos. Da correspondência do homem que entrou pra ficção, fiquei a mercê mesmo de um raio que partisse as minhas divagações pes-so-a-is.

Relato perecível; pensei seriamente na proposta do inusitado amigo.

Depois de seu ressurgimento, interroguei-me a propósito: que história é esta de “passagem de ida para os confins da imaginação humana”? Outro trecho de difícil compreensão.

Às vésperas de um novo ciclo, uma passagem de ano no dizer convencional, notei-me com uma dúvida de esquina: parece-me que o aparecido amigo voltou da ficção. Interrogação. Certamente por lá também haverá outros mistérios. Exclamação.

Agora. Neste momento. Na luta diária da produção de sentido, admito um dado receio crônico com esta mania de expor rememorizações ao público.

Aliás, sussurro um desafiozinho demente para a suposta audiência de plantão:

– O que fazer com esta mania: ignoro a ficção ou parto de vez a cara da realidade?