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Cap. 62. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Da praça central de Mariscala

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Caballeros, esta unidade não oferece assistência técnica. Foi mais ou menos isso que as duas atendentes da loja de telefonia Antel, em Mariscala, nos informaram. Julinho se saiu com esta versão capciosa, descarado que só ele na arte do improviso. A verdade verdadeira é que as atendentes uruguaias não entenderam porra nenhuma do nosso portunhol. Deixamos por menos, partimos pra próxima sem resolver o problema de meu chip Antel, que não estava pegando. Sem perder tempo, chegamos à praça central. Aqui…! Aqui, não, ali! Fui rápido numa chamada de correção. Julinho pisou no freio, para em seguida acionar o já telegrafado freio de mão imaginário de El fuca. Estacionamos o veículo embaixo de uma sombra. Desci primeiro do automóvel, enquanto o parceiro ficou bebendo um gole de água numa garrafinha, ainda sentado na posição promocional de el condutor. Projetei um olhar panorâmico numa praça bela, arborizada, devidamente cuidada. Havia até uma servidora pública naquele epicentro urbano. Ora ela varria um tanto de folhas caídas no chão, rastelava outro tanto, e punha pacientemente com o auxílio de uma pá os detritos pra dentro de um saco preto postado num carrinho. Manhã agradável, eu escreveria em meu caderno de anotações. Quando de repente, ouvi uma batida de porta. Ou melhor, uma, duas batidas na lata, avistei Julinho deixando a nossa máquina do tempo. Re, vou logo ali! Minto. El condutor não me disse nada, apenas mirou de soslaio, fez um sinal de nos vemos, e saiu pro interior da praça. Eu preferi ficar ali, entre a tentativa vã de fazer com que o chip de meu celular pegasse e algumas clicadas de fotografias. Foi exatamente neste ponto narrativo que nos ocorre um sujeito “sem igual”, anunciado em linhas anteriores desta história contada. Olhava numa direção, quando me voltei com o olhar para outra, eis que surge uma figura estranha sentada num banco verde limão da praça central de Mariscala, entre duas árvores de troncos avantajados. Juro que segundos antes, eu não vira nada nem ninguém no local. O rapaz (era um rapaz) portava um chapéu típico de vaqueiro uruguaio. Olhei na direção do sujeito, que não demorou a levantar um dos braços, pronunciando, para a minha surpresa e espanto, um português cristalino, com um riso mudo que não cabia no próprio rosto de ascendência indígena. Disse-me em alto em bom som: “perdido por aqui, amigo?!”

(continua)

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Palavras de estrangeria

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O horizonte da cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul

por Elizabeth Suarique, a Bete

Pois é, sou sim, sou estrangeira nos trópicos do sul. Há uns vinte meses eu recorro o Brasil nos bate-papos, nas músicas, nos cheiros, na festa, nas cores. No começo, meu olhar provocava inveja no meu colega, pois eu enxergava aquilo que um brasileiro já mais perceve pelo fato do costume. Então, obrigada pelo convite, vamos falar do Brasil com palavras de estrangeria, num portunhol ruim, a língua falada que aprendi mesmo, cheia de erros, de maus entendidos e, o mais importante pra mim, no descobrimento das palavras que ganhei de cada um dos brasileiros com quem já falei. A língua deixou de ser gramática para virar um pastiche de sotaques, mas como é difícil aprender o português quando a metade das palavras não significa o mesmo de canto a canto, quando o gaúcho fala de tu e conjuga o verbo na terceira pessoa do singular.  A gente teve que aprender a falar errado, procurando apenas a melodia das frases ainda incompreensíveis mas que uma vez ditas,  garantem o pedido dos mantimentos, um cafezinho, o simplesmente a procura de um endereço.

A foto (em destaque) do site da prefeitura da cidade de Rio Grande, no extremo sul do estado brasileiro do Rio Grande do Sul – que seria meu lar por dois anos – era uma beleza só: os sobrados portugueses, as ruas românticas de pedras seculares, a praia mais longa do mundo, em fim, um povo hospitaleiro e abraçador. Ao começo, tudo de bom, chegamos ao finalzinho do verão, todavia dava para pegar banho de mar. Era uma novidade, eu tava de olho aberto em tudo o que puder, sou romântica e achava nas casas do centro da cidade uma ruindade dramática, até heroica, nos azulejos portugueses descascados pelo vento corrosivo do porto, o pôr do sol na frente da Biblioteca Rio Grandense onde nós experimentamos com assombro científico a curvatura do céu e, à noite como um presente de viagem, o cruzeiro do sul.

Uma palavra linda ao começo do outono: O luar, tesouro da língua portuguesa, sim possibilidade de traduzi-la ao espanhol, o luar, o luar, que coisa linda ver a luz da lua cheia no frio céu azul.  Aí as pessoas começaram nos advertir sobre o tempo e o vento. As semanas passaram e o sol fosse afastando. Chegou o inverno de cor verde fungo, cheiro de chimarrão e quentão, -ah, palavra gostosa-. Eu sou duma cidade de montanha, acostumada às baixas temperaturas, mas esta sensação de frialdade é distinta, eu não entendia o silêncio nas ruas no inverno, as pessoas de cara fechada, só o vento falava, na verdade, uivava, essa a palavra que eu ganhei, porque o vento nas regiões do sul uiva, soberano na estrada desprotegida, uiva, teimoso pois já ninguém acompanha ele. As janelas fechadas tremem, outro mundo opera no interior dos lares com a bombinha do chimarrão regurgitando no fundo da erva morna, levada de mão em mão noutro tipo de intimidade. Sair era um ato de resistência, meu corpo tentando adiantar o caminho e retando o vento que momentos antes venceu o frágil guarda-chuva agora cadavérico no solo alagado.

Então tive que me adaptar, com mais outros 17 colegas latino-americanos (lembrei-me do conto de Gabriel Garcia Márquez: diesisiete ingleses envenenados, pois achávamos que iriamos morrer). Os estrangeiros, coitadinhos, bora comprar cobertas, aquecedor, luvas e meia calça no comercio do Chuí. As roupas de verão ficaram no fundo da mala, até o sol lembrar-se deste estremo do Brasil. Assim, foi a rutina as caminhadas a praia com luvas e cachecol, no Brasil, bah, eu nem podia acreditar nisso mas, o que poderia se fazer na praia mais longa e distante do mundo?

Para nossa fortuna, chegou a primavera noutra cidade cor de lilás. Caminho pelas ruas e ainda percebo uma nostalgia do inverno impregnado no meu fôlego, mas acho que agora consigo compreender alguma coisa sobre O Brasil e sua diversidade, da sua extensa paisagem que muda de cores, de sons, de sotaques, de risos, de cheiros e de festa. Pablo Neruda disse “Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras” eu digo: Obrigada pelas palavras, estas serão daqui em diante minhas palavras de estrangeria. Obrigada mesmo viu.