voltar

Mouros, cristianos e baianos

atualizado 30 dezembro 2014 Deixar comentário

por Nadson Vinícius dos Santos

A imagem, se bem que não é das melhores pelo fato do amadorismo do cronista, é da Catedral da Sé de Lisboa. Mas esta igreja, localizada no bairro de Alfama apresenta traços que a distingue das igrejas cristãs comuns, isto me aguçou a curiosidade, procurei informações e a resposta calhou com o que desconfiava. Isto era uma mesquita, transformada em templo católico quando os cristãos tomaram toda esta zona dos mouros, daí também o nome do bairro: Alfama.

A Catedral da Sé de Lisboa

Quando eu vejo tal documento da história me reporto mentalmente ao tempo desses acontecimentos e imagino quantos muçulmanos não devem ter se abrigado nestas paredes tentando salvar suas vidas da espada. Nunca, creio eu, o ditado “entre a cruz e a espada” foi tão verdadeiro. Fico imaginando se não houve derramamento de sangue dentro deste templo considerado sagrado pelos mouros e impuro para os cristãos, isto, digo, me referindo à época da conquista.

Após tal fatídico episódio, quantos muçulmanos não foram obrigados a se converter ao cristianismo, trocar suas representações culturais por imagens bíblicas, orar para outro deus e tratar por irmãos os antes algozes.

Mas o interessante é que os cristãos não destruíram fisicamente o templo, e sim, impuseram uma outra forma de apagamento: substituíram o Corão pela Bíblia, trocaram Alá por Jesus e propuseram um outro paraíso.  Assim o ocidente passou a se solidificar e se afastar de seu Outro, dos árabes, dos infiéis. Quando mais tarde, outra vez se precisou de uma mão forte para dar uma ajudinha ao conforto de Jeová, veio a Inquisição, outro fator preponderante na solidificação da mitologia judaico-cristã-ocidental, mas isso é outra história.

Porém, hoje, a igreja é aberta à visitação. Tudo já está bem assentado e reconhecido historicamente. Qualquer turista pode entrar (ainda que esteja havendo missa) e ver a história guardada nas pedras. Minha curiosidade levou-me a ler as inscrições nas paredes e qual não foi minha surpresa ao ler que o padre Antônio Vieira, o jesuíta, tinha nascido justo naquela catedral. Um nome que já nascia carregado de história e que iria fazer história. A placa o reconhecia como grande orador português e dizia o local de sua morte: a cidade da Bahia, como era chamada Salvador nos idos da colonização.

Me permitam bagunçar um pouco a lógica histórica só para o título desta crônica fazer sentido. Claro que não devemos historicamente julgar o passado com a cabeça de hoje, mas se juntamos mouros, cristianos e baianos colocamos todos no mesmo “balaio de gato”. Primeiro o cristianismo respira aliviado por saber que não mais os mouros o incomodariam, depois de satisfeita, tal mitologia foi exportada, aí entra o tal padre na história e entra também a Bahia, os índios, coitados, que chamavam ali de outro nome ao longo do tempo tornaram-se baianos. Mouros, cristianos e baianos.

voltar

Namorar? NaMouraria

atualizado 23 outubro 2014 Deixar comentário

por Nadson Vinícius dos Santos

 

Ai de mim,

Maniqueísta que fui,

Dei de rolar na cama

A julgar-me diabólico. (Wesley Correia)

 

Todo ponto de vista é a vista de um ponto. A frase é meio clichê, mas os clichês um dia foram originais, então não tenho problema em usá-los quando me convêm. O que me convém no presente momento, a propósito, é falar da impressão que a Mouraria, bairro de Lisboa, despertou em mim. Mas também é honesto dizer o ponto sobre o qual observo este reduto, e adianto:  o de alguém que até os 18 anos enxergava o mundo da janela de uma cidade de pouco mais de 30 mil habitantes e quando teve de deixar seu cariri, evitou um relacionamento sério com as capitais, preferindo com elas mais uma relação de amante.

Lisboa e uma herança histórica dos mouros

Claro que só mais tarde descobri que, tanto as cidades médias quanto as grandes, funcionam em torno do progresso burguês e da nossa mais perfeita ficção, o dinheiro. Nessa carreira, as cidades pequenas são engolidas. Entretanto, cotidianamente as urbes depositam nos seus subúrbios e favelas, trazidas em diversos meios de transportes, as cidades pequenas engolidas no girar a roda

do progresso. Neste ambiente em que seres humanos juntam os cacos do deslocamento e criam um mosaico de representações é que sempre me senti em casa. Com Lisboa não seria diferente.

Não obstante ostentar o título de capital de um país, em população, essa gigante não chega sequer aos pés de Salvador. As cidades em Portugal são muito pequenas se comparadas às do Brasil. Mas capital é capital, tem seus centros financeiros e burocráticos  como todas que se prezam, mas não venho me deliciar nesse texto para tratar de assuntos tão chatos, venho falar da Mouraria.

O nome vem de “Mouros”. Este foi um dos últimos redutos dos descendentes de árabe da Península Ibérica. Caiu sob mãos portuguesas e católicas, é bom frisar. Depois, o castelo de São Jorge, construído pelos mouros, – o qual se pode ver da Mouoraria – passa ser a sede dos despachos lusitanos. O último golpe da conquista. Mas a pergunta seria: se a Mouraria não passou de um território mouro tomado pelos cristãos como muitos outros, o que teria esse ambiente de tão encantador? Eu responderia que além da boemia do lugar, de sua falsa tranquilidade matutina, de sua história, da energia ancestral, da Ginja de seu Antônio e de toda sua beleza, enfim; é que da roseira desprezada nasceu a flor mais bela da floricultura. A Mouraria é o berço do fado, ritmo visceral, e por isso mesmo lindo, que representa todos os portugueses, assim como o samba nos representa no mundo.