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Lamento

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Um breve lamento: queria ter conhecido o poeta Paulo Leminski em vida, queria ter conhecido do mesmo modo outros lugares, outras pessoas, queria ter força pra fugir dos sentidos indefinidos, da magoa gritante, da ira aguda, do registro ambulante sobre a (im)possibilidade de ser preciso com a palavra e, ao mesmo tempo, agradar provincianos e provincianas de plantão, e escrever (im)precisamente sobre uma figura que não respira…

Consciente, e sem consultar a cabeça, de certo não iria a lugar algum; estático, ficaria como um detrito de memória num deserto desconhecido, miúdo, invisível, feito alguém a coisificar-se. Na ausência de mais um erro, (res)suscitei o poeta, mais uma vez o personagem do poeta paranaense, a soma emocional do poeta maldito e analfabetizado, o propósito argumentativo de uma passagem escrita de tempos em tempos. Em parte, com a leve impressão de ter aqui me expressado num estado de descrença doce e abjeta, como se o nosso redator fosse um falso defunto incompreendido, talvez, resultado tentador da influência das negativas de um narrador-personagem ou de um herói não moralizante, tirado de uma das folhas realistas de Machado de Assis.

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Erro

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

As novidades me moviam sem forçar o organismo, podia falar sem machucar, sem ferir os outros, tocar sentidos abstratos, errar como Paulo Leminski, que privilégio o meu errar sem aspas, feito Leminski! Eu erro, sustentava o poeta, porque só o erro tem vez. É uma ilusão deliciosa brincar com as palavras, pensei; concluí de imediato, eu que nunca fui um leitor obsessivo do Leminski, passei a ser, no fundo de minha neurose, do perigo de minha vaidade demente, um notável lemiskiniano.

Os erros me conduzem por linhas desconhecidas, por ambientes obscuros demais para alguém com pouco hábito de anunciar o que os outros desejam ouvir. Da necessidade natural de se fazer ouvir, admito um dos motivos radicais da existência deste redator. Inventei-o, portanto, com a então necessidade de remediar o meu estado crônico de solidão, de melancolia e de ceticismo.

Tão sem graça, tão amena a vida, arrisquei, mais com irritação do que com espírito arrogante, pois o erro – por falar mais uma vez no dito cujo –, o erro maior, observando-o como tal, de minha parte, o erro seria não extrapolar os limites do desconhecimento de uma dada prática, o erro seria ignorar uma satisfação imediata e objetiva, após descobrir ou constatar que o erro, o erro, o malfadado erro não existe!