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Cap. 44. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Um momento de passagem pela Ruta 18

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

A ciudad de Trinta y Tres estava logo à nossa frente… só que não. De Vergara até aquele município, projetamos exatos 55 quilômetros. Martelei a informação na cabeça por alguns minutos, até me perder introspectivo numa paisagem de fim de tarde de domingo, um olhar que se despedia num lento por do sol, quase na diagonal de um infinito em linha reta de um asfalto liso, escuro e bem cuidado, ou o que nos restava de Ruta 18 iniciada em Río Branco. Observei bem no toco de mapa preso ao porta-luvas de nossa máquina do tempo, tal rodovia terminaria em nossa próxima parada programada. De lá, outra ruta, outra direção, outra perspectiva. Perspectiva que não estava ao nosso alcance de momento. De fato, o instante era outro. Mesmo que com ares de recorrência. Raul Seixas, a inspiração terapêutica de outrora, voltou mais maluco beleza do que nunca em nosso repertório de fãs confessos do imortal baiano. “Eeeeeeeeu… Soltei a cobra / E ela foi direto / Foi pro meio das aranha / Prá mostrar como é / Que é certo”. Meu parceiro de viagem parecia mesmo encarnar uma espécie de Raulzito de chuveiro. Julinho, cada vez mais cômico do que trágico nesta história contada? A voz de intérprete de el condutor, voz de mico de programa de televisão comercial, não ajudava muito. Uma pose. Mas como o nosso palco e auditório eram fabulados, a desinibição nele e em mim se fez quase total. Fazendo a segunda voz, se me lembro bem, passei a me sentir um notório cover de um Chitãozinho roqueiro, junto a um bizarro Xororó que chorava catando ou que cantava chorando preso ao banco ao lado. Pensando bem, pode-se se tratar de mais um caso crônico ou de internamento.  Fuga e diversão numa interpretação anunciada. E foi. Ao menos para dois ditos tripulantes. Numa fração de segundos… “Cobra com aranha / É que dá pé / Aranha com aranha / Sempre deu jacaré…”. “É o rock das aranha / É o rock das aranha…”. Um som que correu solto, pretenso e poeticamente sincronizado com o ronco do recém-reformado motor de El fuca blanco.

(continua)

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Cap. 39. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Avistamos um sujeito dentro de uma camionete para uma tentativa de um primeiro contato ou de uma espécie de diálogo simbólico com um representante local. Mais uma imagem de Vergara para a nossa memória de discípulos de Raul Seixas a bordo de um fusca branco, surgida a poucos metros de distância de um posto de gasolina, o único da cidade. Mesmo com El fuca relativamente

De uma das ruas de Vergara

abastecido, optamos por colocar um pouco de combustível em seu tanque. Aliás, sempre que parássemos numa dada cidade ou povoado uruguaio, adotaríamos esta rotina. Motivo? Se eu bem me lembro, (creio já ter registrado neste relato) o marcador de combustível de El fuca blanco possuía uma particularidade em comparação com marcadores de veículos do mundo dos ricos e bem alimentados. Se me recordo bem mesmo, o marcador de gasolina de nossa máquina do tempo só se movia quando a quantidade de combustível apontava meio tanque; com menos de meio tanque de gasolina não dava para Julinho e eu termos precisão alguma a respeito. Por isso, optamos por levar a tira colos duas garrafas pet vazias como um improvisado tanque extra. Enquanto um frentista nos entregava as garrafas com o líquido de aparência de urina de cavalo, dei um toque lateral a el condutor: “Que tal a gente perguntar para aquele cara lá, da camionete, se há… Posto Turístico na cidade?” Acreditem, a ideia não nos pareceu um tanto… exótica. “Posto Turístico em Vergara?!” Minutos depois, eu acharia graça da falta de nexo da “pregunta” e do sujeito escolhido para uma conversação. Conforme pudemos testemunhar em linhas anteriores, seria exagero ou surreal uma cidade que mal tinha asfalto nas ruas ter um ponto especializado de atendimento ao turista ou… vai saber. A confabulação foi rápida; na real, eu queria apenas captar um pouco de sotaque alheio. O condutor da camionete – uma ford D 10 – bastante avariada – com objetos de pecuária na caçamba – também estava abastecendo o veículo. Foi no instante em que o dito cujo tinha acabado de girar a chave na ignição que lançamos a “pregunta”. “No, no tiene…”, disse-nos com uma cara enrugada de pouco entendimento. “Oh, gracias”, foi só o que pudemos acrescentar antes de o sujeito sair abrupto do local sem disfarce de urgência.

(continua)

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Entre a realidade e a poesia – cap 36

atualizado 18 maio 2018 Deixar comentário
Entre uma realidade retratada e um estado de poesia

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

De volta a Ruta 18, pensando alto numa iminente segunda parada. De Río Branco até Vergara, uma extensão aproximada de 70 quilômetros. Sem pressa alguma até lá. Até porque, a nossa máquina do tempo, El fuca blanco, não suportaria uma velocidade maior que 50km/h. Exatamente num pouco além do simbólico “meio do caminho”, entre uma realidade retratada e um estado equilibrado de poesia. Até Vergara, música que eu te quero música, uma terapia ou uma dose sequencial de hits de Raul Seixas. “Cowboy fora da lei”, “Eu também vou reclamar”, “Judas”, “S.O.S.”, “Metamorfose Ambulante”, “Maluco Beleza”, “Rock das Aranhas”, “Trem das sete”, “Por quem os sinos dobram” e a conhecida e replicada “Mamãe eu não queria”. Enquanto Julinho puxava as músicas lado “B”, eu me animava alternando as canções lado “A” supostamente mais tocadas, cantadas e louvadas pelos fãs. “Daqui a pouco, Vergara”, deixei escapar uma citação direta no meio de um refrão que o parceiro ecoava. Consultado o toco de mapa preso na base de um porta-luvas: faltava pouco para chegarmos… E como será Vergara? Quais serão as suas características principais…? A arquitetura de tal ciudad…? Haverá chicas hermosas? Haverá mais pessoas jovens do que idosas? Naturalmente, a imaginação tomou conta deste presunçoso narrador. De tanto ultimamente ouvir falar em Uruguai pelos meios de comunicação – os conservadores falando mal, os menos conservadores falando bem – criei comigo um Uruguai que só existia, de fato, na minha cabeça. Deixei Julinho então cantando sozinho e me concentrei no Uruguai. Vergara, em específico. Continuei a imaginar coisas. Quase incontrolável. Vergara, entre um real e um imaginário. Súbito, fui instado novamente a segurar a crônica quarta marcha, aquela que não permanece engatada. “Precisa de uma mãozinha?” Pois bem, el condutor estava com o braço direito dolorido, dirigindo apenas com o braço esquerdo. Ok. Mas para cantar Raul, meu parceiro é infatigável. El condutor só cessou de cantar quando notou que passara um trevo com uma placa indicativa. Não só parou de cantar, como tentou frear El fuca, que respondeu ao comando alguns segundos depois. Apesar da baixa velocidade, não conseguimos ler a placa. Chegamos?

(continua)

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Tlac… tlac… tlac… – cap 34

atualizado 17 maio 2018 Deixar comentário
Um horizonte da Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Um estranho barulho surgiu em nossa viagem. Fomos surpreendidos com um ruído vindo de algum ponto específico da lataria avariada de El fuca blanco. Se a cara de Julinho estalou de surpresa nesta passagem, como esbocei no capítulo anterior, a minha cara ficou ou deve ter ficado roxa de interrogação. Interiorizei: El fuca, enfim, emite sinais de sua propalada mecânica duvidosa… Súbito, fiquei contente. Muito contente, na verdade. Na verdade verdadeira, eu fiquei eufórico. Será que o carro vai quebrar…? Eu começaria a esboçar a explosão de um riso tosco na base de um asfalto quase despovoado na Ruta 18… Pensei alto e em tom de estranha torcida: vai quebrar…! Sem demora, soltei uma gargalhada seguida de engasgamento. Julinho – olhei pro seu semblante ao lado – estranhou meu rompante de demência aparente. Estranhou meu riso pretenso ou escandaloso ou fez cara de estranhamento instantâneo. Em meio ao meu autoproclamado e recorrente riso de louco varrido, Julito simplesmente cantava. Além do reconhecido barulho que dificultava qualquer comunicação dentro do veículo, o percurso entre Río Branco e Vergara seria marcado com um hábito que, estimulado por el condutor, adotaríamos ao longo de toda a viagem: cantar ou reproduzir em trânsito hits libertários de Raul Seixas. Nada de caso pensado, porém; apenas uma forma terapêutica de se integrar à paisagem dos pampas uruguaios que se abria diante de nós… Se me recordo bem, no instante em que percebi o princípio de ruído na lataria do fusca, Julinho reproduzia um refrão seguido de uma caricata melodia: “Hmmmm… Mamãe eu não queriiiiiia… (dom dom dom daum…)”, “Mamãe eu não queriiiiiia… (dom dom dom daum…)”, “Mamãe eu não queriiiiiia… (daum..) servir o e-xér-ci-to”. Se me recordo bem mesmo? Entre um refrão e outro, o barulho inesperado na lataria do volkswagem fabricação 1980 aumentou na proporção oposta que… Tlac… el condutor, percebendo a gravidade da ocorrência… Tlac… tlac… e notando a urgência de sua função premeditada, foi tirando o pé do acelerador, até que o veículo parou por completo. Tlac… tlac… tlac…

(continua)