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Num potencial terreno de fabulação

atualizado 9 maio 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Incluindo um rolê de metrô, um filme breve passou por minha cachola. Uma semana depois, voltei ao chamado Vale do Anhangabaú. Desta vez, o tema não seria a política e os retratos de democratas em ato pela democracia. Por um acaso dos acasos, me vi novamente no bendito Anhangabaú. A., a menina tranquila, também marcaria presença em nossos diarios. Na urgência de In Sampa, ela tende a ser uma representação recorrente. Pois bem, simulei um suposto recurso de cinema cult para esta menina. “Toca aqui, A.!” Brusco olhar de incompreensão. “Quêêêêê?”. Busquei um céu azulado e vi a imagem de A. paralela a minha subindo subindo e tocando a palma da mão na minha lá no alto com o complemento de um “toquei, periodista”! Agora sim! “Agora sim!?”, me inquiriu com riso mudo a menina tranquila. A. ficou sem me entender, mas ficou… tranquila; ficou previsivelmente lúcida. De certo, ela cravou que sou doido varrido e viajo com a cabeça pra fora de uma janela de ônibus antigo. Mas nem liguei… Expliquei para a menina que estava criando uma imagem de futuro. Imagem de futuro, tá ligada? “Uma imagem de futuro, ok?” Juro, ela repetiu “uma imagem de futuro, ok” e voltou à tranquilidade que lhe caracteriza. Um dia quem sabe, podemos tratar em específico deste seu perfil… Mas naquela tarde de 24 de abril de 2016, eu preciso assinalar, o que eu mais buscava não era ser surpreendido pelas nuvens. Como se eu tivesse esfregado uma lâmpada ancestral, a força de um destino veio à tona: um acontecimento com ar de que já estava escrito. A. e eu descobrimos que as vagas para assistir a uma peça do renomado Shakespeare estavam esgotadas num teatro. Putz putz. Menciono a suspensão de uma agenda programada, uma sessão teatral que celebrava o aniversário de nascimento do dramaturgo inglês no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil. Para quem não conhece, o CCBB sampeano fica do lado da estação de metrô da Sé, onde a nossa reportagem esteve num 13 de março. Lembram-se dos vídeos que mostram o ex-senador Eduardo Suplicy cantando e dançando forró com a mulherada?

De volta. Mirei a face da menina tranquila. “Batemos com a fuça na porta do teatro, A.?” Um plano B logo veio. Ou viria. Estava escrito ou maktub na lata! Duas horas depois, às 18 horas, teríamos cinema iraniano no mesmo CCBB. Putz putz de novo. Ondas se criaram em minha testa. Cinema I-ra-ni-a-no? Se era ineditismo que procurávamos, acertamos em cheio num alvo dado. Ingressos adquiridos. Busquei um relógio numa parede do CCBB sampeano, que dá vida atual a um prédio antigo e muito bacana. Eram exatamente 16 horas, quando A. e eu decidimos gastar o tempo. Foi então que A. e eu resolvemos caçar um boteco pelas redondezas. Um boteco destes de cerveja barata e chão remelento. Eu quero dizer, enquanto caminhávamos por vielas do centro velho de Sampa atrás de uma saída, sugeri à minha acompanhante o retrato de um boteco cruel para ver se ela iria se espantar com a proposta. Notem a reação dela: “Por mim, tudo bem”. A tranquilidade costuma exalar de uma maneira curiosa desta estudante do quinto ano do curso de Gestão Pública, que eu confesso às vezes ficar impressionado. Como também fiquei atento à raridade de almas vivas circulando nas imediações do centro velho da cidade, numa tarde cinzenta de domingo. A nossa caminhada para gastar o tempo nos levou a um espaço vivo. Quando eu notei, disse em alto e bom som: “Porra, eu acho que conheço este lugar!”. A menina tranquila e eu havíamos pisado num potencial terreno de fabulação.

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Bônus de imagens do episódio