voltar

O sexo

Deixar comentário

por Daniel Baz dos Santos

O sabor da noite dentro dos mares
E o mar farto como um espelho.
Um perfume maior que agulha;
sinais do voo óbvio
dos dedos.

A saliva resolve o silêncio.
E o silêncio termina em veia.
A boca brilha como chuva.
O mar teso como teia.

Um grito guilhotina os olhos,
abrigo de cães e estrelas.
Uma flor exilada na mudez.
Um ruído queima nos pelos.

Partiremos de manhã
se existirmos.

voltar

A última hora da noite

Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

O que fazer agora
que a hora da noite,
derradeira e angustiante,
comprime o tempo que falta?

Semana passada eu ainda corria
brincando nas trincheiras do quintal,
entre frutas, flores, insetos e tanto mais,
que não mais lutava contra o sono.

Ontem, eu fui atrás de muita coisa,
de livros, exercícios, amigos, risos
indisciplinados, largos, cientes…
E caí no início do quarteirão.

Em casa, a mobília agora não guarda nada,
já as caixas aguardam o carregamento.
Os animais estão dormindo tranquilos
com as janelas e portas abertas.

A manhã que se anuncia, mesmo tímida,
num misto de cansaço, ansiedade e alegria,
abre-se no cantar do galo e dos passarinhos
perguntando o que tem para amanhã.

______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

voltar

Absorver a observação

Deixar comentário

por Aderaldo dos Santos

‘Stamos em pleno mar.
O navio negreiro de Castro Alves passou.
A Lua e a maré são as mesmas.
Os meus ancestrais não.
‘Stamos em pleno mar.
A maré alta me
absorve
(e)
observa
(e)
me questiona:
– o seu jeito de ser
enquanto eu falo,
você me observa
enquanto me entrego,
você me absorve enquanto te observo,
e te absorvo enquanto tu falas.
‘Stamos em pleno mar.
e A lua não me traiu.
observa
(e)
absorve
a maré
e grita:
– o seu jeito de ser
enquanto eu falo,
você me observa
enquanto me entrego,
você me absorve enquanto te observo,
e te absorvo enquanto tu falas.

(Poemas noturnos. 13/09/2015)

voltar

O naufrágio

Deixar comentário

por Daniel Baz dos Santos

a noite brotou seus teatros
vencendo nossa prontidão
esboço de castelo
na vertigem de um prato frio

a noite riu seus icebergs
camuflagem de distâncias
caldo de sonho
no azul das carnes

E eu, silêncio de incêndio,
baque fundo
de um corpo entrincheirado no escuro.
Sei que o chão não dá licença.
Nele naufragará a aurora.
______

Texto publicado originalmente em Invitro.