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Não cabe num poema

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por Luiz Augusto Rocha

um cigarro na sacada,
uns risos frouxos,
um abraço na calçada,

um pão com mortadela,
uns olhos roucos de ouvir,
um pé de unhas cortadas,

um dia muito longo,
uns dias muito curtos,
um algodão-doce azul,

um carro de mudança,
uns copos de cerveja,
um peito repleto

de tudo aquilo
que não cabe
num poema.
______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Poema conformado

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por Luiz Augusto Rocha

E essa coisa,
fica assim, fica assado.
A gente queima o que pode
e continua assim.

Fuma um cigarro, bebe uma cerveja,
fuma outro, bebe mais outra.
E continua nessa toada
contínua e sem graça.

Bate a tristeza,
bate a angústia,
bate na cara,
bate o telefone.

Quanto mais eu procuro
meus versos mais íntimos,
mais ao inverso caminho.
E bebe, fuma, fala… Cala.

A vida deveria vir
com o verso escrito.
Não ela toda, só uns dias.
Um verso-bula: explicativo.

No fim das contas,
é tudo igual.
Um emaranhado de palavras
severamente piegas.
______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Dois tigres

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por Daniel Baz dos Santos

um tigre novo
em folha
pronto para a palavra menos neutra
salto de Pokémon
na selva sonâmbula
um tigre só Tigre
é o que precisa
este poema

outro tigre
não entra
na casa abandonada
sai
fedendo a gelol
grito sem clave
sem sol
no silêncio pornográfico da cidade
uma de suas pintas
lembra (ainda que de longe)
uma tecla velha de piano
guarda na boca
o mais infame palavrão

dois Tigres
é muito
para este poema
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

 

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Considerações

atualizado 31 outubro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

Tem coisas que só a poesia pode dizer.

Nela, o mundo se abre,
a ingenuidade ganha força.

Ao ver uma palavra
em seu sentido oposto,
fala-se de ironia.
Fora do poema…

No gauchismo do poeta,
Sete faces.
Na verdade,
quantas feições há
para quantas caras se apresentem
sorridentes, maledicentes,
estúpidas, odiosas,
falantes e parasitárias,
contentes pela mediocridade.

As palavras no poema
– estupefatas, aturdidas –
não entendem como a realidade
pode ser mais absurda
do que as fábulas.

______

Texto publicado originalmente no blog Modesto cabotino.