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Nelson Arizona, Luciano e eu

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Nelson (camiseta preta), dono do Bar e Mercearia Arizona, que observa o trânsito (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Saio de casa para… entrar no Bar Arizona. Olha, caminhei uns dois quilômetros antes de chegar ao mais novo e inédito cenário. Inicio este diário, como se eu me antecipasse a um seguinte. A Praça Getúlio Vargas, famosa em Ubá, fica pra outro momento. Soube dela outro dia. Pra chegar à Praça Getúlio Vargas, a Rua Treze de Maio é uma espécie de caminho. Nesta, trafeguei mais de uma vez com um dos cotovelos à mostra em carona de automóvel Chevrolet. Conhecendo a Treze de Maio, eu perceberia o Bar Arizona. O boteco da vez fica no limite geográfico do centro ubaense, a algumas quadras do estádio do outrora ou hoje pouco ativo Sport Club Aymorés, tradicional agremiação futebolística da chamada zona da mata mineira. Dizíamos, mesmo? O estabelecimento comercial de biritas e distrações da vez é pequeno. Eu diria que, quando se pisa no Bar Arizona, você já sente um aperto no coração e na vista. Dois motivos podem explicar o fenômeno: é bar e mercearia, possui inúmeros produtos à mostra e pelo caminho; a segunda razão realça o ibope que o lugar tem. Bar e Mercearia Arizona, que sempre me lembra uma marca de cigarro na boca escura de bebuns fumantes da minha infância, quando eu entrava em botecos pra comprar paçoquinhas e balas de caramelo. Não sei dizer se ainda existe o cigarro Arizona, que rememorado ainda possui filtro de fumo forte e preço nada popular. Um tio meu, bem empregado numa época, era militante desta marca. Perguntei ao Nelson. Opa, Nelson! Estou falando do dono do nosso boteco da vez. Nelson, de sobrenome não revelado, me lembra o seu xará Rodrigues e famoso da crônica, do conto, do folhetim e da dramaturgia nacional. Acreditam que o nosso Nelson da vez não sabe explicar por que o seu Bar e Mercearia é Arizona? Sabendo da confissão deste nosso comerciante-personagem, juro que pensei um pensamento impublicável sobre a sua figura, que herdou o boteco onde hoje dá expediente das dez às vinte e duas horas em horário comercial. Na passagem em que confabulo com o representante-mor do Bar Arizona, já me encontro bebericando uma cerva. Bebia um litrão barato, pra variar. “O que tem? Então manda uma Itaipava!”. Depois do primeiro palavreado, vieram outros. Que tal este? “Desde quando existe este bar, hem, Nelson?”. “1967”, disse ele sem eu perceber se ele se sentia um entrevistado ou não. Quase me saí indelicado, pois em seguida pensei e não disse: “Ao menos isso você sabe, ao menos com isso você se importa, hem, Nelson?”. Nelson Ned, de outros diários e ideias-fixas me veio à mente neste instante. Consegui me conter sobre o famoso pequeno gigante da canção, também de Ubá. Esta minha mania de pensar pelos cotovelos e de achar que tenho liberdade pra escrachar depois de um “olá, como vai?” e após a segunda bebericada de copo!

Nesta de conversar com o Nelson, o do Bar Arizona, eu disfarçava que não estava a serviço e atrás de alguma novidade sobre a cidade de onde me exponho e da qual me reporto à vida social. Na real, o nosso Nelson do boteco não tinha muito tempo pra conversa fiada. Bar Arizona não possui garçom, embora tenha mesas no encostamento de asfalto. Assim que bati o olho pra este retrato, eu pensei: privatizam o meio-fio!? Bar Arizona fica numa via pública movimentadíssima, diga-se de passagem. Nos breves e eventuais diálogos que travei com Nelson Arizona, soube que o bar que a partir de agora lhe dá novo nome nasceu antes do asfalto. Segundo meu entrevistado, Bar Arizona surgiu mesmo antes de um meio-fio. Neste aspecto, pensei sem dizer a Nelson Arizona, dono de um destacado ponto de encontro de paus d’água ubaenses: o uso aparentemente indevido do meio-fio não é uma apropriação ilegal, uma espécie de direito adquirido à força e com o tempo? A sarjeta é do Bar e Mercearia Arizona – e ponto! Nesta de puxar assunto com Nelson Arizona, atraí a atenção de Luciano, um negão alegre que no começo de minha reportagem anticonvencional surgiu junto ao balcão tomando uma dose de pinga de um real e comendo um pedaço de miúdo de porco. Deduzi à distância que o miúdo, tirado de uma panela de alumínio enorme postada no balcão, fosse de porco, carne mais barata, mas poderia ser de vaca, boi, frango. Esta indecisão ou imprecisão informativa passou longe de meu focinho quando Luciano, um trabalhador braçal de uma empresa que me foge o nome e a especificação sentou-se na cadeira ao lado de minha mesa. Era a cadeira onde eu estava há poucos instantes, mas abandonei aquele assento por ele ficar próximo ao banheiro. Um vovô ruim de conversa esquentava o meu assento futuro. O vovô saiu de cena sem que eu percebesse. E não me peçam pra confidenciar alguma nota específica sobre o fedor que sai do banheiro do Bar Arizona, relembrando meu antigo assento e agora assento do colega Luciano. Importa dizer: o chapa Luciano parecia forte daquele lado. Ele e eu confabulávamos sobre um cotidiano que alimenta uma espécie de fuga da realidade, que aqui tento explicar: enquanto um comunicador famoso de um programa mundo-cão interestadual vociferava numa tela de tevê grudada na parede do boteco, Luciano versava sobre um calendário de botequeiro. Torcedor do Cruzeiro Esporte Clube, o colega de mesa já me convidava pra um dia seguinte, pra conhecer um famoso boteco nas imediações da Praça Getúlio Vargas. “Lá, costuma aparecer umas amigas e que não são interesseiras não!” Luciano repetiria: “Olha, não são interesseiras não!”. Disse-me, depois de se apresentar, dizer que é casado e muito sério. Tirando a citação das amigas, talvez Luciano apenas quisesse me convidar pra prestigiar o seu time do coração que disputaria um título nacional.

Luciano, um retrato de pessoa muito falante. Tomou a posição do Nelson Arizona, que até então, suposto destro, jogava na ponta esquerda fechando o meio-de-campo. Luciano me pareceu um típico camisa 5, cravado na frente da zaga, que nos torneios de várzea faz a vez do maluco que subitamente pega a bola e coloca debaixo do braço e para o jogo pra conversar com o juiz, para gentilmente dar instruções sobre como um mediador deve proceder e não dificultar a vida do time que tem Luciano trajando uniforme. Estou eu ouvindo uma figura, que me sugere coisas. Enquanto Luciano se repete, eu me noto um total espectador a ponto de me imaginar esticando as costas e relaxando as pernas num puff de sala. De repente, olho pra um horizonte e esbarro numa parede oposta dentro do Bar Arizona, enquanto Luciano fala, fala, fala ao lado com total liberdade, sem freios ou sem nenhum obstáculo de pronunciação.