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Poema para a realidade

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por Luiz Augusto Rocha

É que me falta um poema
que não seja muito vago,
nem faça tantos floreios.
Rimas, não vejo o porquê.

Eu quero saber do chão,
das chuvas, quando é que vêm.
Terra pronta para a safra,
é colheita que liberta.

Colhe o fruto do trabalho,
trabalha de sol a sol,
esquece o tempo que passa,
que liberdade é palavra!

Cheira essa terra em que pisas,
bebe essa água que a ti chega,
que só te basta o trabalho
para vislumbrar o livre.

Não te iludas com promessas,
sente, sente a ventania
que traz consigo a mudança,
é tempo de viração.

A chuva, essa sim, liberta,
livra de vidas mesquinhas,
presas num tempo parado
de trabalho e mais trabalho.

Vês o miúdo, o prosaico,
o sol, vento, a chuva, terra?
É tudo matéria-prima
para esse tempo amarrado.

O trabalho do poeta
que cultiva a liberdade,
além de vagos floreios,
é livrar-se das amarras.

Das prisões cotidianas
e pretensas liberdades:
ao contrário disso tudo,
quero meu grande poema!

______
Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Para escrever

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por Luiz Augusto Rocha

Elimine os adjetivos,
cuidado com os verbos em desuso,
nada de substantivos prolixos,
clichês estão proibidos.

Palavras soltas, esqueça:
o Dadaísmo é démodé.

Escreva o máximo! Com o mínimo…

Abrace seu rancor parecendo blasé
(ignorando que é pura falta de educação)

Volte novamente às classes
gramaticais, é claro.

Orações coordenadas
só se subordinadas à curtição.

Compartilhe, desde que
paguem os direitos autorais.

Divague sobre o nada
mostrando ser excepcional
no começo, meio e fim.

Em suma, escreva por duas ou três horas
antes que acabe o vínculo.

Por fim, esqueça esta nossa precariedade.

“– Caramba!
Como é difícil fazer poesia”
Vão dizer os poetas.

Mas, o Poeta, mesmo,
há de se omitir sobre o tema
enquanto sonha a vida.
______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Conversinha

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por Luiz Augusto Rocha

Cadê a menina
que vi aqui?
Cadê a moça
que conversei?
Cadê?

Onde fui parar?
Como nada tivesse visto
e como nada conhecesse,
fiz de mim essa nossa prosa:
conversinha de rua.

Meu bem, diga aqui
o que podemos conversar,
além do entre a manhã
e as manhas nossas,
idas no entardecer?

Pois é,
a poesia vai mais,
vai bem, bem mais,
bem  muito mais além.
Além de que, meu bem?
______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Metamorfose à brasileira

atualizado 9 março 2015 Deixar comentário

por Aderaldo dos Santos

Às vezes, quando monólogo com Drummond, João Cabral, Manoel de Barros, M. Quintana, Cecília M…… na poltrona velha, sobre a luz da lua cheia, sonho – como seria bom se eu fosse uma mosca e pousasse no ombro esquerdo de Drummond para assistir uma prosa desafinada dele com o João C, com Mário, com Adélia E SEUS ANJOS TORTOS. Volto à realidade e me programo em outra viagem, mas dessa vez vou escalar em Bandeira e [casular] até Vinícius chegar.

______

Uma singela homenagem ao poeta Manoel de Barros.

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Auto apresentação

atualizado 1 novembro 2014 Deixar comentário
O autor de ‘Mais sonho e sabedoria do que nos vagos séculos do Homem’

por Aléxis Góis

Respeitáveis leitores, apresento-vos o autor dos versos cá publicados:

Nascido sob a constelação de Escorpião (mas um eterno admirador de Orion) a 3 de novembro de 1982 em uma cidade chamada de Feira de Santana, que tem a alcunha de Princesa do Sertão. Entroncamento há centenas de anos de caminhos e tropas e depois estradas, Feira logo cedo lhe ensinou a cruzar horizontes. Ainda bebê, quase é levado pelas águas da barra do Rio Ceará. Engoliu apenas o suficiente da foz para se atar aos cursos salgados e doces da vida.

Das primeiras letras, tomou conhecimento com farda de marinheiro na escola Montessoriana. Depois, aos poucos, foi passando os segredos dos romanos e seu alfabeto para os irmãos mais novos. Bê-a-bá dominado, cantou junto com os colegas de classe a “Aquarela” de Toquinho na sua formatura.

Ainda no primário, na antiga 3a. série, foi forçado junto com toda a turma a fazer uma poesia, que foi guardada em um papel de caderno amarelado perdido entre tantos papéis de poesias e anotações. Mas termina assim:

“Poeta não sou
poeta não serei
não sei como para esta poesia
eu me inspirei”.

Não teve jeito. Ouviu muita pampa no walkman e foi se abrindo para outras letras, tentando decifrar os enigmas dos Engenheiros do Hawaii: dali colheu Galeano, Dylan, Scliar e tantas outras referências de estrada.

Enquanto isso, escrevia poemas escondidos até hoje, e imprimia seu primeiro jornal com amenidades da rua e tudo que pudesse interessar a um garoto de 13 anos. Vendia os jornais para ir ao cinema nas tarde de quarta-feira e comprar discos da Legião Urbana e Engenheiros.

Nunca parou de escrever desde então: notícia, cordel, projeto, verso, prosa, sonhos, estórias e causos…

A produção apresentada aqui é do período da faculdade de publicidade (incompleta) e jornalismo, entre os anos de 2001 e 2007, Nenhum poema era inédito: alguns foram enviados para concursos de poesia e quase todos estão no blog “O Mar e a Solidão”.

A partir de agora, a produção é mais atual, de 2014. Fruto, literalmente, da estrada e suas andanças. O gabinete de trabalho e a caneta é o próprio corpo (lição aprendida com João Carlos Teixeira Gomes, no inverno de 2001, na Uefs). Os versos quase sempre são escritos em movimento: no ônibus, na carroceria de um caminhão, em longas caminhadas ou no balanço da rede.

Uma vez depurados os versos, o autor passa-os para o papel ou para a tela. Por alguns dias, a memória saboreia cada sílaba até outros versos se incorporarem.

E de gota em gota, brotam por aqui.

Apreciem sem moderação.

O autor

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A poucos quilômetros de Vergara – cap 35

atualizado 17 maio 2018 Deixar comentário
Num trecho destacado da Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

O veículo parou por completo. Ou foi Julinho que tirou o pé do acelerador? Não deu pra processar direito a junção dos fatos que antecederam aquele tlac… tlac… tlac… De concreto, aqui deve ficar claro para quem nos acompanha: o fim momentâneo de uma reprodução caricata e musical de “Mamãe eu não queria…”. Com El fuca blanco estacionado numa das margens da Ruta 18, a somzeira libertária de Raul Seixas fora cessada. Descemos então para verificar o que tinha provocado o “estranho barulho” em nossa máquina do tempo. Digo, apenas eu desci do veículo. Me joguei imediatamente no chão de um acostamento estreito na tentativa de identificar o por quê ou uma dada explicação para um ruído vindo de algum ponto específico de El fuca. Tlac… tlac…? De onde surgiu este barulho, Julinho? Na posição de mecânico deitado sem maca de rodinhas, me pus de costas pro chão com os olhos bem abertos. O que aconteceu…? evoquei mais uma fala de correspondência. Primeiro, inspecionei a lataria na parte dianteira do carro… Nada! – disse em voz alta como se correspondesse a uma prestação de contas a el condutor. Tente ver na parte de trás, o parceiro disse prontamente de sua posição de piloto. Na parte traseira… nada também! Tive a impressão de que o barulho tinha surgido do meu lado, no do copiloto. E agora, José? evoquei o desabafo de lugar comum da poesia brasileira. Dentro do carro, com a porta entreaberta, passei a tecer hipóteses que ia além da citação indireta de Carlos Drummond de Andrade. A poucos quilômetros de Vergara, algo como vinte quilômetros e poucos de distância de onde estávamos… Deve ter sido…? Neste ponto da narrativa, Julinho aciona o motor do veículo. Tromtromtomtomdaum… A meu pedido, El fuca blanco ficou ligado e, ao mesmo tempo, paralisado. Refiz pacientemente o percurso da inspeção. Se demorei pra contornar o veículo…? Foram cerca de quinze minutos de muita atenção para eu gritar lá de trás… Achei…! O problema? Um pedacinho de metal que se desprendera do para-choque traseiro em estado de decomposição.

(continua)

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Leitura

atualizado 7 novembro 2014 Deixar comentário

por Aléxis Góis

lê-se tanta coisa
anúncios publicitários
normas regulamentares
matérias de jornal
contas a pagar
placas de trânsito
manuais de aparelhos
receitas culinárias
receitas médicas
extratos bancários
páginas de agenda e calendário
livros de auto-ajuda
livros técnicos sobre o reprocessamento da matéria-prima no século passado
biscoito da sorte chinês

talvez por isso o mundo ande tão louco

ah, quem me dera
se eu pudera
só ler poesia
e cartas de amor.

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Bocas

atualizado 25 outubro 2014 Deixar comentário

por Aléxis Góis

a boca de quinta
fala por outras bocas

a boca cheia de línguas
embola as palavras
no seu linguajar

a boca torta
se perde
na fumaça do cachimbo

a boca suja
engole o próprio lixo

a boca-cotovelo
apenas cospe
vomita desesperadamente
as letras

a boca-túmulo
não engole moscas
nem saborosos doces

a boca ferida
jorra sangue
e lágrimas

a boca cheia
se fecha
em respeito ao alimento

a boca oca
ecoa seu próprio ego

a boca muda
cala
pára
cessa

a boca possessa
cheia de raiva
solta faísca
e corta ouvidos

a boca correta
fala
claramente…
e muda!

a boca honesta
não destila veneno

e quando duas bocas loucas
se encontram em quatro lábios,
línguas e saliva,
não são duas bocas:
é um beijo!

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