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Sinistros da modernidade

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

A depender de alguns comentários, não saímos mais de casa para coisa alguma. É a perseguição pessoal, as enchentes, a violência urbana, a bolsa de valores e seu excesso de cinismo, as Redes Sociais, um mal súbito que pode acometer a nossa vista numa esquina qualquer. A depender desta análise, o mundo está fechado com as desgraças!

Na real, se nada está bem, (ao menos por um tempo) deixemos de sair de casa, nos concentremos nas extremidades das paredes de uma residência sem remédios e ventilação apropriados; que tal a resignação de estudar sistemas verbais desgastados em livros de linguagem técnica em desuso ou ficar em casa se entretendo com a miragem de leituras e comunicações imaginárias, cômicas ou egocêntricas? Com os olhos tontos pela ilusão do desejo desmedido de um dia nos sentirmos física e psicologicamente seguros.

Ótimo, não posso mesmo correr o risco de vida, sair de casa hoje em dia nem pensar. É perigoso demais respirar o pouco que nos resta de ar. A situação se agrava se a maior cidade da região fica fora de nossos padrões de sociabilidade: os riscos (calculáveis ou não) de caminhar pelas extremidades desta publicitária cidade relevam qualquer mensagem de gravidade social depois das 22 horas. Constatação: não posso andar da forma como andava no período de infância da minha querida Citi. Meu sossego de dias anteriores; tempos atrás, eu poderia perambular despreocupado por calçadas estreitas, por ruas não asfaltadas e com a cara suja de terra.

Agora não mais, agora todo cuidado é pouco. O exercício diário de abrir e fechar os olhos… Um sinistro pode acontecer a qualquer instante, pode acontecer desta paranoia fazer sentido; não é que podem me levar a suposta dignidade de alguns anos vividos? Não é que posso me deparar numa situação desconfortante? Não é que posso ser mais um caso de reconstituição de cena quase inenarrável? Você também leitor, você dileta leitora que inventou de se comprometer nestas linhas incitadas, quem manda vocês darem bola para o apresentador de programa policial?! O diabo é que muitos concordam com esta ideia.

Também posso vacilar entre o silêncio coletivo e a dramatização de ficar quieto num cubículo reproduzido da literatura do final do século 19, como um falso-defunto que remexe os temores dos próprios membros num simbólico caixão tamanho-família. É preciso saber se defender desta forma moderna de cotidiano ou o risco, se é que não vivemos um exagero de teorias do progresso.

A lei da selva, a lei do menor esforço, a falta de lei que possa sustentar o desejo de todos. A façanha de pensar nisso tudo sem parar para tomar uma bebida estimulante. Para os modernosos que acreditam em instante derradeiro: acabei de ver um animal peçonhento a reivindicar o seu devido espaço de vida numa janela conhecida de computador; entre ele e nós, quem pode mais se movimenta.