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Sobre as aves que aqui gorjeiam

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por Nadson Vinícius dos Santos

Ao chegar nas terras d’além mar, em Lisboa, os muitos cartazes da esquerda me deram a impressão de que havia algo errado. Sim, porque a classe média e a pequena burguesia só chamam a esquerda quando a criança neo-liberal, formada na renomada escola de Chicago, mete os pés pelas mãos (resisti ao trocadilho ). No Brasil de 2002, essa mesma classe mandou Lula fazer a barba, ajeitar os dentes, botar um paletó mais chic e moderar o discurso; aí  fez o favor de mandar seus empregados votarem no pobre e lá se foi o Lula lá, salvá-los da falência em que o príncipe da privataria os estava metendo. 12 anos depois e estupidamente enriquecida a custa do consumo de seus empregados, este setor da economia e da sociedade cansou de dividir o pão ( se é que algum dia o dividiu); cansou de pagar impostos para ajudar pobres-pretos-vagabundos, acusa o governo de “o mais corrupto da história” e está movendo céus e terras para tirá-lo. Afinal, o PT se corrompeu, pois tirou todo mundo da merda, o plano era apenas tirá-los.

Agora, seus jornais suplicam novo comandante. Alguém que faça a economia crescer, alie-se aos EUA (como se a raposa cuidasse do galinheiro) e ajude os fundamentalistas na cruzada contra a onda gay. Engraçado é que a História, como farsa ou tragédia, sempre nos ensina a deixar de sermos tão burros. Ora, enquanto gemíamos nas mãos do FMI e do Banco mundial, a União europeia dividia as funções aqui no velho continente. Portugal, por exemplo, recebeu a proposta de se desindustrializar para transformar-se na zona do euro, digo, zona de lazer da UE. Recebia, em troca, dinheiro. Isso, dinheiro. Dinheiro dado. A única exigência seria passar a investir em turismo, serviços e artesanato. A esquerda prevendo o golpe votou contra, claro. Aí a mídia da pequena burguesia endemonizou os comedores de criancinha e Portugal recebeu uma bolada. Parte sumiu e a outra foi investida em tanta assistência social que a vida ficou chata.

Mas na mesma época em que o Brasil se livrava do Banco mundial e do FMI, graças a Lula, os yankee protestantes deram um pulinho no velho mundo a negócios, pois quem ia pensar em diversão em plena crise? Lá se foi o turismo português. A direita, então, recorreu aos banqueiros. Resultado: a emenda saiu pior que o soneto. atualmente, cortaram 40% dos salários e parte das aposentadorias, reduziram bolsas de pesquisa, nas  universidades públicas se paga uma taxa para estudar e pasmem os reacionários: contrataram até médicos cubanos, além de se cobrar uma taxa nos centros públicos de saúde.  Ao fim e ao cabo, como se costuma dizer aqui, o candidato do partido socialista é o mais cotado para assumir a presidência da república. A velha Clio se mostrou como tragédia e a pequena burguesia vira à esquerda mais uma vez.