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A filosofia do lepo lepo

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A chamada ostentação da música contemporânea brasileira (Imagem de reprodução)

por Elizabeth Suarique, a Bete

Ainda estou esperando o tema sucesso para o carnaval 2015, acho o nordeste o pregador oficial das músicas da folia. No ano passado o lepo lepo irrompeu na festa desde o mês de novembro de 2013 e ainda em agosto deste ano foi tema obrigado na balada, os estrangeiros no mundial adoraram! Até na semana de Páscoa em Montevideo foi o tema para dar a bem-vinda ao turista brasileiro que agora gosta muito de dar seu rolezinho pelo país da fumaça liberada. Mas, o que significa o lepo lepo? Perguntei para meus colegas das letras e da linguística aplicada, mas ninguém conseguiu traduzir para mim, procurei nos dicionários o tal vocábulo, me achei entre o lepismatideos e o leporídeo, esquisitices da ciência taxológica para falar de traças e coelhos, no entanto, nada de lepo lepo.

Com certeza, na hora da festa todo mundo sabe o que significa, é só mexer o quadril e balançar a mãozinha, o resto você entende né. Coisa boa aprender o sentido semântico de uma palavra no baile mesmo. Alguém pode acreditar que esta estrangeira doida tem aprendido as musicas mais ruins é que não são as representativas da cultura brasileira. Quando cheguei ao Brasil imaginei que a Bossa Nova, o samba e a timbalada fossem parte da cultura geral, imaginei um coral de brasileiros confraternizando sempre ao redor das músicas com mensagem, com letras que são verdadeiros poemas nas vozes da Maria Bethania e do Gilberto Gil. Estava enganada, me encontrei de frente com as músicas da Valesca Pouposuda e seu beijinho no ombro, Anita e o show das poderosas e a música para cortar as veias com biscoito maria, do sertanejo universitário.

Para a minha salvação, teve pessoas muito cultas que acharam uma barbaridade ouvir-me cantando num português ruim as músicas da baixaria, estas pessoas muito compreensivas com a minha ingenuidade, explicaram para mim como essa música não significa nada, não tem profundidade, coisa de baixa categoria, para alienar esse povo que, infelizmente, não tem educação, a massa que não tem cultura. Embora, não é diferente ao que acontece nestas sociedades globalizadas. No meu país acontece, nas metrópoles e na cidazinha do interior. O que chama minha atenção é o jeito para  resolver a questão, achei muito afim as atitudes brasileiras, porém, vamos falar da filosofia do lepo lepo.

Uma coisa que eu aprendi deste povo é sua disposição à pegação, isso não tem a ver se você mora no sul ou no norte, no centro oeste ou no sudeste, a putaria é a mesma, só que alguns disfarçam mais que outros. O lepo lepo fala dessa atitude: o cara está ferrado com as dívidas pela ostentação de ter seu carro novinho, não consegue pagar com o salário de miséria que não chega na hora certa e, além disso, fica na pindaíba sempre. No único que o cara acredita é não seu tesão, se acha um cara gostoso e vai perguntar para sua namorada o que é importante: é dinheiro, é amor ou cumplicidade, mais se quiser ficar é por que ela gosta de seu rá rá rá lepo lepo…  então, acho que homem brasileiro resolve com seu desempenho, ainda que não tenha carro e não tenha teto.

Nada diferente ao que se pode achar nas músicas do Tango mais arrabalero, na canção Plástico de Rubem Blades o nos personagens de Julian Sorel ou nossa querida Emma. Em fim, o que distingue a música brasileira, além da crítica social é o movimento do quadril.  Olha todos os aspectos sociológicos que uma estrangeira pode perguntar ao respeito, até da para uma dissertação. Se o Psirico fez uma análise desde o padrão neoliberal ou dos estudos culturais, não tenho certeza, mas como aprendi na ciência literária: o crítico tem que diferençar a intenção do autor da recepção do público. O lepo lepo reflete essas circunstâncias da vida pós-moderna no qual cada pessoa tem que adotar um rol do consumismo para ser reconhecido. O assunto chega até no modo de se representar nas suas práticas sexuais, neste caso do homem que tem que assegurar seu tesão dentro da ordem social. Por outro lado, a mulher, bem implícita no assunto, oculta no pronome “Ela” (e aí vem o assunto do gênero, mas me perdoem, não vou mexer nisso que eu não milito nos movimentos feministas), representada como a mulher interesseira ou aquela cuja função é com prazer o desejo do homem. As músicas populares saem das situações concretas da vida, temas com os quais a maioria pode se sentir identificado, embora faça sua escolha a favor ou em contra. É só sair para a rua, sobretudo nestas datas de comemoração, o cara no seu carro, bem devagarinho, de óculos escuros, fazendo ostentação, a mulher acorde a esta atitude com seu salto 25, seu vestido solto à espera de uma cantada.

Acho que vou ganhar briga, mas não procure moralidade nestas palavras não, é só o olhar de uma estrangeira que escreve um português ruim, que às vezes compreende tudo errado. Já terei oportunidade de aprender direito às coisas verdadeiras da cultura brasileira. É isso aí. Boas festas e se alguém conhece a música do carnaval 2015 me diz que eu curto!