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A mais nova última invenção

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

A vontade às vezes se alterna entre o desejo de não dormir e ficar sempre acordado e o desejo de dormir e não acordar mais. Parece desejo de morte; alguns podem ver tal retrato como um desejo de paz; os demais devem ter coisa melhor pra fazer, de fato.

Visualizo a paz suscitada num chiclete grudado num pequeno buraco de uma parede, uma abstração que o chamado “homem de bem” insiste em negar, uma ideia que não cola mais. A propósito: o que fazer com as ideias que apenas nos servem de muletas?

De escora, o anti-herói desta época de narcisismos e de monstros midiáticos tem a posse especial de uma cadeira – o que muito lhe sustenta a gravidade da vida. O cansaço pode ser descontado na superfície visível de uma cama. De vez em quando o repórter sai a campo e esbarra numa testemunha que lhe desabafa miudezas particulares: a arte de coletar informações para o nosso guia secreto de sobrevivência. A paz está com Deus? A paz está com os Homens? A paz não passa de uma grafia? Desconfio que “os nossos guias de sobrevivência” não possuem informações confiáveis, muito menos superlativas.

Um capricho para entender que a paz pode não passar de mais uma palavra com múltiplos sentidos. Dentro da cachola, as ideias voam livremente, quase sempre a realidade que nos cerca cai na vertical de um céu como o rascunho de um pássaro que súbito perde as asas da liberdade fabricada. A paz é a ausência de.

Não sei exatamente porque me importo em repetir o que não enxergo direito. Se um sujeito nasceu sem asas, que lhe importa os formalismos metafóricos de ocasião? Na realidade recorrente, percebemos um cotidiano parcialmente visado, o assunto principal que deveria ser bem melhor definido.

As ruas e avenidas de grandes e médios centros estão sempre abertas, poucos percebem o trânsito caótico. A paz não pode ser um desejo coletivo; vive-se mais dentro de casa do que… Vejo a cidade como um retrato universal; sua imagem é curiosamente a ausência de. Convenço-me repentinamente que a paz universal pode ser um desejo particular, muito particular pensar que a paz pode ser um desejo particular – motivo que pode suscitar um arrepio na testemunha mais próxima: a paz está no ar; quem sabe a paz esteja mesmo no ar para qualquer um que deseje ver o que lhe cobre o bendito umbigo.

Volto à ausência de. Desde quando o que nos “falta” deixa de fazer sentido?

Hoje, eu tenho algumas perguntas; ocorre-me a falta de respostas. E se às vezes invento respostas, só pode ser para criar caso. Normalmente as respostas são infinitas e de difícil entendimento. Quem questiona (muito) os cantos universais, ou quem procura o (auto)conhecimento sem descansar um pouco de si pode não ver um naco que seja de paz suscitada. A paz é uma boa pergunta, a ausência de paz é o sinal da nossa mais nova última invenção.