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Peregrinando a Juazeiro do Norte – cap. 3

atualizado 13 outubro 2014 Deixar comentário

por Ísis Gaia

“É bom, minha Marília, é bom ser dono/de um rebanho, que cubra monte e prado;/porém, gentil Pastora, o teu agrado/vale mais que um rebanho e mais que um trono.” (Thomas Gonzaga, poeta português)

Quando acordo, já é outro dia. Foi-se uma tarde e uma noite inteiras. São quase seis da manhã e tudo tem cheiro de primavera… Se primavera tiver cheiro de café, acertei em cheio. Roberto e Joana comem apressadamente para não perder o horário. Ele direto para o cubículo reservado aos porteiros no bairro de Lourdes, em um edifício cujo a especulação imobiliária resolveu batizar de Liras de Gonzaga, em referência ao poeta que dá nome à rua onde foi construído. Ela direto para uma das sem número baias equipadas de computador e telefone, sob os olhos fiscalizantes do supervisor, a telefonar em nome de uma empresa que nunca ouviu falar. Ajuntados há mais de 10 anos, saem juntos e entram no Chevette que Roberto ganhou de herança de um tio querido. A primeira parada, na Thomas Gonzaga, não demora muito tempo. Menos de vinte minutos, chego lá, garante Roberto. De lá, Joana ainda vai para onde passa boa parte do dia: o ônibus. Não sei dirigir, nunca aprendi, nem quero aprender, agora, depois de velha, piorou, comenta Joana sem revelar a idade. Talvez uns 40, imagino eu. Duas horas depois, chega na empresa internacional de telemarketing, que faz questão de levar no seu nome um “Do Brasil”, antes de dizer que tem Alma Viva. Se não fosse a carona de Roberto, seriam 3 ônibus e 3 horas. Incrível como os bairros nobres são bem abastecidos com o transporte público – e não usam. Antes que o sono pudesse se afastar de meu corpo, a luz invade a sala rapidamente no entreabrir da porta. Saíram. Não muito tempo depois ou muito tempo depois, como saber sonoambulante? Samanta acorda e começa a revirar as coisas na cozinha: quer me ajudar a fazer salgado? Aceitei o convite, mais um dia começa. Ajudo, mas e a minha carona? Cadê o primo da vizinha que vem visitar a tia? Preciso chegar em Juazeiro do Norte…

(continua)

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Peregrinando a Juazeiro do Norte

atualizado 13 outubro 2014 Deixar comentário

por Ísis Gaia

21 de setembro de 2014, quatro horas da tarde, calculo a distância de Delfinópolis em Minas Gerais para Juazeiro do Norte no Ceará. 2223 km de viagem. Fecho a conta na lanhouse, pego minha mochila e vou em busca de dois casais mineiros que conheci uma trilha na Serra da Canastra com a esperança de que eles ainda não foram embora.

Chego na casa onde eles estão hospedados e os encontro colocando a mala no bagageiro do carro. – Lembra de mim da cachoeira? Preciso de carona para o Ceará, para onde vocês estão indo? Belo Horizonte, ouço aliviada a resposta, ao saber que os primeiros 400km estão garantidos, ainda que com a mochila no meu colo, apertada entre Cláudio e Samanta no banco de trás do Chevette surrado. Vejo com saudades, os últimos morros, estradas de terra e caminhos da Canastra antes de começar a dormitar cansada e balançar nas curvas.

Já de noite acordo, pouco depois da metade do caminho percorrido. Começo a conversar sobre hospedagem em Belo Horizonte: um lugar limpo, seguro e barato dentro de um orçamento dos R$ 37,25 que me restam no bolso. De pronto, Samanta oferece o sofá de sua casa, que divide com a irmã, Joana, e Roberto, seu cunhado, na Vila Cafezal, periferia na serra belohorizontina. Chegando no bairro, paramos o carro no asfalto para subir o morro. Cláudio se oferece para carregar a minha mochila com uma frase infeliz e um sorriso malicioso no canto dos lábios, você é muito fraquinha, moça. Eu nego. Afinal, sexo frágil o caralho.

Chegamos na casa, bem simples, humilde, um barraco com paredes chapiscadas de cimento, sem pintura. No interior, o cuidado feminino sobressai nos panos de prato pintados a mão, no lençol estampado que cobre o sofá que será minha cama. Tomo banho rápido e apago, ainda sem saber como será a segunda-feira.

(continua)