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O homem que entrou pra ficção – parte 1

atualizado 21 janeiro 2018 Deixar comentário

por Renato Renato

Caso inusitado, meus caros e minhas caras.

Conheci a figura no início de uma noite de terça-feira. Cruzava uma esquina do centro de Tarumã, a minha cidade natal. Avançava a lista de pedestres, quando percebi um toque em meu ombro.

Estaciono, olho de lado e percebo um retrato falante:

– Olá. Sou o homem que entrou pra ficção.

Apostaria minha língua vermelha de palhaço mudo sem circo, se eu pudesse presenciar com os próprios olhos, o meu próprio espanto de ocasião. Olho novamente pro interlocutor que me aborda e interiorizo: como é? O homem que entrou pra ficção?

Congelo um riso diante da suposta e aparente piada de momento:

– Você é… Quem é você mesmo?!

– Sou o homem que entrou pra ficção!

Preocupado com o trânsito, meu interlocutor me puxa pra calçada – estávamos no meio da rua. O sujeito menciona que não entendeu o meu riso público e circense que explodiu em sua cara de suspiro vencido.

Em seguida, ele me nota com um olhar científico e solta uma pérola balançando a cabeça negativamente:

– Véi, não posso acreditar…

Apresso-me em argumentar, já seguro desta vida social:

– Véi? Pensa. Um sujeito estranho te aborda na rua e atesta: sou o homem que entrou pra ficção!

– Pois acredite, eu sou o cara!

O homem que entrou pra ficção? Não resisti a uma tentativa de trocadilho:

– O que faz, então, o da ficção, aqui na nossa realidade?!

Corto pra outra imagem. Arrasto meu “mais novo” parceiro de comunicação pra um boteco mais próximo. Não demora e cada um puxa o seu respectivo banquinho. Duas doses de vinho barato foram pedidas… Aproveito pra observar, por um instante, os olhos castanhos claros daquele sujeito recém-saído não sei de onde e pra que, ao mesmo tempo em que me pergunto se era mesmo “sem noção” a tal figura diante de minha percepção de incrédulo do cotidiano. Disfarço um gesto de invenção. Segurando o meu já famoso riso mudo de palhaço sem circo, me arrisco com um tapinha inverossímil num dos ombros do agora colega de pileque:

– Quem diria, véi! Você por aqui…

– E, em carne e osso, meu caro! – ele não deixou por menos.

Ah! O vinho barato chegou tinindo de bom, geladinho!

Uma breve bebericada e, súbito, o parceiro volta a me interrogar:

– Me perdoe o modo com que vou falar: mas que vinho “bom da porra” é esse?!

Segurei uma gargalhada. Emendei uma explicação:

– Padre Anchieta, ouviu falar?

Ele respondeu que não, enquanto bebericava outra dose.

Depois de sua reação, inventei de me sair com esta:

– Este faz até milagres…!

(continua)