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jornalista sem solução sobe ao palco

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

Intrometido, jornalista sem solução nos diz:

– Hoje eu devo dificultar o máximo possível; hoje eu devo estar incompreensível, impossível. Se quiser, pessoa, se dirija à realidade. Ou aceite a ordem social vigente. Mais: aceite também a ordem pessoal vigente. Se não entender, releia ou mude de estação. Vai, vai para outra dimensão virtual. Isso; prive-se das ambições e das dificuldades. Pontua um fim confortante. Se entregue a fabulação do existir por existir. A ironia diária não mais te prejudicará no convívio social, pois nesta concepção de vida, a audiência já não faz mais sentido. Reproduza o discurso do dane-se a audiência! Se puder. Prefira um tom aparentemente apaziguador, se desejar. Cara audiência… a frieza desta análise pode ponderar emoções exageradas. Calma. Calma aí? O habitual “espera pra ver o que acontece” pode servir de herança bem dita: ficar à toa na vida e chamar o amor para ver a banda passar de cima do coreto no centro de uma cidade que finge existência. Ecoe o método caseiro da observância. Numa tradução possível, chama-se a Idiotia da objetividade nas palavras de uma múmia do século XX. Experimenta contrariar a moda de quem fala e parte de um suposto e caprichoso centro das atenções. A propósito, é doce o sabor de O puro observar. As manifestações pessoais podem ser perigosas e ao mesmo tempo nada coerentes com os atos. Analisa a reinvenção cotidiana de um hipotético professor de matemática de aulas eventuais do Estado. E que ganha o que merece? Nem tanta importância o dinheiro possui assim na vida destas pessoas. Por acaso o dinheiro governa a vida de vocês desde quando? Não, não me entendam mal: a necessidade não deve ultrapassar o suficiente para o patrocínio dos lanches diários. Qualquer desejo agora pode ser artigo de luxo. Concordem ou não, foi o homem quem inventou o Capeta. É necessário ainda afirmar quem inventou o dinheiro? O excedente de capital só pode ser traduzido como ostentação, sorriso cínico. Vaidade demais só pode ser gesto bem sucedido na análise didática de Max Webber, acerca da Ética protestante na era do capitalismo. Neste caso, o céu também só pode ser artigo para burguês decadente pagar a sua conta a prazo longo e a juros baixos, financiado por instituições governamentais. Sem querer ser alguma coisa… Ato falho, cara audiência; ato falho, ainda esta história de tratar sobre a matéria de que não teria nada de matéria, se não fosse uma invenção humana. Era o que eu deveria ter considerado já no início desta leitura. Se a ordem dos atores não altera a representação do palco, melhor ser lacaio de algum poder instituído? melhor deixar me levar pela lei das leis, a lei do menor esforço? Se eu pudesse, eu espalharia esta ideia em papel picado do alto de minha débil vaidade; agora não me interessa a materialidade e verossimilhança desta composição, e olhe lá. Acreditem ou não. Esta foi mais uma experiência de um principiante na arte de propagar o desejo humano mais forte entre os atestáveis: a destruição e a reinvenção das tradições culturais; coisa de iconoclasta, sujeito sem torcida, e com mania de franco atirador.

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Uma sala de aula incomum (parte 4)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O amigo Contrarregra deixou escapar um dito:

– Caaaara…

Ele costuma abrir a boca com a aparência de quem vai explodir:

– Caaaara…

Juro que, diante de tal manobra teatral, a sensação de espectador é a de alguém que subitamente vai presenciar um palhaço de circo sem circo arrotar uma sucuri de seu bocão de litro:

– Caaaara…

Com muito esforço, a sucuri… ou melhor, o vocativo daria lugar a um sentido corrente.

– … não gosto de etiquetas!

Seu modo de falar sempre me inspira um arremedo de falta de originalidade.

– Por que, Caaaara?

– Por que sou do contra, porra! – responde-me com ar de incompreendido.

Passado? Presente!

– Caaaara…

Ele agora se dirigia para sua namorada:

– Caaaara…

Antes de nosso amigo pensar em repetir seu bordão, entrei em cena com certo exagero:

– Caaaara de alho!

Os dois estalaram o zoião pro meu lado.

– Faaala jornalista sem solução! – o amigo me cumprimentou.

Em seguida, apresentou-me a mina.

– Mano. Tenha a honra de conhecer a Vagabunda! Suponho que ainda não a conheça…

Fiquei sem jeito. Engasguei com a saliva que eu já não tinha mais por causa dos últimos lançamentos de cuspes. Minha cara foi direto pro chão, num efeito visual de derretimento de face sem precedentes na história da animação de Hollywood.

– Vaga… bunda? – perguntei incrédulo.

– É, cara. Vagabunda!

Forçando um falso descontrole, ele passou a repetir:

– Vagabunda! Vagabunda! Vagabunda!

Estranhamente a moça ria com ar de aprovação, como se ela – justamente ao nosso lado – tivesse sensibilidade fora do normal.

Opa! Na verdade, ela acordaria pra vida na sequência.

– Calminha mocinho! – disse-me num tom de intimidade forçada. – É que eu faço parte do Femen… Tá ligado?!

Cara de dúvida cruel. Fui salvo pelo Contrarregra:

– Cara, o Femen, daquelas gostosonas que protestam pela TV com os peitos de fora, morô?!

Ah… Sim… Como é que eu não tinha pensado? Femen!

– Então, jornalista sem solução – disse-me Contrarregra, de bate pronto – vai rolar uma aula louca aqui no Subsolo, daqui a pouco…

O parceiro nem me deixou ter outras dúvidas. Emendou a fala, friccionando as mãos:

– E vai vir umas par aqui cara. Aproveita e fica ae. Perde esta não, porra!

Perde esta não, porra!

Era muita novidade pra minha cabeça. Literalmente, parei de respirar…

(continua)