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Leitura para quem sabe de Morrison

atualizado 25 dezembro 2015 Deixar comentário

por Jose Mochila

Já não mais me chamo.

Estou fora desta, saio de cena, livre, leve e sem sono? Da forma torpe em que então me encontro, de cueca marrom clara e com a sensibilidade apurada pelo frio de um inverno por vir?

Com a cara amassada, abandono o último lar, um quarto de três metros quadrados cedido provisoriamente por uma permuta. Isso, eu fui um rato de laboratório até a semana passada; deixo de ser um estranho a caminhar sem rumo por ruas esburacadas de uma cidade pouco organizada no sul do país. Tinha um nome, agora não mais me lembro do lugar.

(…)

Refaço-me rapidamente, vestido agora de periodista mediúnico:

– Me ouve, Morrison?

– …

– Morrison?

– …

– É você, Morrison?

– …

Morrison, malucão?

Ali? Juro. Um bloco de notas para imagem de parceiro de identidade curta.

– Ainda bebendo, Morrison?

– …

Morrison, que tal deixar esta banheira?

– …

Morrison, que tal deixar Paris?

– …

Morrison foi parar num cemitério de celebridades da Cidade Luz.

Morrison, que tal voltar para o corpo de adulto que nunca cresceu?

– …

O filho pródigo leva a boca ao gargalo às 7 da manhã.

Ou melhor, posso reconstituir a sua morte lenta e (auto)programada: Morrison com a cara borrada de uísque, boca no gargalo, louco, nariz entupido de giz, no ar, punho ereto de campeão, riso mudo e sem controle algum, olhar descontrolado, desatento de si, como se Morrison fosse um gesto de um deslocado boia-fria no último gole de água trincando de gelada abaixo de um sol forte de três da tarde… Morrison tomando a sua numa roça de canavial do sudeste brasileiro? Não nesta vida.

Morrison? O reflexo da vitrine não me deixa ver mais.

Perco os dedos em bases duras.