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Com a palavra precisa

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por Daniel Baz dos Santos

com a palavra precisa
costuro o céu em teu corpo
terminaram-se os dias
mas em outra canção

com a palavra precisa
alimento tua pele
teu nome é um contágio
e dói como se fosse livre

com a palavra precisa
mato de fome tuas mãos
o vento é um falso caminho
e respira por nós

com a palavra precisa
torno-me legenda de pássaros
bebo a água funda de tua voz
sobrevivo à bondade

com a palavra precisa
abro a tarde e te reconheço
depois é que feridas e portas
se completam na saída do corpo

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A aparição de Deus – parte 5

atualizado 10 outubro 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Um dito momento mágico.

Deus ia mesmo falar?

Deus…

Confesso que fiquei insistindo naquela imagem – o sol havia queimado meus neurônios antes de entrar no templo ecumênico?
O excesso de luz à minha frente. Belisquei-me pra tentar acordar – efeito zero. Isso, nada de tentar ganhar mais tempo pra chamar a atenção ou aumentar o ibope desta história até que uma grande editora multinacional surja e me pague em moeda europeia por minhas supracitadas manias. Condição nenhuma permitiria evitar aquela luz enorme sobre a nossa retina de testemunha ocular. Ninguém por perto? Sem testemunhas?

Sem testemunhas. Juro.

E aquela luz em excesso…

Meu…

(Ato falho de novo?)

… Deus. (Risos…)

(Surpresa criada) Carambola, Deus pediu-me mesmo a palavra! E formalmente!

Aqui uma correção: Deus me pediu a palavra como se, de fato, precisasse me pedir a palavra!
Só depois de um tempo eu pude reconstituir a cena: eu pensava mais no café que não vinha nunca do que nas iminentes palavras de Deus. O café pedido não havia chegado.

De modo zombeteiro, deixei escapar uma indelicadeza típica de fazendeiro do interior paulista:

– Que espécie de serviço de cozinha é esse?

Pensava na dita empregada doméstica que não era negra e nem das novelas da TV Globo!

Deus parecia dar sentido a uma vogal.

– O… o…

Uma Figuraça!

Logo comecei a pensar numa associação de ideias para tentar entender o movimento científico provocado… (quem diria?) por Deus! Uma frase estalou no ar?! (Hi hi…)

– O livre-arbítrio, meu caro.

Interiorizei: falou, falou.

Fiz-me um atento fiel, apenas um atento fiel, e que fique bem claro.

A Senhoria prosseguiu:

– O livre-arbítrio explica tudo.

Expressei-me com um misto de concordância e interrogação.

– É mesmo… (engoli saliva) Se-nhor.

– O livre-arbítrio explica todas as perguntas – inclusive as suas perguntas e até as suas manias, jornalista sem solução! – e as dúvidas de todas as pessoas conscientes de si ou não.

Ênfase para a parte das pessoas conscientes de si ou não.

Deus desandou a falar como uma espécie de enviado Dele próprio ao planeta Terra.

A voz de Deus bateu forte na consciência, tenho que destacar. Uma desatenção pelo excesso de novidade?

Deixei escapar uma fala, pensei alto:

– Deus!

– Sim…

– Ah, foi mal… Onde o Senhor parou mesmo?

Deus versava filosófico sobre sua aparente ideia fundamental: o livre-arbítrio.

– O livre-arbítrio, meu caro jornalista sem solução, pelo livre-arbítrio o Universo pode escolher o seu destino, todos podem seguir as suas respectivas cabeças, em qualquer idioma as pessoas podem seguir a ponta do próprio nariz… [Agora como se Ele falasse mesmo difícil para o povão deslocado às margens dos centros econômicos do país] A perspectiva do livre-arbítrio…
– … mas Deus, desculpe interrompe-Lo. As pessoas dizem isso e aquilo do Senhor, dizem isso e aquilo sobre Sua suposta vontade, citam a Bíblia, citam escrituras e documentos diversos, mencionam que O senhor deseja isso e aquilo, tratam do pecado uma permuta comercial. Deus? Vou falar na lata: as pessoas usam o Seu nome para ter o monopólio do petróleo, usam o Seu nome para matar, usam o Seu nome para reprimir, usam o Seu nome para encher o bolso, as pessoas usam o Seu nome para ganhar votos, usam o Seu nome para promover fronteiras mil, usam o Seu nome para apagar as diferenças culturais dos povos nativos…

 

(continua)

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A foto falada

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por Luiz Augusto Rocha

Se uma foto diz mais que mil palavras,
ainda assim, prefiro-as.
Elas me trazem mais de mil fotografias.

Uma ou outra em especial,
pedaço de biografia,
pedaços.

Mas, hoje são outras prioridades.
Mesmo sem saber quais são,
tenho-as.

Ando conversando menos,
falado um tanto mais,
visto bastante.

Mas, só a palavra, cada letra dela,
seleciona a foto mais, mais
densa.

E é essa densidade explodida,
dispersa em prioridades,
só aquela foto.

______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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