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Lamento

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Um breve lamento: queria ter conhecido o poeta Paulo Leminski em vida, queria ter conhecido do mesmo modo outros lugares, outras pessoas, queria ter força pra fugir dos sentidos indefinidos, da magoa gritante, da ira aguda, do registro ambulante sobre a (im)possibilidade de ser preciso com a palavra e, ao mesmo tempo, agradar provincianos e provincianas de plantão, e escrever (im)precisamente sobre uma figura que não respira…

Consciente, e sem consultar a cabeça, de certo não iria a lugar algum; estático, ficaria como um detrito de memória num deserto desconhecido, miúdo, invisível, feito alguém a coisificar-se. Na ausência de mais um erro, (res)suscitei o poeta, mais uma vez o personagem do poeta paranaense, a soma emocional do poeta maldito e analfabetizado, o propósito argumentativo de uma passagem escrita de tempos em tempos. Em parte, com a leve impressão de ter aqui me expressado num estado de descrença doce e abjeta, como se o nosso redator fosse um falso defunto incompreendido, talvez, resultado tentador da influência das negativas de um narrador-personagem ou de um herói não moralizante, tirado de uma das folhas realistas de Machado de Assis.

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Papagaiagens

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Em “Onde os fracos não tem vez”, o personagem do espanhol Javier Bardem mata impiedosamente suas vítimas; munido de uma “espingarda” movida a gás – se é que minha memória fotográfica passa no teste dos especialistas do gênero –, o assassino se apresenta com uma frieza incorrigível.

Impressiona quando o sujeito tira – na moeda – a sorte (entenda-se o direito de viver) de um vendedor de um estabelecimento comercial à beira de uma rodovia. “Trata-se de um velho capitalista qualquer e inconsolável”, diria um amigo socialista. Diante do assassino não declarado na cena, o comerciante parece transmitir o mesmo susto ou espanto que eu tive, e que – acredito – outros que assistiram a obra cinematográfica também tiveram.

A frieza singular do assassino impressiona pela paradoxal admiração artística que ele pode transmitir na tela; sem dúvida, o comportamento do personagem é de um ser fora do comum, comovente.

Depois de um diálogo em tom filosófico, em que o comerciante é questionado sobre a origem de seus bens materiais – herdados graças ao parentesco da mulher – uma moeda é alçada ao ar pelo outro, sob a atenção do olhar convulsivo de um homem sangue frio.

Cara ou coroa? Não me lembro bem, mas a vida “salva” do comerciante representa, para o cineespectador, uma espécie de alívio de imersão! Quer dizer, a tensão da cena coloca o público no lugar da vítima em potencial, salva por um gongo. (Olho ao redor: não noto sádicos por perto; os sádicos citadinos ou não se escondem neste exato momento; nada como uma falsa sensação de vizinhança.)

Por uma tosca associação de ideias, o filme – que rendeu o Oscar de 2007 na modalidade ator coadjuvante a Javier Bardem (na prática, nem tão coadjuvante assim) –, me trouxe a lembrança de uma suposta polêmica em torno da obra de Machado de Assis.

Papagaiam alguns que Machado não deu a importância devida à figura do escravo no conjunto de sua obra; o dito Bruxo do Cosme Velho teria sido supostamente um mulato com mentalidade de pessoa branca. Como dizia um falecido professor: uma discussão bizantina! Machado merece atenção, decisivamente merece abordagens menos sociológicas e fantasiosas.

Bom mesmo que a representação social da ficção seja diferente da não ficção ou da vida fora do texto. Do contrário, arrisco polemizar: o grau discutível de verossimilhança de representações sociais do defunto-autor machadiano e a imagem do assassino incorrigível do filme dos irmãos Cohen não teriam a menor graça.

Entre a mentira da verdade e a verdade da mentira, o que exatamente papagaiar?

Alguém se atreve a admitir um lado desta sentença sonora?

Se por acaso alguém inventar de falar da verdade…

Melhor. Paro por aqui, envergonhado. Papagaios não podem ter opinião própria.