voltar

Namorar? NaMouraria

atualizado 23 outubro 2014 Deixar comentário

por Nadson Vinícius dos Santos

 

Ai de mim,

Maniqueísta que fui,

Dei de rolar na cama

A julgar-me diabólico. (Wesley Correia)

 

Todo ponto de vista é a vista de um ponto. A frase é meio clichê, mas os clichês um dia foram originais, então não tenho problema em usá-los quando me convêm. O que me convém no presente momento, a propósito, é falar da impressão que a Mouraria, bairro de Lisboa, despertou em mim. Mas também é honesto dizer o ponto sobre o qual observo este reduto, e adianto:  o de alguém que até os 18 anos enxergava o mundo da janela de uma cidade de pouco mais de 30 mil habitantes e quando teve de deixar seu cariri, evitou um relacionamento sério com as capitais, preferindo com elas mais uma relação de amante.

Lisboa e uma herança histórica dos mouros

Claro que só mais tarde descobri que, tanto as cidades médias quanto as grandes, funcionam em torno do progresso burguês e da nossa mais perfeita ficção, o dinheiro. Nessa carreira, as cidades pequenas são engolidas. Entretanto, cotidianamente as urbes depositam nos seus subúrbios e favelas, trazidas em diversos meios de transportes, as cidades pequenas engolidas no girar a roda

do progresso. Neste ambiente em que seres humanos juntam os cacos do deslocamento e criam um mosaico de representações é que sempre me senti em casa. Com Lisboa não seria diferente.

Não obstante ostentar o título de capital de um país, em população, essa gigante não chega sequer aos pés de Salvador. As cidades em Portugal são muito pequenas se comparadas às do Brasil. Mas capital é capital, tem seus centros financeiros e burocráticos  como todas que se prezam, mas não venho me deliciar nesse texto para tratar de assuntos tão chatos, venho falar da Mouraria.

O nome vem de “Mouros”. Este foi um dos últimos redutos dos descendentes de árabe da Península Ibérica. Caiu sob mãos portuguesas e católicas, é bom frisar. Depois, o castelo de São Jorge, construído pelos mouros, – o qual se pode ver da Mouoraria – passa ser a sede dos despachos lusitanos. O último golpe da conquista. Mas a pergunta seria: se a Mouraria não passou de um território mouro tomado pelos cristãos como muitos outros, o que teria esse ambiente de tão encantador? Eu responderia que além da boemia do lugar, de sua falsa tranquilidade matutina, de sua história, da energia ancestral, da Ginja de seu Antônio e de toda sua beleza, enfim; é que da roseira desprezada nasceu a flor mais bela da floricultura. A Mouraria é o berço do fado, ritmo visceral, e por isso mesmo lindo, que representa todos os portugueses, assim como o samba nos representa no mundo.