voltar

Papagaiagens

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Em “Onde os fracos não tem vez”, o personagem do espanhol Javier Bardem mata impiedosamente suas vítimas; munido de uma “espingarda” movida a gás – se é que minha memória fotográfica passa no teste dos especialistas do gênero –, o assassino se apresenta com uma frieza incorrigível.

Impressiona quando o sujeito tira – na moeda – a sorte (entenda-se o direito de viver) de um vendedor de um estabelecimento comercial à beira de uma rodovia. “Trata-se de um velho capitalista qualquer e inconsolável”, diria um amigo socialista. Diante do assassino não declarado na cena, o comerciante parece transmitir o mesmo susto ou espanto que eu tive, e que – acredito – outros que assistiram a obra cinematográfica também tiveram.

A frieza singular do assassino impressiona pela paradoxal admiração artística que ele pode transmitir na tela; sem dúvida, o comportamento do personagem é de um ser fora do comum, comovente.

Depois de um diálogo em tom filosófico, em que o comerciante é questionado sobre a origem de seus bens materiais – herdados graças ao parentesco da mulher – uma moeda é alçada ao ar pelo outro, sob a atenção do olhar convulsivo de um homem sangue frio.

Cara ou coroa? Não me lembro bem, mas a vida “salva” do comerciante representa, para o cineespectador, uma espécie de alívio de imersão! Quer dizer, a tensão da cena coloca o público no lugar da vítima em potencial, salva por um gongo. (Olho ao redor: não noto sádicos por perto; os sádicos citadinos ou não se escondem neste exato momento; nada como uma falsa sensação de vizinhança.)

Por uma tosca associação de ideias, o filme – que rendeu o Oscar de 2007 na modalidade ator coadjuvante a Javier Bardem (na prática, nem tão coadjuvante assim) –, me trouxe a lembrança de uma suposta polêmica em torno da obra de Machado de Assis.

Papagaiam alguns que Machado não deu a importância devida à figura do escravo no conjunto de sua obra; o dito Bruxo do Cosme Velho teria sido supostamente um mulato com mentalidade de pessoa branca. Como dizia um falecido professor: uma discussão bizantina! Machado merece atenção, decisivamente merece abordagens menos sociológicas e fantasiosas.

Bom mesmo que a representação social da ficção seja diferente da não ficção ou da vida fora do texto. Do contrário, arrisco polemizar: o grau discutível de verossimilhança de representações sociais do defunto-autor machadiano e a imagem do assassino incorrigível do filme dos irmãos Cohen não teriam a menor graça.

Entre a mentira da verdade e a verdade da mentira, o que exatamente papagaiar?

Alguém se atreve a admitir um lado desta sentença sonora?

Se por acaso alguém inventar de falar da verdade…

Melhor. Paro por aqui, envergonhado. Papagaios não podem ter opinião própria.