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O absurdo de nós

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por Nina Alencar Zur

Pensei em escrever coisas bonitas. Mas coisas bonitas não cabem nas coisas apaixonadas.

Quis escolher defeitos. Os defeitos das pessoas. As qualidades são meninas de saiotas bem comportadinhas, nunca me causaram espanto. Com os defeitos a gente tem que conviver como quem vive com dor. Tem que respeitar a porra da dor. Achava que era possível escolher defeitos. Sabia que dava um puta trabalho, mas achava possível. Até o dia em que me apaixonei.

era uma luz brilhante vermelha foda
                                                                  e
                                                                       um
                                                                          abismo

Comecei a escrever um livro sobre esse dia. O dia em que me esqueci de procurar defeitos. O dia em que me lembrei de procurar defeitos e não os encontrei. O dia em que descobri que o maior trabalho de todos era se apaixonar. A paixão tem uma cara suja, um pouco triste. Paixão tem cara feia. É ela o grande defeito.

Era um dia bem escroto. Só agora, rabiscando dentro do ônibus, através dessas letras trêmulas, me dou conta disso. Tinha chovido, tava nublado e tudo úmido. As roupas no meu varal tavam fedendo. A gente perde a noção das coisas quando acha que chegou alguém pra acabar com todos os problemas do mundo. É exatamente isso. A gente não se apaixona pela pessoa, mas pela ideia de que ela será exclusivamente responsável por tornar a existência possível. A gente finge não saber que a vida é impossível. Pelo menos até a primeira insônia.

Ontem foi seis de janeiro, dia de reis. Fez cinco anos do dia em que me apaixonei. Fiquei com preguiça de ouvir o barulho do chuveiro e pensei em acender velinhas e cantar parabéns para mim. Cinco anos de uma estrada da qual eu tô tentando sair há cinco anos. Resolvi meter o pé na estrada de verdade. Peguei o iPod, deixei um bilhete na geladeira e hasta luego.

levantei, calcei meu chinelo mais confortável e fui viajar.
deixei você.
uma hora eu volto.

Acho que tô fazendo a coisa certa. Já faz doze horas que entrei nesse ônibus. As coisas tão passando depressa, mais até do que as horas. Mas eu ainda sou a mesma pessoa que deixou aquele bilhete sob o ímã de Machu Picchu. Ainda sou a mesma pessoa que esteve em Machu Picchu, tentando inventar uma nova forma de viver a dois. Ainda sou isso tudo que se perdeu. E não me importam esses chinelos gastos. Vivo mesmo é de distâncias.

A pessoa por quem eu me apaixonei. A pessoa que resolveria todos os problemas do mundo. Ela ronca. Ronca como esse cara do meu lado, igualzinho. Mas agora, dentro do ônibus, escrevendo, tentando entender esses cinco anos, não acho que um ronco seja uma boa maneira de pensar em tudo. Não acho que um ronco seja um jeito legal de comemorar esse tempo. A gente pode comemorar o tempo?

Passei a noite acordada. Doze horas. Quase treze agora. Doze e quarenta e três. Se o meu relógio estiver funcionando. Se o tempo ainda continua o mesmo. Se eu ainda entendo o tempo. A noite tava relax, sem muito carro na estrada. Tive que mijar no banheiro do ônibus. Atravessei o corredor e senti tristeza pelas pessoas dormindo, tão feias. Quando a gente tá triste, acho que a gente acaba colocando tristeza nas coisas. Feiura nas coisas. Depois que eu voltei pro meu lugar, fiquei um tempo pensando naquelas caras. Todo mundo ali tão apertado. Tava meio assustada e o ônibus fez a parada de meia hora. A parada de meia hora que parece a mesma de todas as viagens. O mesmo lugar, os mesmos funcionários, os mesmos viajantes com cara de sono e prisão de ventre. O mesmo pão de queijo borrachudo. O mesmo desprazer. Talvez o tempo seja sempre o mesmo. Talvez sejam inúteis os cinco anos completos do dia em que me apaixonei e as dozequasetrezehoras que tô na estrada.

1+1=2
12quase13=2
5anos=2
mas nada disso significa alguma coisa
é apenas o absurdo
o absurdo de nós

É o Inácio a pessoa por quem eu me apaixonei (o absurdo de nós). O nome pouco importava, mas o sorriso só podia ser aquele do Inácio (o absurdo de nós). Antes de qualquer outra coisa, foi pelo sorriso do Inácio que me apaixonei (o absurdo de nós). Ou pelo jeito de sorrir, não sei muito bem explicar a diferença (o absurdo de nós). O que eu sentia era uma coisa fora do comum (o absurdo de nós). Acabei me acostumando com o sorriso dele, mas de vez em quando ainda levo uns sustos bons (o absurdo de nós).

Talvez o Inácio tenha lido o meu bilhete e sorrido. Talvez não. Talvez ele esteja puto. Quando o Inácio fica puto, ele para de falar comigo e vai digerindo o problema sozinho. Ele diz que é melhor desse jeito. Se ele tiver puto, pelo menos eu não tô lá pra ser ignorada. A gente subindo o Huayna Picchu sem conversar. A cara de cu do Inácio e a falta de ar. A altitude, o silêncio. Mas talvez ele tenha lido o meu bilhete e sorrido.

Era um dia nublado. Nada parecido com esse que eu vejo pela janela, de manhã amarela.

O absurdo de nós.

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A descoberta do Mundo das pulgas

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por Mochilowski

Uma tarde de passeio ou uma revisita ao Vale do Anhangabaú, região central de Sampa. Mais precisamente, fazia a vez de periodista no chamado Mundo das pulgas. Depois de prestigiar um show dominical de João Perreka e os Alambiques, A. e eu demos dois, talvez três passos e pouco na direção de um fervo. Literalmente, num pulo? Não que metaforizássemos o nome daquele mundo com destacada – ao menos pra mim – dimensão fabuladora. O retrato das pulgas era fantasia, mas a sua atmosfera de vida social era bem concreta. Os cigarros clandestinos, que mencionei em um diario anterior, continuam neste como uma quase mensagem no ar entre os figurados vivos mortais. Bem, não tive problema algum em entrar no clima de vendedores e de compradores. Até me senti bem como uma animada pulga entre outras supostamente nominadas. Não escancarei pra menina tranquila se ela estava gostando de ser uma persona. Achei melhor deixar minhas abstrações na cachola, sem promover uma batida sensação de pulgas atrás da orelha. Mas minutos antes fiquei curioso pra descobrir o nome da feira… Não, não foi difícil descobrir o nome da feira de domingo naquele cenário onde democratas nativos costumam celebrar datas e momentos históricos. Se me recordo bem, foi um vendedor de livros que me informou que a tal feira ocorre uma vez por mês naquele espaço. Digo, o sujeito não assegurou precisão da informação. Assim como A. e eu, o vendedor de livros usados a quem eu me dirigi com a primeira de minhas entrevistas informais estava ali, fazendo a vez de pulga, pela primeira vez. Tá, não sabe; também não sabemos. Pensei. Que tiozão é este que não sabe onde vende suas mercadorias? Vem pra feira e não sabe o nome da dita cuja. Fiquei tentado em reproduzir uma ênfase retórica como um duvidoso ator indignado, a poucos passos de um dos monumentos mais tradicionais da cidade: o Teatro Municipal. A uma breve distância e por mais de uma vez, dobrei o pescoço e mirei um horizonte contemplando o monumento onde Mario de Andrade, Oswald de Andrade & cia fizeram história em 1922.

De volta ao presente. Eram tantas os vendedores de livros que eu quase não me contive. Um perigo estas pulgas vendedoras de livros! Eu não podia ver livros, e já pensava em comprar. Já A., não podia ver roupas. Isso! Tinham roupas no local. Os vendedores queridos não estavam pra brincadeira. Tinha muita coisa à nossa disposição. Livros, roupas, sapatos, quadros, pulseiras. Peloamorde. Como tinham bijuterias naquele pedaço! Mas foram os livros que me chamaram mesmo a atenção. Em especial, um deles. Mirei bem numa capa. “Quanto é?” “Quarenta?” Segurei o título nas mãos. Li bem: Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freire. “Hummm…”, fiz em voz alta. O vendedor ficou apreensivo com o meu “hmmm…” (me perdoe, o vendedor não ficou apreensivo com o meu “hmmm…”). Pensei na solitária nota de 50 em meu bolso. Fiz suspense. Disse ao sujeito que voltava depois.

Na verdade, eu não sabia se voltaria depois. A menina tranquila pareceu interessada em andar. Andamos e paramos um milhão de vezes pela feira. Enquanto A. folheava um cabideiro de vestidos, eu só conseguia processar frases atravessadas num monólogo interior: “Casa Grande & Senzala…”; “Quarenta pilas…”; “Compro…?”; “Compro ou não compro…?”.

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Bônus de imagens do episódio

                      

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Ruídos vagos e misteriosos (parte 2)

atualizado 5 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Levo as mãos sobre as mãos de minha interlocutora para me certificar se o peso silenciosamente repousado nas pálpebras não passa de uma ilusão de ótica, e que… a julgar o valor do seu gesto, quem sabe eu possa atentar algum sentido diferente daquele provocado apenas pela chamada força própria ou por alguma razão involuntária da vida, um sinal estrangeiro aparentemente inesperado, uma espécie de escuridão póstuma que cobre a vista e intensifica a concentração de energias na direção de outro sentido específico: a audição.

– O jornalista aposentado pergunta demais, sabia?

Pensei num gracejo – isso normalmente acontece com os ex-jornalistas. Porém, veio-me um discurso de composição:

– Concordo, às vezes acontece perguntar.

As mãos femininas mudam de arranjo. Agora as pontas de seus dedos rabiscam sulcos rasos e zelosos na parte inferior de minha face, sugerindo uma representação diferente da do contorno original do queixo, como a intentar certo movimento de um desenho pré-fabricado pela natureza, e de origem muitas vezes incompreensível.

– Eu devo abrir os olhos?

– Jornalista aposentado, antes eu preciso lhe dizer algo.

– Necessidade?

– Necessidade, principalmente.

– Entendo.

– Você e sua mania nada secreta de sempre “entender”.

– Nem sempre… nem sempre concordo, como neste caso.

– Este seu tom aparentemente agressivo transparece leveza.

Falei difícil:

– Admito certo desprendimento de convenções, deve ser por isso.

Movimentos alterados. Os gestos de minha interlocutora voltam à forma inicial, e a escuridão que cobre meu horizonte temporariamente vedado ganha o acréscimo de uma camada fina e um pouco mais escura, em cuja projeção de imagem sugere a constituição fantástica de um aparelho protetor contra possíveis raios e luzes ultravioletas.

– A escuridão vai te manter em aparente calmaria e em ininterrupto estado de transe.
– É. Sinto até um iminente bocejo num sinal de rendição.

– Rendição; não entendi exatamente, meu bem?

– Não posso inferir muita coisa.

– Eu posso – disse ela.

– Numa dessas, até admito esta história.

– É verdade. Ruídos vagos…

– Algo sobre quem eu estou pensando?

– Você parece ansioso pra saber.

– Quero crer que, se eu abrir os olhos, a verdade aparece.

Na ausência de sua fala, eu emendaria sem mais dúvidas:

– Até parece que você é uma criatura de outro mundo.

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Sem título

atualizado 31 outubro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

Enquanto dormem, cessa a morfina:
os anestésicos ainda são necessários;
a vigília continua no sono.
Não tem entranhas. Não têm sentido.
O quadro clínico não corresponde mais.
O desvario de manhã, chamando por Deus,
“Jesus, Jesus”, não significa mais.

A esperança é só nossa,
a ridícula esperança!

Ela morria:
sem a fome, sem estômago, intestino;
sem a sede, sem rim, nem fala;
sem olhos, que a vista olhava perdida,
cegos do silêncio e dos remédios.
Os aparelhos gritam à nossa angústia.

Enquanto isso acontecia,
aconteciam outras coisas no mundo…

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Texto publicado originalmente no blog Modesto cabotino.

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Coisas do interior ou de qualquer lugar

atualizado 28 outubro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

Aqui é assim:

Entre quatro paredes, o quarto.
Entre o quarto e o mundo, a rede.

Esqueceram que ela é menina.
Qual o problema, se ele também?

Tem gente na mira.
Tem arma na rima.

Cristo salva todo mundo.
Basta achar normal.

Ninguém tem fome.
Ninguém tem nome.

A terra não dá nada.
Ele não provê.

Não existe conto de fada,
a não ser na tevê.

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Publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Leitura

atualizado 7 novembro 2014 Deixar comentário

por Aléxis Góis

lê-se tanta coisa
anúncios publicitários
normas regulamentares
matérias de jornal
contas a pagar
placas de trânsito
manuais de aparelhos
receitas culinárias
receitas médicas
extratos bancários
páginas de agenda e calendário
livros de auto-ajuda
livros técnicos sobre o reprocessamento da matéria-prima no século passado
biscoito da sorte chinês

talvez por isso o mundo ande tão louco

ah, quem me dera
se eu pudera
só ler poesia
e cartas de amor.

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