voltar

Um dia sem fim

Deixar comentário
Da praça Intendente Francisco José Pereira

por Jose Mochila

Descubro que já começo a ser reconhecido em São José do Nortchê. Se pela recorrência de minhas peregrinações, eu não sei. Quando saio do cais, no meu giro periódico, eu nem percebo se estou sendo notado. Quando não paro para falar com algum pescador, tiro fotografias do lugar e saio noutra direção. Na última vez, por exemplo, eu não estava muito para sociabilidade. Saí do cais com o pensamento de voltar logo para casa. O tédio me tomara. O tédio é uma praga fatal para qualquer periodista em vias de transmissão de mais um diário.

Na saída do cais, numa banda da rua Marcílio Dias, percebo minha ideia de volta rápida para casa ir para o espaço sideral. Sou localizado por Porto Seguro, um metalúrgico natural do estado brasileiro da Bahia. Com ele, eu viria a conhecer Salvador, um seu conterrâneo de estado federativo e também metalúrgico. Porto Seguro não se conteve em receber um cumprimento de lado oposto de rua, me chamou para trocar uma ideia. Eu o conheci dias atrás no mesmo cais, onde ele, mulher e filho pescavam a mistura da janta. Porto Seguro é residente há quase dois anos em nosso cenário de mundo; a família veio do nordeste brasileiro há poucos meses para junto de seu convívio. A pescaria relembrada serviu de pretexto para que ele me reconhecesse. Ah, claro, Porto Seguro não esqueceria minha profissão de nome mistificado pela sociedade. “Qual mesmo o seu nome, periodista?”, mentalizei a sua fala. Fiz suspense… Desisti rápido do suspense. “Pode me chamar de Jose”, eu disse no instante em que cumprimentei Salvador. Os dois carregam neste diário o nome de suas cidades de origem; que a recepção nos permita tal discrição e homenagem.

Sentindo-se um amigo de longa data, Porto Seguro quisera saber de minhas “reportagens”. Enquanto os dois interlocutores sentaram-se na calçada, eu preferi me agachar no piso de pedra lascada da rua; momentaneamente, porque a posição de sapo cansado é de esgotar as energias. Não demorei a me sentir um entrevistado. Porto Seguro, que então escapara de um churrasco familiar “chato pra caramba”, estava falante na rua. Falava, falava. Aliás, Porto Seguro parecia um locutor de rádio falando de política local. “Por que este povo tem preconceito com a gente [de fora]. Não dá abertura para qualquer um, não”, aconselhou-me em determinado momento. “Não é bem assim não”, Salvador interveio rápido. “É normal que as pessoas da cidade reajam assim”. Salvador – quase me esqueço de dizer – mora na vizinha cidade de Rio Grande. Veio para o Rio Grande do Sul, como o amigo Porto Seguro, para trabalhar no estaleiro rio-grandino. Os dois, neste relato, estão desempregados. Aguardam um reingresso no estaleiro nortchense, no lado oposto da Lagoa dos Patos.

A prosa prosseguiria num novo cenário. Antes de chegarmos à praça da matriz, a Intendente Francisco José Pereira, Porto Seguro resolveu pegar um copo com conhaque na esquina. Filou a bebida no bar Casarão, que receberia dele elogios efusivos. Bateria em meu ombro. “Rapaz, quer ir num bar bom?”. Apontou com a mão sem desgrudá-la do copo plástico. “É este”. Olhei. Porto Seguro insistiu. “É este, rapaz. É este”. Segurei o riso nos olhos. “O bar é bom, tenho uma ficha aí de uns trezentos contos. O dono é gente boa”, se vangloriou. Recusei prontamente um gole ofertado. Não precisei dizer que o conhaque não me agrada. Disse um “muito obrigado”. Aliás, sai-me com uma nota de contrariar meus últimos tradados sobre bares locais. “Parei com as bebidas, nobre amigo. Parei”. Porto Seguro ignorou completamente a minha confissão de fundo emocional. Continuou com a palavra como quem profere uma palestra-desabafo sobre sua destacada história de vida. Salvador não ficaria atrás do amigo. Os nobres então mediram forças com meu tédio; me tomaram como um analista de consultório neste dia que destaco como sem fim.