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A Namoradinha de Tarumã – parte 1

atualizado 16 janeiro 2018 Deixar comentário

por Renato Renato

Amor é sexo? Amores…

Em matéria de jogo de palavras, amor pode ser até logomarca de sacola de supermercado. Sexo (arrisco-me): deixa de ser um palavrão no início da adolescência. Se amor pode ser da boca pra fora, sexo pode ser…

– Eu não disse nada!

– Tou só ouvindo, Namoradinha.

Ops! Trombo com a Namoradinha de Tarumã na Avenida.

– Eu não disse nada – sem pudor –, a garota reitera com o disfarce tosco de um riso mal encenado.

– Tá bom, tá bom.

Eu emendo:

– Sempre amando, é?

– Sempre, sempre!

Namoradinha de Tarumã. Não a conhecem? Quase me esqueço de contextualizar aos não citadinos e aos citadinos esquecidos de si. Namoradinha de Tarumã? Uma boa pergunta!

Namoradinha de Tarumã de um tempo narrado. Pessoa ilustre na cidade. Não saía da Avenida, o chamado centro urbano local; vivia com uma latinha nas mãos no cruzamento entre as avenidas Lírios e Orquídeas. Ria quase o tempo todo. Além da verdade, fazia a vez da “falsa infeliz” de seus inúmeros e misteriosos namorados. Um caso mal resolvido. De surpresa, a moça ilustre irrompe novamente. Externo um “não” mudo ao franzir a testa pro lado de sua expressão de heroína.

Heroína…? Isso! De uma hora pra outra, começamos a falar de seu “mais novo romance”.

Blá blá blá e, súbito, finjo que alguém está me ligando. Disfarço:

– Já volto, tá, Namoradinha?!

(Namoradinha. Não sabemos de seu nome verdadeiro. Aliás, creio que ninguém sabe de sua certidão de nascimento. É simplesmente… Namoradinha.)

Minha falsa ligação acaba? Acabara.

Ponho o celular num bolso da calça, peço uma explicação à moça, interrogo-a com status de voz pública:

– Moça, que história é essa de “caso mal resolvido”?

– O quê?!

Dissimulada! Vou direto ao assunto:

– Você falava de seu “mais novo romance”.

– Isso, um caso mal resolvido…

Neste instante, Namoradinha de Tarumã sorve fundo o resto de coca de uma latinha que eu lhe “emprestei” minutos antes. Sem cerimônia, ela reclama do “fim” da bebida:

– Poxa… você sempre me oferece quando tá acabando!

Pelo bem de nossa amizade, digo que vou do outro lado da rua, mas volto logo.

– Vai trazer outra latinha pra mim?

Ela insiste em manter a pose de garota de plantão:

– Vai?! Diga que sim, vaaaaaaaai!

Saio no atropelo com meus fantasmas da véspera de manhã e, na base da emoção, saio respondendo à lá Nelson Rodrigues:

– Sossega a periquita, mulher! Sossega a periquita!

(continua)