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Peregrinando a Juazeiro do Norte – cap. 5

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por Ísis Gaia

Volto para casa de Samanta de ônibus, afinal, eu tenho dinheiro e um resto de salgados para carregar. Conto as novidades, partirei amanhã… Repartimos o lucro, descontados os custos, R$ 45 reais para cada. Nada mau. Praticamente dobrei minhas reservas financeiras. Minha anfitriã não gostou muito da notícia da partida. Ela queria me apresentar o primo da vizinha que ainda não apareceu. Mesmo assim, disse que ia fazer um lanchinho para minha viagem e começou a disparar perguntas… Até onde você vai? Até quando fica? Quando volta? Você não tem medo? Eu não sei, eu não sei o que vai acontecer amanhã na minha vida, nem no próximo minuto. Só sei das coisas depois que elas acontecem, disse, descobrindo-me totalmente ignorante, mas com uma serenidade que eu não tinha antes de viajar. Noite chega e com ela, Roberto e Joana, estafados de sua jornada de trabalho. Samanta com uma voz melancólica não deixou eu dar a notícia. Passa o dia praticamente sozinha. Terminou o ensino médio, quer fazer faculdade, mas ainda não sabe de quê. Minha futura viagem fez a pequena menina fervilhar em sonhos de crescer. De gastronomia a direito, passando por enfermagem, seus olhos corriam as opções de curso pela internet. Roberto cortou a seco com a língua afiada o início da utopia de sua irmã mais nova: “para que faculdade? Tem de arrumar um emprego! Vejo os meninos lá do prédio, passam a vida fazendo molecagem!”. Para ele, universidade é lugar de vagabundo maconheiro e filhinho de papai. No prédio em que trabalha, há uma república de estudantes. “Aquilo lá é uma bagunça. Ninguém quer nada com nada. Faculdade é desculpa para vadiar”. Mudo o rumo da prosa sem ter noção da gravidade de meus atos… Preciso estar amanhã 5 da manhã na Federal em Pampulha, tem ônibus? Joana também tentou acalmar os ânimos e entrou no papo: Nós te levamos amanhã e Roberto pode aproveitar e me deixar na porta trabalho… “Rum”, gruniou o macho da casa, talvez se sentindo desafiado pelas mulheres em “seu” próprio teto, “se quiser, levamos você agora”. O clima amistoso do lar se desfez. “Imagina, qualquer uma que me aparece pedindo carona, depois bota ideia de faculdade na cabeça de Samanta, interrompe o que eu falo e daqui a pouco o quê? Isto aqui vira um bordel?”, meu coração quase pulou da boca de susto quando ele esmurrou a mesa. Sorte minha que a casa era de Joana e não dele.

(continua)

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Peregrinando a Juazeiro do Norte – cap. 3

atualizado 13 outubro 2014 Deixar comentário

por Ísis Gaia

“É bom, minha Marília, é bom ser dono/de um rebanho, que cubra monte e prado;/porém, gentil Pastora, o teu agrado/vale mais que um rebanho e mais que um trono.” (Thomas Gonzaga, poeta português)

Quando acordo, já é outro dia. Foi-se uma tarde e uma noite inteiras. São quase seis da manhã e tudo tem cheiro de primavera… Se primavera tiver cheiro de café, acertei em cheio. Roberto e Joana comem apressadamente para não perder o horário. Ele direto para o cubículo reservado aos porteiros no bairro de Lourdes, em um edifício cujo a especulação imobiliária resolveu batizar de Liras de Gonzaga, em referência ao poeta que dá nome à rua onde foi construído. Ela direto para uma das sem número baias equipadas de computador e telefone, sob os olhos fiscalizantes do supervisor, a telefonar em nome de uma empresa que nunca ouviu falar. Ajuntados há mais de 10 anos, saem juntos e entram no Chevette que Roberto ganhou de herança de um tio querido. A primeira parada, na Thomas Gonzaga, não demora muito tempo. Menos de vinte minutos, chego lá, garante Roberto. De lá, Joana ainda vai para onde passa boa parte do dia: o ônibus. Não sei dirigir, nunca aprendi, nem quero aprender, agora, depois de velha, piorou, comenta Joana sem revelar a idade. Talvez uns 40, imagino eu. Duas horas depois, chega na empresa internacional de telemarketing, que faz questão de levar no seu nome um “Do Brasil”, antes de dizer que tem Alma Viva. Se não fosse a carona de Roberto, seriam 3 ônibus e 3 horas. Incrível como os bairros nobres são bem abastecidos com o transporte público – e não usam. Antes que o sono pudesse se afastar de meu corpo, a luz invade a sala rapidamente no entreabrir da porta. Saíram. Não muito tempo depois ou muito tempo depois, como saber sonoambulante? Samanta acorda e começa a revirar as coisas na cozinha: quer me ajudar a fazer salgado? Aceitei o convite, mais um dia começa. Ajudo, mas e a minha carona? Cadê o primo da vizinha que vem visitar a tia? Preciso chegar em Juazeiro do Norte…

(continua)